Capítulo 1

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PARTE 1: SIMULAÇÃO

Enquanto envernizo uma de nossas peças, meu pai separa uma cadeira e um banquinho para entregar aos últimos clientes de hoje. O céu ainda está claro, com a coloração rósea da tardinha; hoje estamos encerrando o expediente mais cedo, assim como todos em nosso país, devido ser essa a noite da Graduação.

Poucos minutos depois de eu terminar a cadeira que estava reformando, os últimos clientes chegam: o senhor Bernardes e seu filho, Rubens, meu amigo desde a infância. Enquanto nossos pais conversam e acertam o preço, mostro a ele a cadeira que acabei de refazer.

– É, parece que você está pegando o jeito.

– Quando você voltar já estarei profissional!

– Se você não ficar profissional em dois anos, pode escolher outro ramo pra trabalhar.

– Seu eu pudesse...

Seus dedos deslisam pela madeira, levemente trêmulos. Olho em seus olhos, que estão avermelhados – choro ou noites sem dormir, talvez os dois. Não posso evitar perguntar:

– Acha que está preparado?

Rubens respira fundo.

– Desde que me lembro, estou esperando esse dia, mas estar preparado para ele... não sei, eu nem vi o tempo passar. Parece que hoje mesmo estávamos brincando no rio. Vamos esperar para ver o que acontece na Graduação, quem sabe as coisas não mudam para nós, não é?

– É o que todo mundo espera.

O pai de Rubens caminha para a saída da oficina.

– Vai acordar cedo amanhã? – pergunto a Rubens.

– Com certeza.

– Nos vemos amanhã, então?

– Sim, os militares não vão acordar cedo para me levarem.

– Passo na sua casa.

O pai de Rubens o chama. Ao saírem, meu pai balança a cabeça para Rubens em sinal de consternação, como também um desejo de boa sorte.

São seis da tarde – a partir de agora todo o país entra em recesso. Fechamos a oficina de carpintaria, mas não saímos antes de passarmos o braço em uma pequena máquina grudada à parede, que faz a leitura de um microchip fixado em baixo de nossa pele – em todos nós, assim que nascemos, é implantado um, contendo nossos nomes, números de registros, idade e o que mais for necessário, como o número de horas trabalhadas por semana. Tranco o último cadeado e atravessamos a rua em direção à nossa casa, do outro lado, bem em frente. O sol ainda não se foi por completo, mas as ruas já estão vazias, e deve ser assim em todo o país.

Antes mesmo de abrirmos a porta já sentimos o cheiro do jantar. A comida dessa noite é de ótima qualidade. Carne bovina assada, arroz de primeira, legumes frescos, feijão inteiro – e não os grãos quebrados que costumamos ter nas dosadas rações semanais.

Em dias normais não temos uma refeição assim, mas graças à Graduação, cada família de Atlântida teve o direito de ir até a administração de sua cidade para receber uma cesta para essa noite. Afinal, por essa ser uma ocasião solene para o governo, ele presenteia o povo com uma noite de barriga cheia.

Sentamos nas cadeiras e nos recostamos à mesa. Minha mãe serve o jantar em suas melhores porcelanas. Apesar da comida quente e saborosa, nosso ambiente é frio e silencioso, apenas quebrado pelas perguntas de minha mãe sobre o dia e também sobre os Bernardes.

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