Um Péssimo Partido (Camila Antunes)

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Conto inspirado na pintura Baile no Moulin de La Galette, de Pierre-Auguste Renoir (1876)

Conto inspirado na pintura Baile no Moulin de La Galette, de Pierre-Auguste Renoir (1876).


Por Camila-Antunes  


Se havia sobre a face da terra alguém que pudesse ser considerado a personificação do cotidiano burguês parisiense do século XIX, esse alguém era Auguste Caillebotte. Ainda consideravelmente jovem se tornara o homem mais polido, vaidoso e austero da região de Montmartre, o boêmio bairro em que vivia. Voltando, agora, dos meses que habitou na América após o falecimento de seus já idosos pais, de quem herdou uma considerável fortuna − uma dentre as incontáveis vantagens que ele apreciava por ser filho único − mudava-se, de mala e cuia, embora segundo ele apenas por poucos dias, para a casa que o amigo Maurice Moreau dividia com o irmão.

Não há porque negar que isso seja, de fato, estranho. Quero dizer, preservar o título de modelo burguês requeria propriedades e, apesar de sua riqueza, a propriedade local da família foi a única coisa que lhe fora negada, já que a velha mãe impôs como condição para mantê-la que ele abrigasse cem crianças órfãs. Cem. Não um parente desafortunado, não a filha de uma prima pobre. Se cem garotos que perderam os pais, que mendigavam nas ruas, ou que foram abandonados em portas de igrejas, ficaria a seu critério decidir. Auguste, é claro, não estava interessado em adotar cem crianças, de modo que não encontrou dificuldade para doar o terreno, que pertencia aos Caillebotte por cinco gerações, quase, ao orfanato ortodoxo.

Ele fez de bom grado já que, para falar a verdade, toda aquela arquitetura ultrapassada nunca lhe agradou. Auguste nunca foi de se apegar a lembranças, menos ainda a bens. Não que ele não os apreciasse. Digo, os bens. Ah, o senhor Caillebotte os amava. − E como os amava! – Enquanto podiam servi-lo.

Aqueles termos, entretanto, lhe causavam demasiado enfado, apenas ao lhe visitarem a mente. E isto foi incentivo o bastante para seu desapego.

− Maurice! – gritou, os braços estendidos convidavam o amigo quelhe aguardava na estação.

O jovem senhor, protegendo do vento a cartola que cobria os cabelos ruivos e esvoaçantes, apressou os passos apara encontrá-lo e abriu seu sorriso infantil de sempre, que revelava as covas de suas bochechas, as quais infelizmente lhe favoreciam a aparência, reduzindo-lhe uma generosa quantidade de anos.

− Está vestido como um americano! – espetou Moreau, tão logo havia se afastado dos pequenos tapas nas costas que os dois ligeiramente trocaram. A ruga no intercílio era a prova de que a visão daquele terno de silhueta simples em um tão pomposo amigo realmente o espantara.

− Nada faz um homem se sentir mais deslocado do que ser tratado durante todo o tempo como um maldito estrangeiro. Então, desde que eu me vestisse desta forma e falasse palavras com pouca ou nenhuma quantidade de "R", conseguia ser tratado com alguma simpatia. Mas admito que não foi agradável e tampouco necessário manter as aparências em solo Francês, no caminho que percorremos do porto até aqui. – O outro sorriu e ofereceu para ele o valete que ajudaria com a bagagem. – E você, quem diria! Deixou crescer o bigode!

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