Carne Morta

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     "Todos que comeram daquela carne adoeceram."



     Dos rios não vinham mais peixes, das árvores os frutos fugiram. As folhas envenenaram-se; caules e raízes: amargas. Os caçadores voltavam trazendo nos ombros... nem paca, nem cutia, nem macaco, um gato, uma cobra que seja... Nada. Tudo o mais também definhava.

     Nenhum pássaro. Silêncio! Nenhum inseto.

     Não havia mais nada andando, correndo, se arrastando por entre as árvores.

     Muitos deixaram a aldeia em busca de algo que salvaria suas gentes. Iam, por esses tempos, para muito longe, e mesmo assim não encontravam nada para mantê-los por mais uma geração. Por quê?!

     Seria longa a viagem de volta, para não levarem coisa alguma. E assim, iam cada vez mais se embrenhando na floresta... O que fizemos?

     Corram, mortais, corram...

     Por quantas Luas? Por quantos Sóis?

     Até cair sobre seus pés terra 'inda mais faminta.


***


     "Todos que comeram daquela carne enlouqueceram."


     As Parajás cobertas por plumas tinham partido. Pousaram em um local muito alto para os mortais as tocarem. Por quantos...? Sós, então...

     Um a um os Deuses viraram o rosto. Olhem!

     Mesmo as estrelas... se apagavam.

    Abandonada, a humanidade teimava. As crianças emagreciam rapidamente; os seios de suas mães não tinham mais com o que se encher - a não ser com o próprio sangue, que as mais famintas sorviam. Os anciões já não tinham forças. Os joelhos dobravam-se sob o peso. Às sobras. Os dias passavam, e eles demoravam-se... até não quererem mais. O tremer. O frio. Os olhos fechados. As sombras.


***


     "Todos que comeram daquela carne a vomitaram de volta."


     Na mira. O arco tenso.

     Uma flecha bastaria para matar a fome.

     Uma cervo-fêmea, entretida, a passos calmos, gorda. Um grande cervo que em 27 dias seria dois. O caçador expira. Silêncio! Um silêncio que até as árvores respeitam prendendo a respiração. Era um animal arisco, qualquer erro e fugia. Uma flecha bast...

     Zune no ar. Um mexer de orelha.

     Um espasmo. Salta. Tropeça. Se bate.

     Lá estava a flecha: cravada na carne.


***


     Nada de bom sairia de uma floresta em silêncio...

     Os olhos abertos, grandes, vagos. Fixos no caçador.

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