SÍNDROME DE ESTOCOLMO

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Lana

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Acordei com o cabelo grudado nas temporas.
A roupa ensopada de suor. Um nó sufocante na garganta.
Bati com força demais no despertador e ele caiu no chão se fazendo em pedaços.
Era só um sonho ruim.
Um pesadelo do qual eu nem conseguia mais me lembrar quando abri meus olhos. Mas a sensação ruim permaneceu e deixou a cama comigo.
Zunindo como uma mosca dentro da minha cabeça enquanto a água do chuveiro escorria. Cada particula do meu corpo doía, como se prevê-se que algo ruim estava por vir.

Enjoada demais, não tomei café e fui direto para o trabalho, dando uma última olhada em minha mãe desmaiada no sofá antes de sair.

Mas entre pedidos repetidos, rostos apáticos e tolos sorrisos amarelos, lá estava ele, aquele maldito nó apertando minha traquéia. Me roubando o ar.
Entre pedaços de tortas de chocolate e xícaras de café, arrastando meu dia lentamente a cada volta do relógio.

No fim daquela tarde rejeitando a carona de Samuel, peguei o caminho mais longo para casa. Não tinha presa, e quando dobrei a esquina chegando à poucos metros do portão a sensação ruim veio me receber.

Senti meu estômago se contorcer como se gritasse: 'Não entre! Dê meia volta, agora', não obedeci.

"cheguei!"_ gritei batendo a porta e tirando o casaco.

Então minha surpresa ela surgiu saltitante bem na minha frente com seu cigarro entre dedos e seu copo de uísque de estimação na outra mão.
Agarrou-me com a mão livre me arrastando até a cozinha com urgência.

"Miguel, voltou!", Disse ela eufórica como eu não via há muito tempo, quase derramando o conteúdo de seu copo no chão.

"Estou vendo...", Falei olhando confusa para aquela figura de 1,83m de altura, parado junto à mesa da cozinha. Senti meu estômago se contorcer novamente.

"Oi, estranha!"_ Exclamou Miguel com aquela voz rouca, ainda tão familiar para mim quanto aquele seu sorriso cheios de segundas intenções.

" Nossa..." _ ele suspirou e apagou o cigarro no cinzeiro sobre a mesa e me encarou também._ " Você está ainda mais bonita. Se é que isso é possível", e então, antes que eu pudesse processar o que estava acontecendo ele se aproximou e me puxou em um abraço que não retribui.
  Rangi meus dentes sentindo meu corpo todo ficar dormente de raiva. Surpresa ao notar que ele ainda tinha o mesmo efeito devastador sobre mim e tive que reunir todas as minhas forças para me afastar dele. Recuando alguns passos quando ele tentou me beijar. Ele sorriu derrotado, ergueu suas mãos e por fim recuou em silêncio, assumindo sua posição inicial junto a Maysa. Cerrei os punhos e me mantive firme tentando por os pensamentos em ordem.

" O que foi, Lana!?... Nem parece que você está feliz em ver Miguel novamente", resmungou Maysa decepcionada com minha reação.

"Feliz?"_ franzi a testa rindo sem humor algum.
"Você desapareceu por cinco anos. CINCO ANOS, SEU MERDA!...Sem um telefonema, uma carta, um Email, uma merda de um emoji. Nem sabíamos se você estava vivo, seu puto" _ gritei sem acreditar com o tom histérico de minha voz.

" Olha a boca, mocinha", advertiu Maysa fechando a cara.

"Quer saber... Que se dane!"
Falei e tentei alcançar a escada sem sucesso com minhas pernas ainda dormentes.

"Lana, espera...", Disse Miguel e me agarrou pelo cotovelo. "Me desculpe, está bem...", Reenvidiquei meu braço e amarrei a cara.

"Não é assim que funciona, Miguel. Você não pode partir do jeito que você partiu e um belo dia voltar achando que tudo vai continuar de onde você parou..."

Uma ruga surgiu entre suas sobrancelhas. Ele ergueu sua mão até meu rosto e dessa vez não consegui me afastar.
Foi então que notei que eu estava chorando.

"Você me abandonou quando eu mais precisava de você".

"Estou aqui agora, não estou?"
Sua voz parecia mais um sussurro quando ele se aproximou mais do que deveria.

"Está...Só resta saber por quanto tempo", disse e afastando seua dedos.as lágrimas me cegavam. Mas, cambaleei até a escada enquando minha mãe surgia da cozinha.

"Lana Campbell, volte já aqui!", gritou Maysa às minhas costas, mas subi as escadas correndo o mais depressa que pude até meu quarto.

"Tudo bem, Maysa. Ela têm todo o direito de estar zangada".
Escutei Miguel dizer enquanto arrastava Maysa novamente até a cozinha.

Maysa descobriu naquela mesma noite que eu não era a única a estar zangada com Miguel. Não precisei sair do meu quarto para ouvir os gritos no andar de baixo, assim que Ted voltou para casa do trabalho.
Escutei seus passos mesmo antes dele surgir derrotado na soleira de minha porta, implorando para que eu fosse com ele, mas não fui.
Tinha idade suficiente para escolher, ele disse e se despediu de mim com um beijo na testa. Da minha janela, o vi pôr sua mala na caminhonete e partir sem olhar para trás.
Não o culpo. Também partiria se pudesse.
                                *

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