Editoras #7 - O negócio das editoras pequenas

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Com o advento e subsequente barateamento da impressão digital, o número de editoras pequenas vem crescendo muito. Projetos de qualidade a preços razoáveis em tiragens reduzidas (em alguns casos de apenas 30 cópias) reduziram drasticamente o risco e a complexidade do negócio das pequenas editoras.

Elas surgem, normalmente, do sonho de aficionados por livros de criar uma casa editorial que contemple novos autores brasileiros contemporâneos. Tem se especializado em livros de poesias, contos e crônicas. Muito pelo tamanho menor e consequente custo (a maioria dos livros não chega à 200 páginas). Mais ainda para tentar dar voz à gêneros desprezados pelas grandes editoras.

Porém, ter um preço competitivo para vender não é uma tarefa fácil considerando o grande revés das tiragens pequenas: o alto custo unitário de produção do livro (custo total de impressão dividido pela quantidade de livros impressos). Não raro, o custo unitário de impressão é mais de três vezes maior para as pequenas editoras, em comparação com as grandes casas.

Como consequência, a margem dos livros tem que ser exprimida e não há como manter a competitividade do preço e arcar com a alta comissão exigida pelas livrarias (50% do preço de capa). Logo, as obras dessas editoras não têm acesso à cadeia de distribuição nacional e não são achadas nas livrarias.

Sem acesso às livrarias, as vendas são limitadas ao site da editora e diretamente proporcionais ao esforço conjunto da editora e do autor. Em alguns casos, a venda também pode acontecer no site das grandes livrarias. Contudo, mesmo neste cenário, a falta de investimento em marketing faz os livros serem virtualmente invisíveis ao público.


Com espaço físico e recursos limitados, cada livro não vendido é uma ameaça ao futuro da companhia. O estoque é o inimigo número um. E no afã de extinguir o estoque, muitas dessas empresas acabam se encurralando em três modelos de negócios básicos.

No primeiro caso, todo esforço da companhia é centrado em publicar a maior quantidade de livros diferentes o mais rápido possível. À longo prazo, a preocupação com a qualidade editorial tende a diminuir porque o que define o sucesso da editora é a compreensão da demanda máxima com precisão e a venda imediata dos livros impressos, não a qualidade do livro. Quando este modelo é levado ao extremo, a editora se transforma em uma fábrica de livros sem qualidade, vendidos apenas para familiares e amigos do escritor. O que parece um vantagem – lucro certo e quase imediato – acaba por limitar o crescimento da empresa a longo prazo.

No segundo caso, a luta pela qualidade dos projetos nunca é abandonada. Com isso a editora gasta mais recursos em cada livro, resultando num custo indireto maior por livro e, consequentemente, ela precisa vender mais exemplares de cada publicação. O resultado é uma maior exposição ao risco de não vender o suficiente que leva a uma vulnerabilidade maior da empresa. Contudo, havendo recursos suficientes (tempo, dinheiro e expertise) e um pouco de sorte, este modelo pode dar certo. É o caso de algumas editoras que conseguiram destaque depois do aval de críticos importantes, prêmios literários de renome ou a chancela de algum autor best-seller. Ainda assim, este será sempre um mercado de nicho (limitado e específico).

No terceiro caso, aposta-se na escala (fazer tiragens maiores para diminuir o custo unitário e poder arcar com a comissão das grandes livrarias). Essa opção é a que exige mais recursos e a de maior risco, uma vez que a editora terá que produzir e vender dezenas de milhares de livros, mas é o caminho para crescer rápido e deixar de ser uma editora pequena. Como o risco relativo de cada projeto é muito grande (em alguns casos, se o livro não der certo a empresa irá falir), um grande investimento adicional em marketing é aconselhado. E a forma mais recorrente é o investimento em um projeto gráfico que sobressaia aos demais livros.

São raros os modelos mistos, mas essa parece ser a melhor relação custo-benefício para as pequenas editoras. Infelizmente, normalmente não há dinheiro investir numa tiragem maior, nem para contratar uma equipe de marketing profissional e menos ainda para um gerente financeiro. Consequentemente, cabe ao dono fazer as coisas que ele não domina e falta tempo para se dedicar às que ele é realmente bom: produzir uma boa obra.


Sob a ótica do escritor iniciante, pode ser interessante apostar numa pequena editora que adote o segundo (que prioriza a qualidade) ou o terceiro modelo (que aposta em escala). Em alguns casos, pode ser ainda melhor do que ser publicado por um grande grupo editorial.

A explicação reside na importância relativa que você terá para cada uma delas. Grandes editoras chegam a publicar mais de um livro por dia. Se você não é relevante para ela, não haverá investimento em marketing, nem no projeto gráfico, nem de tempo para apresentar o seu livro para as livrarias. Como resultado, seu livro chegará às lojas, mas sem destaque algum, e após mais ou menos um mês, desaparecerá das prateleiras se não obtiver vendas extraordinárias. Não é raro o caso de escritores iniciantes que foram publicados por grades editoras e acabaram engolidos e queimados.

Em contrapartida, quando uma editora que usa o segundo modelo de negócios aposta em você, ela trabalhará o seu original à exaustão para que ele tenha a melhor qualidade possível. E isso pode lhe dar renome ou um prêmio literário e pode ser o início de uma robusta carreira. Essa é uma ótima opção para escritores de "alta literatura".

Paralelamente, para uma editora com o terceiro modelo de negócios o risco individual de cada escritor é muito grande. Ela precisará vender o seu livro e para isso investirá muito em marketing, eventos e distribuição. Essa é uma ótima opção para escritores de "literatura comercial".



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