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Pen Your Pride

CAPÍTULO UM

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Eu nunca andara de trem, até aquele dia. Meus olhos se lançavam exaustos para a paisagem, as pálpebras quase vencidas pelo cansaço – ora da viagem, ora da própria vida –, os pés esticados e enfiados em meias grossas sem nenhuma noção básica de moda, os cabelos emaranhados e assanhados em pontos nada estratégicos, e acreditava que havia poeira em algum lugar do meu rosto.

O trem se manteve em uma velocidade razoável, transformando o processo de chegar em um novo lar muito mais exaustivo. A viagem, segundo o rapaz que vendera o bilhete, deveria demorar nada mais que meia hora, e já haviam passado 40 preciosos minutos de minha vida. Algum tempo atrás, não teria notado o passar das horas, tampouco reclamaria da demora. Eu simplesmente não teria pressa. Falaríamos sobre a vida, as árvores, até como as nuvens se projetavam no céu, quem sabe reviveríamos memórias, trocaríamos revelações sobre a infância... O tempo deixaria de ser importante, e deixou – enquanto estivemos juntos. Mas agora era uma nova realidade: não havia mais "nós", nem mesmo a mínima possibilidade de um novo "nós". Tudo deveria ser apenas passado – e estava aí a parte complicada. Eu sentia a pontada da terrível saudade no centro do peito, as arfadas leves e sutis passando a pesar aos poucos. Mas ainda não era hora de pensar nele. Não ali, com testemunhas aleatoriamente lançando olhares penosos para mim. Eu precisava de um refúgio antes de mergulhar na essência de minha dor, enquanto acabaria com uma garrafa de vinho branco, seco e sem sentimentos.

Eu não conseguia evitar as crises pontuais, dessas que explodem e resolvem no mesmo segundo. Num instante me pegava lembrando dos beijos e da forma como ele prometia ser meu mundo; em outro, relembrava as feridas deixadas, os gritos, o adeus emudecido, o acidente. O problema não estava em reviver memórias; mas, aprender a dizer adeus ao grande amor. Eu sentia que não alimentar sua memória era permitir sua partida – e eu não estava pronta para o adeus. Eu não podia simplesmente deixá-lo ir.

A vida se desdobrava diante de mim e me envolvia, obrigando-me a aprender e a submeter-me a uma infinidade de leis desconhecidas – sobrevivência, recuperação, solidão, encontrar um rumo. Fazia parte do meu plano mudar, afastar tudo e todos que seriam capazes de motivar qualquer lembrança dele, de meu passado, do amor pesado que ainda carregava em meu peito.

Olhei a tela do celular, uma mensagem da minha melhor amiga, Mari.

"Um dia você encontrará alguém que fará parte de sua vida. Talvez demore um tempo para que você compreenda tudo o que passou, mas saiba que estarei aqui sempre que precisar. Pense que essa mudança fará muito bem, afinal, sair desta cidade é uma ótima forma de esquecer tudo. Você conseguirá superar, amiga. Fique bem. Amo você. Volte logo."

Eu queria ser forte para respondê-la imediatamente, mas não era – e ela também sabia. Respirei fundo na tentativa de organizar os pensamentos e impedir que as primeiras lágrimas do dia viessem a brotar.

"Respire, Sofia. 1... 2... 3... Apenas respire."

Mesmo com a certeza que Mari nutria um amor muito sincero por mim, sabíamos, de alguma forma, que as memórias não estariam atreladas às paredes, ruas, bairros... O problema não estava na cidade; estava nele – na minha maldita teimosia de associar lugares às memórias; na mania de vê-lo em todos os pontos de ônibus, nas esquinas, nas bancas de revista, nos cafés e restaurantes que, ao longo dos anos, foram refúgios de nossos encontros amorosos, palcos das celebrações do amor que tivemos. Eu não estava segura naquela cidade. Ele estava em tudo, principalmente em mim. Eu não estaria segura em nenhum lugar. Eu queria confessar que a minha partida era um evidente ato de covardia, de completo desespero. Ficar me causava uma embolia sentimental, um fluxo desordenado de emoções nada saudáveis. A vida... Bem, a vida continuaria sendo a mesma, nada mudara ao meu redor com a partida dele. O que eu realmente queria era sofrer longe daqueles olhares piedosos e desconfortantes. Eu não conseguiria enfrentar os encontros com os nossos velhos amigos, todos sabiam de nossa história – começo, meio e, principalmente, o fim. Eu tinha a opção de aceitar a parte de cuidados extremos que todos os bons amigos guardam para momentos como aquele, mas chegaria o dia que a minha dor não passaria, porque eu estaria viciada em cuidados, na pena, na extrema atenção, e, por sua vez, meus amigos se cansariam, cobrariam uma mudança radical, alegariam que passara tempo suficiente e era hora de mudar, esquecer tudo de ruim. As amizades se findariam no exato instante que eu, viciada em melancolia, me sentiria traída, abandonada e passaria a reavaliar a verdadeira amizade.

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