Capítulo Um

687 69 79


"Enquanto houver sonhos, haverá esperança

"Enquanto houver sonhos, haverá esperança."

Sexta-feira, 9 de março de 2001

A noite está vindo. Meu dia foi cheio, e permaneço trancada em meu quarto. Não sei exatamente o que me motivou a escrever, acredito que não há qualquer razão sensata para fazê-lo. Quero dizer... O meu dia foi mais do mesmo, com horas intermináveis de cansaço e pensamentos agoureiros a respeito do futuro.

Tá aí... O futuro. Talvez seja devido ao futuro que eu persista no ato de escrever; deixar em evidência a minha infância difícil para, quem sabe, mais tarde eu ter em minhas mãos uma prova definitiva das dificuldades que tive de enfrentar.

Estou falando desse jeito porque, apesar dos pesares, acredito piamente nos meus sonhos. Sofro como qualquer ser humano sonhador é destinado a sofrer, perguntando diariamente a mim mesma, até quando poderei manter as esperanças.

Sei que já falei que o dia foi cheio, mas hoje tudo me surpreendeu (negativamente), a começar pelas atitudes bruscas do papai. Conclui meus estudos do ensino médio no último semestre, mal alcancei a universidade e ele pensa que já sou uma mulher independente. Se a mamãe ainda vivesse conosco, ela teria de enfrentar uma vida regada de desprezo!

Não foi mesmo a toa que ela o abandonou...

Às vezes me arrependo de ter aceitado o pedido dela em passar os primeiros anos ao lado dele. Fiz o impossível para fazê-lo enxergar o quanto pode se tornar uma pessoa melhor, mas parece que o álcool é o único centro de seu universo.

Ouvi uma conversa estranha atrás da porta. Ele disse a tia Vânia que pretende se livrar de algumas despesas, e isso me fez raciocinar que sou a responsável por grande parte delas. Na realidade, sou muito diferente das meninas que já conheci por aqui, principalmente na escola. Nunca fui vaidosa, embora as pessoas a minha volta desacreditem disso. No entanto, eu sempre desejei ser vaidosa, em virtude dos meus objetivos, que de certo modo exigem isso.

É a minha primeira experiência com este diário, então tentarei enfatizar as coisas. Eu me chamo Valquíria Angelina Moraes. Sou carinhosamente chamada de Val pelos familiares e amigos mais próximos. Meu amigo verdadeiro é meu irmão, que é um ano mais velho do que eu. Ele se chama Cristiano, mas nós o chamamos de Cris. Um jovem bonito, guerreiro e batalhador, que leva o mundo nas costas se assim for preciso (ainda mais se tratando de mim). Na verdade nós cuidamos um do outro, desde o colegial, quando ainda testávamos a fidelidade dos nossos namorados (as). Hoje ele está solteiro, mas porque quer! Quem manda ser um galinha?! As meninas do colégio não o deixavam sossegado, ao passo de que os meninos o temiam, e por isso, nem tentavam me importunar. Às vezes me recordo daqueles tempos de ouro e dou risada sozinha. Éramos felizes e não sabíamos! Não alimentávamos, contudo, o desejo primordial de crescer, casar e ter filhos. Até porque já alcançamos a maioridade, e sequer pensamos nisso...

O Canto da ValquíriaLeia esta história GRATUITAMENTE!