Capítulo 3 - A Escuridão

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Podemos facilmente perdoar
uma criança que tem medo do escuro;
a real tragédia da vida é quando
 os homens têm medo da luz
 ~ Platão

Meu nome é Jefferson , que quer dizer filho de Jeffrey e que por sua vez quer dizer filho do pacificador, mas naquele momento eu não era filho de ninguém

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Meu nome é Jefferson , que quer dizer filho de Jeffrey e que por sua vez quer dizer filho do pacificador, mas naquele momento eu não era filho de ninguém.

Sem ninguém por perto por milhas e milhas.

Naquela noite eu me senti sozinho. Pensei estar sozinho. Eu estava errado.

Alguém que sempre me falou sobre minha obrigação de me comunicar com os outros deveria ter ao menos deixado uma carta de despedida. O corpo frio dependurado não tinha nenhuma educação.

Eu tive medo, e sim, me entristeci muito com a morte dela. Lembrei-me de quando eu ficava em pé e minha cabeça encostava em sua barriga e ela me fazia carinho. De como ela gostava de fazer o almoço quando meu pai estava conosco e do rosto dela sorrindo pra mim. Mas algumas coisas são muito simples pra mim: um conjunto de regras. Ela tinha tomado uma decisão que eu não poderia mudar.

Agora eu precisava sobreviver.

O vento chegou de repente fazendo um assobio no canavial. Arrastei a cadeira de madeira e subindo nela peguei uma das quinze velas do armário marrom e a acendi usando o isqueiro que meu pai havia me dado.

Eu gostava muito daquele isqueiro. A simplicidade da mecânica me fazia pensar em muitas outras engenhocas. Eu ainda tinha meia lata de fluido, duas pedras e um pavio. Era um bom isqueiro.

Pinguei duas gotas de cera em um prato e colei nele a vela. Já olhou uma vela acessa, por um minuto a fio ? A chama dança. Dança sobre um lago quente e este lago parece feito da mesma água de uma lagoa na lua cheia.

Um estrondo. A janela de madeira batendo contra a casa. Eu corri para fechar as duas janelas e a porta da frente. Antes de fechar completamente a porta da frente vi o corpo balançando ao vento e esqueci a bota pra fora.

Uma casa de madeira consegue fazer uma variedade bem grande de barulhos, principalmente em uma ventania. Acho que ela sempre rangia, esfriando a madeira depois de um dia quente mas eu nunca tinha prestado atenção. Naquela noite eu a conheci melhor.

Me deitei para dormir. Não escovei os dentes porque esqueci de trazer a água do poço.

A casa fez sua música com rangidos, gritos e sussurros enquanto o vento uivava e a minha imaginação dava cor e sentido a tudo aquilo. Em um momento, um gigante tentava quebrar a casa apertando-a lá na chaminé de ferro e em outro, um grupo de aves maltrapilhas escolhia o telhado como ponto de encontro.

A chama da meia vela ainda dançava sobre o lago quente.

Cheguei a um ponto em que me senti mal por sentir algo. O ar da meia-noite começou a me sufocar e o teto parecia cair. Uma voz estranha começou a martelar, lá dentro da minha cabeça, como que instalada em minha jugular.

— Ite te oto hohonu! Dê um fim nisso garoto fraco! Ninguém te quer neste mundo! Ite te oto hohonu!

Uma tristeza profunda se apoderou do meu peito. Tudo a minha volta me apertou. Senti um frio na espinha.

A vela apagou-se.

Ite wehi o te ora! Ela não te queria e por isso foi embora! Ite wehi o te ora!

Eu senti medo de viver. A escuridão estava a minha volta e também estava dentro de mim enquanto a sinfonia terrível tamborilava o seu ritual.

— Hi'a! Desista garoto, desista! Hi'a!

Então, quando eu senti meu coração do tamanho de um grão de feijão, um vento forte soprou em meu quarto.

Au mahue ahau! Au mahue ahau!

E depois disto não ouvi mais nada. A ventania passou e a casa adormeceu. Uma paz tomou conta dos meus sentimentos.

Acendi o que sobrou da vela com o isqueiro que eu tanto gostava. Admirei a chama dançando sobre o lago quente.

Adormeci enquanto a chama continuou a dançar.

Jeff mais leve que o arOnde as histórias ganham vida. Descobre agora