Vinícius

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Lauren não se atrasava, nunca. Seu atraso estava me corroendo. Talvez ela tivesse desistido, ou encontrado alguém pelo caminho, quem sabe ela nem tenha cogitado vir. Com a mente a mil, decidi sair um pouco da loja e, com alguma chance, a encontrar chegando.

Saí da sorveteria, a deixando sozinha e vazia, apenas para ver algo que eu queria acreditar ser mentira. Se havia doído ver Lauren e Peter aquele dia no parque, hoje havia sido mil vezes pior.

Os dois estavam parados na esquina, conversando. Foi então que Peter, com um sorriso que não lhe cabia no rosto, rapidamente se inclinou para frente e beijou Lauren. Não fora um beijo real, apenas um tocar de lábios, mas foi o suficiente para me arrancar as esperanças. Ele se virou e saiu andando, um sorriso tolo no rosto, enquanto eu permanecia estático em frente à porta da sorveteria, sentindo meu estômago embrulhar.

-Vini! - Lauren se virou em minha direção, o rosto corado destacava a rosa vermelha que flutuava em seu cabelo negro. Ela correu em minha direção, atravessando a rua sem se dar ao trabalho que olhar para os lados, e se jogou em meus braços, com um sorriso enorme nos lábios. A apertei contra mim, sentindo seu perfume doce e seu corpo quente. Seu olhar se iluminou quando olhou da sorveteria para mim.

-Não me pergunte o que o Carlos me pediu em troca - comentei, com um sorriso divertido. Ela fingiu passar um zíper pela boca e enganchou seu braço no meu, me arrastando para dentro com ela. Estar com ela depois de vê-la beijar outro não me parecia certo. Era como se eu a houvesse perdido. Ela estava ali como minha amiga, não uma garota que eu estava louco para conquistar.

-Você está bem? - Lauren perguntou, me tirando do meu transe paranóico. Ela me olhava com delicadeza, como se soubesse o que estava acontecendo. Meneei a cabeça e voltei meu olhar para o balcão.

-O que vai querer? Aproveite que eu estou pagando - ela abriu um sorriso, um sorriso genuíno de felicidade, como uma criança que recebeu um presente.

-Casquinha de chocolate.

-E uma de creme, por favor - emendei, me dirigindo ao balconista. Ele se virou para a máquina e eu me virei para Lauren, fitando os olhos castanho-escuro que ela tinha.

-Para quê todo esse mistério? Parece até que tem medo de mim - ela soltou uma risada baixa, o que fez meu nervosismo aumentar ainda mais.

O que eu poderia dizer? "É que eu sou afim de você e estou me mordendo de ciúmes do cara novo", muito encorajador. Quando os sorvetes foram entregues, e eu paguei apenas o meu, pois Lauren insistia que podia pagar o dela.

-Na verdade, eu tenho algo meio sério pra falar, mas vamos deixar para outra hora - disse, sem graça. Lauren me olhou como se houvessem duas cabeças no meu pescoço, logo antes de rir.

-Vamos, Vini. Eu sou sua amiga! Pode me contar qualquer coisa. Melhores amigos, não é? - seu sorriso me fez fraquejar por um momento. Como eu diria à aquela garota que caía de amores por ela? De apenas vê-la sorrir, meu dia já valia a pena?

-É que eu estou com um problema, mas não quero despejar em você.

-Vamos, confie em mim. Sabe que pode fazer isso - seus olhos brilhavam de curiosidade. Soltei um suspiro pesado e olhei em seus olhos, reunindo toda a coragem que imaginava ter.

-Quando você me contou o motivo das mensagens outro dia, eu pensei que era mentira, que você não se importava, mas você se importa. E eu também. Eu adoro o jeito como você sorri, como irradia alegria, como é boa. Lauren, você me conquistou sem querer, apenas com sorrisos e mensagens trocadas. Me dói saber que ainda existem pessoas que te deixam mal, pessoas que não veem a pessoa maravilhosa que você é. Você tem uma má reputação, mas ainda tenta mudar isso. Quando Peter apareceu, eu me vi louco. Meu medo de te perder era tamanho que eu não sabia o que fazer. Ainda não sei, cogito a ideia de que ele seria melhor para você do que eu - disse tudo de uma vez, temendo perder a coragem caso parasse de falar.

-Vinicius, eu não sei o que dizer... - ela murmurou, parecendo chocada. Seu sorvete acabou durante o meu pequeno discurso e ela, agora, mexia constantemente na barra da blusa, nervosa - Olha, eu não quero te colocar na friandzone nem nada assim, mas, eu não sei se consigo fazer isso, sabe? Tipo, ter um relacionamento com você. Você parece bom demais, bonito demais, perfeito demais para mim. Tenho medo de não ser o suficiente para você.

-Não se preocupe. Eu só queria me livrar desse peso. Não precisa se sentir obrigada a nada - avisei, sentindo meu rosto aquecer. Ela se levantou e beijou meu rosto, se despedindo. Quando ela saiu, senti como se um peso tivesse sido tirado dos meus ombros, mas tive a estranha sensação de que o havia transferido para outra pessoa.

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