"Se tratando de sexo, desejo, prazer e tabu, a prostituição segue, mesmo diante de tantas metamorfoses sexuais, com os próprios negócios em ascensão. Aliás, diga-se de passagem, a prostituta é um personagem muito antigo na história da sociedade. Na antiguidade, eram tratadas com respeito e faziam sexo com os sacerdotes, o que era considerado um ato de celebração aos deuses", afirma Breno Rosostolato, psicólogo e especialista em educação sexual. Eu procurei o especialista para que ele me pudesse me explicar alguns detalhes sobre a prostituição pelo ponto de vista da psicologia — um aspecto importante que é comumente ignorado.
Como bem observado por Breno, mulheres vendem seus corpos desde a Idade Média. A atividade, naqueles tempos, sofria com mais preconceito do que nos dias atuais, mas desde já todos entendiam que a profissão era necessária para organizar os desejos da sociedade. Através da prostituição, jovens rapazes tinham sua iniciação ao sexo afirmando sua masculinidade. "Os padrões sexuais se tornavam estáveis com a presença das prostitutas, pois a ordem e a estabilidade social aconteciam mediante a satisfação carnal. A prostituição estava instalada tanto nos bairros nobres quanto naqueles frequentados por marinheiros e camponeses. Os bordéis eram lugares terapêuticos, nos quais homens casados, depois de uma discussão com a esposa ou preocupações rotineiras com a casa e com o trabalho, buscavam os serviços da prostituta para extravasar a raiva, a ansiedade e o conflito vivido", explica.
A maioria das pesquisas apontam problemas financeiros e sociais como as causas da prostituição — falta de oportunidade de emprego, conflitos familiares, necessidade emergencial de dinheiro e assim por diante. Algumas vertentes do feminismo discordam da figura da mulher que se prostitui por vontade própria e culpa o machismo embutido na sociedade. Porém, para Breno, existem outras questões importantes que costumam ser ignoradas. "Não sou ingênuo de não considerar que, de fato, existe um sistema patriarcal e que sempre violentou as mulheres como objetos, mas não seria radical a ponto de discordar das escolhas individuais. Existem outros fatores que levam a pessoa a se prostituir que passam por uma questão de desejo e vontades próprias também, levando em consideração uma pluralidade deste desejo e da sexualidade", comenta o especialista.
Quando questionado se é possível observar um perfil psicológico comum entre as garotas de programa, o entrevistado nega a existência de características em comum nas prostitutas da atualidade, mas ressalta que, na maioria das vezes, as mulheres têm entre 18 e 27 anos, possuem ensino superior, se auto-intitulam modelos e trabalham como acompanhantes de luxo. Elas quase sempre descrevem sua profissão como "algo passageiro" e frequentam estabelecimentos com um público bastante seleto. "Além disso, outros agravantes à saúde como a depressão e o uso de drogas são comuns. Fato é que o número de pessoas que se prostituem aumenta porque existe demanda, logo, devemos nos atentar para este movimento social e superar hipocrisias, afinal, o brasileiro que se diz tão cordial revela-se reacionário e um povo conservador e preconceituoso", diz.
Breno também é à favor da legalização da prostituição. Para ele, é essencial que a sociedade participe de encontros, debates e conferências sobre o tema, pois, em um mundo igualitário e justo, é importante ouvir o que tais trabalhadoras têm a dizer. "A legalidade, além dos benefícios trabalhistas como contrato de trabalho e seguridade social (incluindo aposentadoria) impactaria diretamente na violência sofrida por muitas mulheres que são exploradas por agenciadores e aproveitadores que lucram à custa destas profissionais. Inúmeros fatores levam alguém a se prostituir, desde por necessidades de sobrevivência até vontade e desejos próprios. O sofrimento se dá quando não reconhecemos esta profissão como qualquer outra. Não olhar para a prostituição de maneira digna é violentar", ressalta.
Breno também conversou comigo sobre os clientes que procuram o universo da prostituição, e, acredite ou não, existem motivos bem interessantes por trás da necessidade masculina de visitar um prostíbulo. "A solidão vivida por muitos homens facilita a procura pelo serviço da prostituta, pois o indivíduo é cada vez mais exigido das mulheres quanto ao seu desempenho sexual. Essas cobranças fazem com que ele se refugie com uma garota de programa, que o acolhe sem estas exigências, diminuindo o sentimento de angústia e frustração", explica o psicólogo.
"O pagamento ainda reforça a falta de preocupação do homem quanto à satisfação da prostituta. O dinheiro pago o isenta de qualquer dívida, o livrando de vínculos, além de que os homens sentem-se poderosos e no controle da situação. O instinto sexual masculino e a virilidade são preservados e garantidos. Não se sentem questionados ou avaliados pelo que fazem ou deixam de fazer. Tudo está pautado na individualidade e na autossuficiência. É o imediatismo da satisfação atrelada ao narcisismo, que não admite o descontentamento do outro", finaliza.
Como diria Oscar Wilde: tudo no mundo tem a ver com sexo, menos sexo. Sexo tem a ver com poder.
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Ramon de Souza tem 22 anos, já participou de seis antologias literárias, publicou um livro solo ("Rato Urbano", Ed.Multifoco, 2014), publicará mais um em 2016 ("Meus preciosos contos tristes", Ed. Multifoco) e venceu um prêmio de jornalismo latino-americano.
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A grande caça às borboletas
Non-FictionO que leva uma mulher a se tornar uma prostituta? Como é a rotina de um administrador de um prostíbulo? Como é adentrar em um cinema pornô e se esquecer de todos os tabus das sociedade? "A grande caça às borboletas" é um livro-reportagem gonzo que a...
