07. Sally

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Íris colocou a garrafa de tequila de volta ao seu devido lugar: escondida debaixo da cama. As mulheres que dividiam o quarto com ela não sabiam sobre a existência daquela garrafa, e, se sabiam, ignoravam completamente. Íris podia dividir muitas coisas ali no acampamento, mas a tequila não estava nessa lista. Ainda mais agora que só tinha um último gole.

Quando teria coragem de acabar com ele? A vontade de fazê-lo naquele instante era imensa e quase incontrolável, mas a ideia de ficar em abstinência a impediu de prosseguir.

Manteria sua sede sob controle para ter algo com que saná-la quando se visse verdadeiramente desesperada.

A mexicana deixou o seu quarto naquela tarde ensolarada e rumou para o refeitório. Pensou em dar meia volta quando Judith passou pelas portas de metal, mas manteve a postura descontraída e sorriu para a idosa. O padre vinha em sua companhia, conversando qualquer coisa sobre o plantio de sementes lá da horta, mas ambos se calaram ao colocarem os olhos sobre a mexicana.

Buenos dias. – Íris disparou. Judith travou a mandíbula pouco antes de aumentar a velocidade dos passos.

– Não devia estar trabalhando? – Foi o comentário da idosa.

– Não devia estar cuidando da sua vida?

– Bom dia, minha filha. – Eustace, em toda a sua fria paciência, cumprimentou Íris de volta. Ela respondeu com um aceno pouco animado; apesar da simpatia, a expressão do homem era uma prova de que só fazia aquilo por educação. – Não a vi participando do culto hoje de manhã.

– Eu estava dormindo. – Seu retruco foi ofensivo porque ela queria que soasse assim. Eustace não se conformava com muitas coisas naquele acampamento; a falta de fé de Íris era uma de suas maiores indignações.

– Não sei por que ainda tenta, padre. – Judith resmungou.

Aquele controverso caso de aversão se devia a muitos fatos; o acampamento era um refúgio de esperança e de uma vida nova, mas não significava que todos ali convivessem em paz. Pessoas com ideologias tão diferentes tendiam a se afastar, mesmo quando Beatrice e Jake faziam o possível e o impossível para uni-las por um bem maior.

Judith discordava das escolhas e atitudes da mexicana e vice-versa. Elas procuravam não discutir para não estressar o grupo, mas trocas de olhares enfezados bastavam para criar um clima ruim. Assim como Taylor buscava acalmar Íris e afastá-la da idosa, o mesmo podia-se dizer sobre o padre.

Romero nunca pareceu se importar com as brigas que a esposa comprava. Era assustador que o simpático fazendeiro fosse marido de Judith, e era ainda mais assustador que ele tivesse tanta paciência a ponto de estar casado com ela há cinquenta e dois anos, especialmente quando Íris tinha vontade de dobrar o punho e socá-lo contra o nariz branco e empinado de Judith sempre que ela cruzava o seu caminho. Havia vezes em que os comentários sutis e ofensivos de Judith chegavam aos seus ouvidos e Íris precisava fingir acreditar em deus para rezar por paciência.

Taylor estava no refeitório, terminando de comer, quando Íris passou pelas portas. O enfermeiro arqueou as sobrancelhas, obviamente ciente da figura que havia cruzado aquele mesmo caminho momentos antes. A mexicana respondeu com dar de ombros, fingindo pouco se importar.

– Judith está de bom humor hoje. – O enfermeiro brincou, assistindo enquanto Íris pegava sua bandeja e vinha se sentar. Ela armou uma expressão pouco impressionada.

– Defina o que é aquela diaba de bom humor, por favor.

– Quando ela não te olha como se estivesse prestes a te cozinhar. – Taylor brincou. – O que ela vinha fazendo com frequência desde a sua última briga.

As Coisas que Perdemos [DEGUSTAÇÃO]Leia esta história GRATUITAMENTE!