Todo mundo assiste a filmes pornô. Ou ao menos é o que se diz aí pela internet. Se é verdade ou não, não cabe a mim decidir. O que importa é: em determinado momento da história, alguém decidiu que seria uma ótima ideia construir salas de cinema para exibir nada além de obras adultas. Os primeiros estabelecimentos do gênero surgiram nos Estados Unidos durante a década de 60, e, dez anos depois, cerca de 750 deles estavam em plena atividade ao redor do país. Não há registros confiáveis sobre quando os cinemões começaram a se popularizar aqui no Brasil, e é igualmente impossível afirmar com exatidão o período temporal no qual eles fizeram mais sucesso.
De qualquer forma, eles ainda persistem firmes e fortes — só aqui em São Paulo existem uns vinte cinemas pornô, quase todos concentrados no antigo centro da cidade. Interessante comentar que a maioria deles nasceu como salas convencionais e eram voltados a cinéfilos da alta sociedade em seus anos de glória.
Antes de entrar no Cine República, um dos mais famosos desse circuito underground, percebi uma coisa engraçada: do outro lado da rua encontra-se o Marabá, que abriu suas portas pela primeira vez em 1944 e persistiu como "cinema de família" até 2007. Reabriu dois anos depois, sem afundar no segmento sexual, adquirido pela distribuidora Playarte. Dois caminhos distintos, dois públicos distintos, duas finalidades distintas. Quem vai no Marabá quer ver títulos da alta cultura; quem entra no Cine República quer esvaziar o saco.
Acoado e — admito — com um pouco de vergonha, me aproximei da catraca em um corredor minúsculo e até que bem iluminado, para a minha surpresa. É difícil ver quem fica por trás do balcão, visto que o vidro do guichê é quase todo coberto por adesivos (talvez justamente para aumentar a privacidade de quem atende os clientes do local. Por uma pequena brecha, pude ver o rosto cansado de uma senhora em seus cinquenta ou sessenta anos. Fiquei parado por um tempo pensando no que fazer, até me dar conta que eu obviamente não seria atendido de forma calorosa como em qualquer outra sala de cinema.
Dei um "Oi" discreto, mas não obtive respostas da recepcionista. Levantei a cabeça e vi a placa que foi fixada justamente para impedir cenas deploráveis como aquela que eu estava causando. Era uma sulfite amassada e colada com fita crepe, alertando que o preço "promocional" do ingresso era de quinze reais. Tirei a quantia da minha carteira e escorreguei para dentro do guichê; as notas rapidamente sumiram pelas mãos da velhinha. "Pode entrar", disse ela, enfim. Passei pelas catracas e tudo o que consegui fazer foi subir as escadas o mais rápido possível, sem deixar de perceber um cesto repleto de camisinhas colado na parede dos primeiros degraus.
A iluminação diminuía conforme eu avançava, até se extinguir completamente. Os cinemas pornô, como eu já imaginava, são bem mais escuros do que as salas convencionais. No Cine República, é difícil até mesmo ver o rosto de quem está do seu lado ou conferir se a poltrona está realmente limpa para você se sentar. Guiado pelas luzes LED verdes do chão, me sentei no primeiro assento que alcancei. Nada de conforto por aqui. As cadeiras são duras, de madeira, e sem qualquer almofada no encosto.
No telão, dois homens trocam carícias, já nus, e um deles — um senhor de cabelos grisalhos — se deita em uma mesa para que a ação possa começar. Ah, que maravilha: entrei na sala de filmes homossexuais. A qualidade do vídeo, devo observar, não é melhor do que aqueles clipes em formato 3GP que assistíamos em nossos celulares com Java no início dos anos 2000. Quem espera ver bundas em Ultra HD certamente vai se decepcionar por aqui. Além disso, o brilho do projetor é reduzido para não iluminar mais do que o necessário, e isso também colabora para diminuir ainda mais a qualidade da imagem.
Reparei no ambiente. Um lugar no mínimo perturbador. Estava vazio, e poucos espectadores quiseram se sentar. A maioria dos presentes andavam pra lá e pra cá, paquerando uns aos outros ou chupando paus alheios. O cheiro é de mijo, talvez porque muitos moradores de rua usam o local para passar a noite gastando menos do que uma diária em um hotel. O cinema funciona durante vinte e quatro horas, afinal.
Talvez uma figura dessas estivesse próxima de mim e eu ainda nem tivesse percebido. Minha expectativa era ser abordado por garotas de programa — ou travestis — se oferecendo para fazer um boquete, mas não foi isso que aconteceu durante os vinte minutos que permaneci sentado. Na película, o homem grisalho já gemia alto enquanto era penetrado por uma rola razoavelmente grossa, mas ninguém ali parecia estar interessado na obra cinematográfica.
Resolvi ir embora e voltar outro dia, mas não sem antes ir até o fundo da sala para explorar todos os seus cantos. Me deparei com a entrada para o banheiro: uma pequena escada com várias camisinhas usadas jogadas em seus degraus. Incrível foi notar que essa região não cheirava tão mal quanto as poltronas. Abrir as portas de saída do Cine República foi como entrar no céu — ou sair do inferno. O ar poluído de São Paulo nunca me pareceu tão fresco e agradável.
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Ramon de Souza tem 22 anos, já participou de seis antologias literárias, publicou um livro solo ("Rato Urbano", Ed.Multifoco, 2014), publicará mais um em 2016 ("Meus preciosos contos tristes", Ed. Multifoco) e venceu um prêmio de jornalismo latino-americano.
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A grande caça às borboletas
Non-FictionO que leva uma mulher a se tornar uma prostituta? Como é a rotina de um administrador de um prostíbulo? Como é adentrar em um cinema pornô e se esquecer de todos os tabus das sociedade? "A grande caça às borboletas" é um livro-reportagem gonzo que a...
