Capítulo Sete: Aliados

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"Bortoli sempre foi o meu maior oponente dentro dos Doze Vermelhos. Ninguém sabe ao certo como é que ele começou. Alguns dizem que era contrabandista de ópio nos portos de Veral e Tilania. Um dia contou-me que fora um pequeno ladrão, em tempos idos. Dooda não gostava muito dele, mas no fim todos o aceitaram, uns dez anos antes de eu aparecer nas vidas deles. Era fanfarrão e ganancioso, mas essa era uma característica muito comum entre os Doze. Gabava-se de ter ludibriado Marovarola nos dados. Todos achavam que o seu sucesso se devia à lábia, e podiam até ter razão, mas depois que os traí, ele foi o único que me conseguiu deter... momentaneamente. Mario Bortoli fora um grande guerreiro, nos seus tempos dourados. Esmurrou-me umas três vezes antes de o conseguir imobilizar, mas não havia homem neste planeta capaz de me pôr travão, e eu destruí a sua virilidade com as armas que tinha. Os meus próprios dentes. Dizem que se tornou um medroso depois disso. Se eu estivesse na posição dele, creio que me teria acontecido o mesmo."

A Batalha de Rhove ainda ia a meio quando Empecilho ouviu um tiro, virou-se e viu a cabeça de Segen explodir numa confusão de sangue e miolos. Uma força militar composta de rhovianos atacou com todas as suas forças o grupo estacionado no topo de uma coluna pedregosa. Os cabrões dos selvagens estão munidos de armas de fogo, pensou Empecilho, quando levou uma mão ao cinto e desembainhou uma alfange, com uma mão sem pontas de dedos. Os Vermelhos bateram-se bem, apesar do fator surpresa e da voracidade dos inimigos. A coisa durou meia hora. Quando os jovens seguidores de Dooda Vvertagla começaram a morrer como peças de dominó, o jovem Catata LaCelles, batizado por Língua de Ferro como Empecilho, pegou em Ravella, que já se havia libertado e empunhava agora uma espada manchada de sangue. Encontraram Allen entre os desertores, o que não o surpreendeu. Allen era um ator, não um guerreiro.

Os rhovianos perseguiram-nos por milhas, mas a descida da colina fora fácil para as pernas ágeis de Empecilho. Ravella seguiu-o, e quando ficaram lado a lado com Allen, este acenou-lhes para o camelo que os aguardava no vale. Os olhos do homem que o mundo julgava chamar-se Landon X brilhavam de esperança, mas essa esperança foi-lhes barrada quando lá chegaram. Um grupo de rhovianos sitiou-os, montados em algo que parecia o cruzamento de um diabo com uma cabra, com uma pelagem esquálida e cinzenta.

Empecilho crescera na podridão, talvez por isso nada daquilo lhe fosse estranho. Via corpos a boiar em poças de sangue, via homens a defecar a céu aberto, e membros dos Vermelhos de Dooda a parlamentar com rhovianos. Traidores, pensou. A traição fazia parte da identidade dos Doze Vermelhos, deu-se conta Empecilho, ao lembrar-se das palavras amargas de Língua de Ferro. Participaram na retirada do exército para o forte além das muralhas, conduzidos por grossos cordões de cânhamo que lhes foram atados ao pescoço como baraços, e quando passaram pela torre de vigia, avistaram a fortaleza. Havia quintas à sua volta, todas elas protegidas por altas paliçadas bem reforçadas, e Empecilho abriu a boca de estupefação, tal a monstruosidade daqueles vedames. Uma rede de estradas sulcadas na pedra estendia-se entre as paliçadas e o forte, e para além dele. Afloramentos de rocha erguiam-se a toda a volta, e havia pequenos campos de cultivo e casinhotas de pastores. Não se viam por ali camelos, mas havia muitos daqueles estranhos bichos que ouvira chamar de karroush, mais conhecidos no idioma corrente por cabris. Havia habitações de colmo, vime e argila, e algumas eram já escaladas por musgo. A humidade ali era mais acentuada, e Empecilho jurou que havia de gostar de ali estar. Mas não gostava, por uma única razão.

Era coagido a isso.

Entraram por um longo portão feito de troncos de madeira e unido por cordames, sobre o qual ficava um adarve de madeira onde homens de rostos beligerantes exprimiam esgares de desagrado perante o recuo estratégico dos seus exércitos. Transpostos os portões, tão vigorosos como ruidosos, observou que o interior não era muito diferente do exterior. Ali podiam-se encontrar ourives, oleiros e cuteleiros a representar os seus ofícios, quer à porta das suas casas, quer nas praças amplas onde se fazia mercado. O mugir de bezerros (ou coisas diabolicamente parecidas) enchia-lhe os ouvidos, e o mau-cheiro dos selvagens e dos seus animais, o olfato. Havia venda de couro e de manteigas, escultores de peças em madeira e ferreiros. Mel, azeite e tinturas também eram negociados, e era frequente haver bargatas e regateios entre vendedores e fregueses. Não havia disciplina entre os soldados. Empecilho perguntou-se por que razão não haviam sido mortos como os restantes. Inicialmente, o jovem temeu que reconhecessem a sua identidade, afinal fora sobrinho-neto de um pretor, mas depressa concluiu que os rhovianos tinham ordens para fazer prisioneiros, e os mais frágeis eram as escolhas óbvias.

Língua de Ferro - Um Sacana QualquerRead this story for FREE!