Chapter 10

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"Resmungona, acorda. Vá! Chegámos, vamos curar essas pernas. Velhote trouxe-te uma doente, ela caiu da montanha-russa, no mesmo banco onde a mana caiu, mas ela teve mais sorte, caiu em cima de alguém. O Beta e o Delta encarregaram-se dele, portanto não sei o seu estado. Posso pousá-la na maca?"

Ia falar, mas preferi ficar calada e deixei que eles pensassem que eu estava ainda a dormir. Queria saber o que aconteceu a ele... Ao...Não consigo. Sinto o cheiro a bolacha com canela, esse cheiro é-me tão familiar. A minha mãe tinha sempre bolachinhas com canela em cima da mesa, quando o meu pai chegava do trabalho.

"Acho que ele sobreviveu, o Gama disse-me que foi preciso o último recurso e que o último batimento tinha soado, mas conseguiram reverter tudo. Ela? Mas tu não te cansas de servir de anjo da guarda, desta rapariga?"

Calma, calma, estou a perder alguma parte da história.

Por momento estou com o feeling de que liguei a televisão e apanhei um filme a meio.

Meu anjo da guarda' Eu nem sei que ele é, ou que é! Nunca... agora pensando bem, já ouvi esta voz uma vez, mas não me recordo quando terá sido.

Sem que me desse conta mexi-me e murmurei, eles calaram-se de imediato, por isso acho que já posso falar sem problemas.

"Cavaleiro Misterioso, será que consede-me o desejo de abrir os meus preciosos olhos? Gostava de o contemplar." A ironia apodera-se de mim.

"Eu tinha-te pedido e tu prometeste que só abrias os olhos quando eu te dissesse que podias, tu melhor que ninguém sabes que não se deve quebrar uma promessa. É uma questão de honra." Honra? Eu estive prestes a morrer, e ainda me falam de honra? Faz sentido.

Porém as palavras dele atingiram-me de uma forma profunda. Tocaram-me mesmo e fizeram-me sentir culpada. Estou emocionalmente descontrolada e estou a deixar que os meus sentimentos me façam agir de uma forma ridicula. Não me consigo reconhecer, mas talvez me devesse dar um desconto dado que acabei de enfrentar a morte e perder... perder qualquer coisa que nem sei como verbalizar ou que denominação dar.

"Eu sei. Desculpa, pousa-me então. Preciso mesmo de abrir os olhos, é uma sensação horrível e sinto-me completamente indefesa e perdida." Estou quase a chorar, nem sei porquê. Sinto a mão dele na minha cara, e não sei bem como ou porquê sinto o meu corpo a acalmar e as lágrimas a pararem. 

"Pai posso revelar-me a ela? Por favor, vê-la neste estado é apenas demais para mim."

Revelar-se? A minha cabeça atingiu o seu limite, não consigo racicionar mais hoje, apenas quero desaparecer ou então entrar num estado de coma, fechar os olhos e nunca mais acordar. 

"Não! Não sei a que te referes, mas não faças nada por mim. Apenas não faças nada, chega." Estou cansada, não sei que é mas já fez muito por mim, e odeio que façam coisas por mim porque depois vou ficar sem em divida. 

"Meu filho és o Alfa, tu podes revelar-te se de facto ela for a escolhida... pelo destino."

Alfa? Escolhida? Destino? Em que série de terror caí eu? Nada faz sentido neste momento, sinto que apenas estou a conseguir apanhar fragmentos sem sentido de algumas histórias."

"Desculpe a arrogância, mas eu não sou a escolhida de ninguém. Quer dizer, fui em tempos, mas só me apercebi disso há horas atrás e pelos vistos foi bastante tarde demais." Se eu soubesse que isto iria se suceder tinha feito as coisa de uma maneira tão diferente. Não me tinha impedido de ter certos desejos e talvez de os realizar, mas não adianta chorar sobre sangue derramado.

"Olha já que estás aqui e para te distrair um pouco das dores, vou abrir uma pequena excepção e contar-te uma história. Mas após isso terás de jurar que nunca irás reproduzir nada do que aqui ouvires, se o fizeres irás condenar-nos, incluindo-o a ele." Quando prometo algo cumpro, não sei porque o frisou a ele, dado que a mim não me é nada e acho que não é motivo para eu cumpra qualquer promessa, mas por alguma razão hoje eu penso uma coisa e faço o contrário, por isso acedo e até imploro, algo que nunca pensei que fosse chegar a fazer na minha vida.

"Eu prometo. Por favor, conte-me." Ele pousou-me, agora estou de olhos abertos. Vejo que ele se refugiou na sombra. À minha frente está o pai dele, um homem velho, pelos seus 95 anos, cabelo muito grisalho como seria de esperar. Incrível com esta idade ainda ter cabelo, mais incrível ainda é o seu corpo. Deixo escapar um "wow", ele não tem o corpo raquítico e nem usa bengala, o que seria mais do que normal dado a sua idade. Ele tem músculos? A sério? Bem, nem vou comentar mais. Estou a fazer um esforço sobrenatural para tentar decifrar contornos na sombra.

Lembrei-me de algo que me pode ajudar a matar a minha curiosidade. Eu sei que por vezes sou manipuladora, mas é a única maneira de se sobreviver hoje em dia. As meninas boazinhas não têm sorte na vida. Por isso, tento recordar-me das poucas coisas que sei à cerca deste individuo... Hum quase nada... Apenas sei que ele me protege desde pequena, supostamente, portanto ele deve ser pelo menos 3 anos mais velho que eu, e que faz tudo para me ver bem.... Sempre que choro, ele parece perder a cabeça. É isso tenho que chorar se quiser saber quem ele é. É que isto de ser salva por uma pessoa que é demasiado creepy, já é mau, mas quando a pessoa age como se fosse um monstro ainda é pior. Quer dizer, ele não pode ter um aspecto assim tão mau, ou pode? A beleza nunca foi algo que fosse absolutamente necessário para que eu tivesse qualquer tipo de conexão com alguém.  

Oiço a rir baixinho, não sei bem porquê, mas volto a focar-me no meu objectivo. Penso em algo que me possa fazer chorar. Sim! O meu pai! 

Querido pai, desculpa pensar em ti para este fim, mas tem de ser, sei que tu me entendes. Recordo-me então do dia em que o meu pai me deu o meu arco.

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