Capítulo Oito: Voto de Confiança

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"Obba foi o Vermelho que menos temi. Apesar da sua extraordinária técnica de combate corpo a corpo, não era muito esperto. Consegui derrotá-lo em todos os treinos que me desafiou, e matei-o da única vez em que lutamos a sério. Era excelente no manuseio de maças de armas, e sabia usar arco e flecha, o que era coisa rara entre nós. Quando os traí, foi dos poucos que me perseguiram. Fintei-o uma dúzia de vezes, certo que não era inteligente para me seguir o rasto. Mas viriam outros depois dele. Agravelli, porventura. Marovarola, provavelmente. Foi por isso que o matei. Para não deixar rasto."

― Lembras-te de Obba? ― perguntou Marovarola, com os seus olhos febris. Depois despejou-lhe um balde com água suja para cima, e Língua de Ferro balbuciou. Estava de joelhos, com as mãos e os pés atados a cordame e um bocado de pano húmido na boca. Vestia somente uma bragadura de linho encardido. Encontravam-se num casario abandonado, pelo que parecia, e o homem esguio de pernas arqueadas que cirandava com uma fluidez elegante e maneirismos aristocráticos à sua volta era Dagias Marovarola. Um dos irmãos que traí. Doía-lhe a nuca como os malditos infernos, e a língua parecia cortiça. Fora Marovarola quem lhe dera uma valente pancada, e o levara para ali. ― Tu, o mercenário, o desgraçado que nos traiu, a lutar pelo Império? A lutar por Landon X? Que espécie de escória és tu?

Língua de Ferro tentou falar, mas tinha a boca dormente e entorpecida pelo pedaço de pano. Reparava agora que Marovarola vestia umas calças em pelica e jaqueta de algodão em mau estado. O torso era musculoso e magro e o rosto angular e escuro, emoldurado por uma cascata de cabelos negros e sebosos. Tinha um ferro de ponta em brasa na mão esquerda.O homem arrancou-lhe o pedaço de pano da boca e Língua de Ferro cuspiu. Tinha as vias respiratórias cheias de água e de porcaria. Cuspiu-se todo quando disse:

― Marovarola. Por onde tens andado, filho da mãe?

― Isso importa? Sou eu quem faz aqui as perguntas.

― Se queres saber porque lutava eu pelo Império, terás de te esforçar mais do que isto.

Marovarola olhou, de uma forma que quase parecia casual, para o ferro em brasa, e explodiu numa gargalhada.

― Achas que sim? Achas mesmo, Valentina?

― Acho que capturaste o homem errado. Ou fizeste a pergunta errada.

― E qual é a pergunta correta?

― Porque é que traí os Doze Vermelhos.

Marovarola não pesou a questão.

― Porque é que traíste os Doze Vermelhos?

A resposta também não se fez esperar.

― Porque era jovem e apaixonado. Porque vocês eram um bando de cretinos que passavam o dia a medir pilas. Estava farto disso. Farto de vocês todos.

― Por causa de um par de tetas. Confessa, Valentina!

― Lucilla era muito mais do que isso. Quis fugir com ela. Ser mais bem pago pelos meus serviços. Conceber uma agência de influências secreta, chegar ao poder. Arrancar a cabeça a Cacetel e sentar-me no trono de acanto.

Os olhos de Marovarola piscaram.

― Que pretensão. E Maggia?

― O rapaz era o bode expiatório. Um simples moço de recados. Enviei-o para Cooper Ravoli, o homem que me pagou para dizer onde vocês estavam escondidos. Ravoli era espião de Cacetel, mas isso só eu e mais uns poucos sabíamos. Deixei Maggia com o grupo e ensinei-o nas nossas artes, para que quando eu e Lucilla fugíssemos e os homens de Ravoli nos apanhassem, ficasse ele com a responsabilidade moral da vossa captura. Mas os homens de Ravoli chegaram cedo de mais. Vocês resistiram, e Bar e Vivelma morreram. Vi como tu me olhaste. Já sabias que tinha sido eu o culpado. Não havia retorno, precisava fugir. Bortoli apanhou-me a confessar o plano a Luce e enfrentei-o, assim como a todos os que se colocaram no meu caminho. Obba foi só um homem que matei. Correu tudo mal e capturaram Lucilla. Tu capturaste Lucilla. Pensei por muito tempo o que lhe poderias ter feito.

Língua de Ferro - Um Sacana QualquerRead this story for FREE!