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Pen Your Pride

O nosso maior desejo foi tentar a vida nos palcos.

Sempre me arrepio quando toco nesse assunto. É algo forte, especial e encantador, com um leve quê de misticismo. Pensando bem, é um mundo que eu desconheço completamente (senão através das músicas que ouço, ou dos programas que com frenesi estouram na tevê!). Alcancei a certeza de querer ser cantora quando vi o meu irmão cantar pela primeira vez, no bar do nosso bairro. Todo mundo se emocionou e cantou junto a ele, e eu estava bem do lado de fora, acompanhando tudo com emoção. Depois daquele dia, resolvi contá-lo que também amava cantar. Então ouvi, em tom de humor, ele dizer que pensava que esse desejo jamais ultrapassaria a porta do banheiro da nossa casa.

Rimos bastante, trocamos segredos e cantamos duetos a noite toda! Esse ato inesquecível foi responsável pela nossa primeira apresentação coletiva, no auditório da nossa escola, com direito a manchete em um pequeno jornal da região.

Nesse mesmo dia, fomos convidados para fazer voz e violão em um bar conhecido da cidade.

Foi aí que a minha expectativa caiu por terra, e o sonho de tentar cantar para o mundo pareceu se virar contra mim. Com uma fúria incoercível, o papai me proibiu de sair com meu irmão, alegando que, se me visse vagueando pela rua de novo, me levaria para casa em meio a socos e pontapés. O Cris ficou irritado e discutiu feio com ele, mas por muito apelo de minha parte, acabou silenciando.

Eu sabia que, lá no fundo, a fúria do papai derivava da bebida, e nada poderia fazer enquanto estivesse morando sob o seu teto.

Apesar disso (como afirmei anteriormente), escutei uma conversa muito estranha entre ele e tia Vânia, envolvendo o corte de despesas, o meu nome e uma possibilidade suspeita de emprego na grande São Paulo. A princípio não dei credibilidade, mas quando ele tocou no assunto dias depois, eu entrei em desespero. Cresci aqui, vivi aqui, gosto daqui! Não sou muito afeiçoada as grandes cidades. Prefiro a aragem do interior, a ter de enfrentar uma correria dos infernos em plena luz do dia. Fiquei tão amedrontada com a ideia, que pensei até em fugir. Não deixei, é claro, de falar com o meu irmão, que logo me acalmou e jurou diante dos meus olhos que jamais concordaria com minha partida. Quem me conhece sabe o quanto sou temerosa! Por mais simples que possam parecer (em sua maioria), as pessoas me causam medo.

Vivo desde pequena sob a esfera protetora da mamãe. Quando ela e o papai se separaram, o Cris assumiu o cargo de manter-me protegida.

Um erro, eu diria.

Se eu tivesse conhecido o mundo feroz, do jeito que ele é, eu poderia ser uma mulher mais forte, uma pessoa melhor! Mas, como dizia a inesquecível vovó: Deus sabe o que faz!

Desde ontem o papai não tocou no assunto. Será que o Cris disse alguma coisa a ele? Não sei... Apenas me sinto aliviada.

Já que o papai me "proibiu" de tentar ser cantora, tratei de arrumar emprego aqui na cidade, pois almejo fazer um curso no final do ano e ingressar na universidade.

Trabalho como arrumadeira em um hotel, cujo dono me parece boa pessoa. Todos os dias eu volto para casa desse jeito; cansada e apreensiva. No caminho, penso bastante sobre tudo o que eu fiz, planejei e o que quero para mim. A universidade não deixa de ser um ótimo ponto de partida. Já separei alguns livros e comecei a estudar. A prova não deve ser nada fácil... A concorrência é enorme!

Mas não importa. Farei junto com o Cris.

Enquanto esse dia não chega, ele continua se arriscando nos bares da vida, e eu acompanhando, aqui e ali, às escondidas; com todo o cuidado do mundo para não ser pega pelo papai...

Mantenho na alma o anseio de, algum dia, ter a chance de cantar para várias pessoas de novo. Quero acreditar que isso vai acontecer.


O Canto da ValquíriaLeia esta história GRATUITAMENTE!