Um passo a frente

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Nicole nunca teve a intenção de sair de seu país, porém depois de todos os acontecimentos do último verão sua visão havia mudado. A jovem de 26 anos perdeu o pai de forma agressiva para um câncer de pâncreas, em julho passado. Em seis meses tudo que alicerçou sua vida até aquele instante fora pulverizado. Sem irmãos ou familiares próximos não existia nada mais que a prendesse no Brasil. O lugar que a abrigara desde o nascimento tinha cheiro de sofrimento e dor.

Sentada em sua cama Nick, como era conhecida pelos amigos, olhava para as malas e embrulhos jogados pelo chão. Apoiou os cotovelos nos joelhos e bufou para tudo aquilo. O quarto estava uma bagunça, mas em breve isso não seria mais problema. Entregaria o imóvel ao simpático casal de senhorios e pegaria um avião para a América do Norte.

O gato preto e branco pulou em cima da cama como se conseguisse ler os pensamentos da dona. Ela acariciou o dorso e o pescoço do bichano que se desmanchou em altas ronronadas.

- Não existe a menor possibilidade de deixar você, Qhuinn.

O felino fuçou em sua perna e deitou junto a coxa de Nick satisfeito com a resposta.

Os preparativos para a viagem que os levaria à Califórnia em uma semana foram rápidos e trabalhosos. Os contatos já tinham sido feitos com a Universidade onde ela iria estudar pelos próximos dois anos no Programa de Pós- Graduação em Artes Plásticas. O visto de estudante foi emitido rapidamente pelo consulado americano e em duas semanas o carro que dirigia no Rio de Janeiro também estava vendido e o dinheiro revertido em dólares.

Os trâmites relativos ao translado do filho de quatro patas inseparável foram mais complicados, mas ela cumpriu cada uma das exigências para permanecer ao lado de seu companheiro de todas as horas. Qhuinn também iria aos Estados Unidos.

Nicole era uma mulher prática e logo organizou um bazar no melhor estilo "garage sail" para vender a baixos preços os móveis que possuía assim como utensílios que obviamente não seriam levados na bagagem. A intenção de arrecadar o montante para conseguir sobreviver no novo país nos primeiros meses foi um sucesso.

Com o dinheiro da venda do carro e do bazar alugaria um espaço agradável junto ao campus. Embora tivesse a opção de moradia dentro da área da universidade ela descartou de primeira a possibilidade. Nicole precisava de seu espaço. A solidão para criar suas obras era uma necessidade e isso nunca seria real em um dormitório coletivo.

Formada em Belas Artes em uma conceituada universidade privada brasileira ela teve a oportunidade de conhecer a cultura de países americanos, europeus, asiáticos e africanos. A condição financeira favorável de sua família propiciou tais experiências. Experiências estas que foram compartilhadas com os "discípulos da arte", como gostava de chamar seus alunos.

Por anos a fio ela ministrou aulas de arte e cidadania para adolescentes e jovens adultos das comunidades próximas ao bairro onde vivia. Acreditava que a cultura e o pensamento crítico poderiam mudar o destino daquelas pessoas. E de fato mudaram. Envolvida em projetos sociais, Nick sempre correu atrás de financiamentos e usou de sua posição privilegiada para apontar direções aos que não tiveram as mesmas oportunidades que ela.

Nicole Spitzer era uma garota comum, dessas que você vê na rua aos montes. Tinha cerca de 1,67m de altura, 69kg, cabelos ruivos quase sempre despenteados e presos num rabo de cavalo, rosto com sardas e a pele dourada do sol carioca. A morte de seu pai e maior inspirador estava prestes a mudar o rumo da sua história. Ela só não tinha ideia que a roda da vida giraria de maneira voraz levando-a a mundo inexplorado rumo a temperança e quem sabe à felicidade.

Levantou-se e continuou o que tinha parado de fazer quando os pensamentos vieram: separar as roupas que seriam colocadas na mala das que seriam doadas. Qhuinn resmungou quando seu ninho foi desfeito, mas logo encontrou abrigo em uma caixa de sapato vazia. O sorriso de Nick ao dialogar intimamente com o felino se abriu.

- Danado! - falou com o gato e recebeu um miado assertivo em resposta - Vamos acabar com isso logo. Nós temos um avião para pegar!

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