CAPITULO ÚNICO

296 69 255


        Se fosse para eu me descrever usaria o termo "insuficiente". Não "vazio", e sim, "insuficiente".

        Estou acima do nada, porém abaixo do normal. Construí um muro à minha volta, um muro constituído por lágrimas que eu havia guardado e não vou chorar nunca mais, pois esse muro não cederá e não poderão me enxergar, ninguém enxergará a minha nudez.

         Todos nós temos segredos. Alguns tem mais, outros menos e existem aqueles que são a personificação de um, como eu, que vivo como um rato mergulhado em minha própria sombra. Se já chorei algum dia? Não me lembro mais, não chorei nem quando ele foi embora. Eu morria por dentro, mas continuava firme e tamanha força tornou-se meu fardo.

        Eu desejei morrer, mas fitei-o com triunfo, o que talvez tenha sido interpretado como um "eu não te amo", mas eu o amava; o queria, quero e mudaria as coisas se pudesse, só não sei se teria sido alguém mais amável. Deveria ter dado-lhe mais espaço. Não acreditei nem um pouco que seria para sempre e esperava que ele voltasse e que esta seria apenas mais uma de nossas brigas tórridas, mas não foi.

         Não foi, e só me resta esperar que você se lembre da minha existência. Ou será que ainda existo mesmo? Sinto que não, como se o meu eu tivesse se tornado apenas um eco aprisionado às paredes de meu quarto, condenado a se repetir dia após dia e me vejo obrigado a  abrir a janela para deixá-lo se difundir pelo ar sem rédeas, até que por fim se dissipe e deixe de existir. Abriria a janela mesmo que fosse com o intuito de me jogar.

       Abra a porta, meu amor. Você tem a chave. Chame por meu nome. Eu não hesitarei em ir para os seus braços, eu sei que você pode! Por favor, não me faça acreditar que é tarde demais e me diga que não é tão impossível de haver uma nova chance.

        Continuo sem chorar. Tenho raiva, pois chorar não muda as coisas, chorar é um ato em vão. Chorar não te traz de volta, tudo o que eu disse são apenas ecos soltos pela sala, dizeres que você não pode ouvir. A noite se aproxima e eu continuarei deixando as luzes apagadas porque a escuridão se tornou meu habitat natural; posso não conseguir distinguir onde e como estou, mas dentro da escuridão meus sentidos são mais aguçados.

        Quando era criança e alguma coisa me assustava eu costumava correr até meu quarto e me esconder embaixo das cobertas, e só saía quando não havia mais o que temer, o que atualmente não adianta mais, pois assim que eu sair de lá os fantasmas continuarão do lado de fora à minha espera.

        Para resumir o que vivi, devo dizer que eu amei. Amei de forma intensa e indescritível. Amei à duas pessoas diferentes, de formas diferentes com a mesma intensidade e antes que chegassem eu estava só como sempre estava até então; isolada em um mundo desconhecido, que existia em paralelo ao mundo dos outros seres humanos. Quando elas chegaram, deixei de me sentir só, enfim eu havia sido descoberta e não temia isso, porém, a novidade tornou-se banal como a rotina, elas se cansaram e se foram.

          É hora de levantar. O tempo passou e eu sequer havia percebido que já estava prestes à amanhecer. Meu pássaro executava as primeiras notas de seu piar triste e amargurado, algum dia hei de libertá-lo, coitado, entretanto, não agora, pois ele é tudo que tenho, o único que não me abandonou e continua convivendo comigo por que sou sua prisão, sendo também sua mãe, seu algoz.

        Por um momento pensei que a campainha houvesse tocado, mas foi apenas uma impressão, continuo sozinha. Com muito custo me forço a erguer o tronco e por mais que minhas pernas estejam bambas, uma câimbra adormeça meus pés e possivelmente me faltem forças para caminhar caminhando, estou de pé. Meu mundo está destruído, mas continuo de pé, e estar de pé já é um progresso. "Vamos lá, basta um passo. Você consegue, não é o fim" incentivo mim mesma, e de súbito este último trecho me destrói. O que é o fim, afinal? O que é essa massa que chamamos de vida?

        Não há nada e permaneço viva. Não faço ideia do que sou, apenas sou e vivo não por querer, mas por força do hábito, uma vez que viver para mim é um ato automático. Como uma boa e eterna curiosa, parte de mim quer ir; mas a outra teima em ficar para ver o que me esperaria após essa confusão. Tenho plena consciência de que um dia minha curiosidade poderia acabar me matando e queria me livrar dessa maldita vontade de desvendar os porquês, porém, o que é uma confusão? Do que se trata tudo isso? Como posso definir o que eu estou vivendo? Estou perdida e esta é a minha perdição: entender e aceitar a vida e seus inúmeros desprazeres, só que antes preciso entender o que é a perdição para saber se estou realmente perdida.

        A única coisa que posso afirmar é que estou diferente de tudo e todos a quem conheci ou ouvi falar, falo uma língua diferente que não conseguem compreender e vejo coisas que a maioria não enxerga. Loucura?

        Estou presa nessa inquietude. Somente consigo ver quando sei o porquê. Caminho a passos largos para o inteiror de meu mundo, adentrando lugares desconhecidos e perigosos que podem nunca mais me deixar voltar, mas quero ter certeza de que fiz a escolha certa. Penso em como seria se eu não tivesse descoberto a verdade e de todas, essa é a pergunta que mais me instiga a encontrar respostas, pois, em síntese poderei ver que toda essa articulação que fiz se quebrar diante de tudo que direi agora ou vê-las ganhando algum foco.

         Acho que esse é o momento final ao qual todos esperamos. Todos quem? Quando digo "todos" me refiro a você e eu, sendo você mais um de meus amigos imaginários. Meu pássaro ainda clama por sua liberdade e eu o libertarei em breve, já que está chegando o momento, mas antes preciso encontrar a verdade.

       A verdade me atingiu feito uma bala perdida num momento em que eu andava desprotegida e totalmente despreparada para encontrá-la, e vê-la acabou por queimar meus olhos. Agora sei me apercebo do fato de que sou diferente dos demais. Estou cega, mas ainda enxergo a verdade e agora entendo que isso é a loucura.

         Quero achar um caminho alternativo à verdade que me destrói, talvez eu nunca encontre e passe a vida buscando, mas quem sabe a busca não seja a liberdade? Silêncio, ouça meu grito! É um grito rouco, semelhante ao dos pedintes, e o que peço é liberdade, pois tenho tenho fome de liberdade assim como o pássaro que chamo de meu, que canta histéricamente para que eu o liberte.

        Abro a janela e respiro o ar que rapidamente inunda o meu quarto. O sol beija minha pele percorrendo cada pedacinho do meu ser. Ainda estou viva e não estarei assim pra sempre, por isso quero exercer essa vida que acabo de descobrir. Não sou a gaiola como pensava, mas sim, que era a prisioneira e ganhei uma liberdade que não necessita de entendimento. Estou livre.

       Abro a gaiola e observo o pássaro que já chamei de meu experimentar o que é o céu, e o assisto voar rumo ao horizonte. Fecho a janela e lavo meu rosto, o brilho gélido da água novamente me anuncia estou viva! Abro a porta de casa e ponho-me a correr sob o sol recém nascido, meus olhos estão fechados e o vento me mostra o caminho.
Chegou a minha vez de voar.

Victor Pacheco.

UM PÁSSARO NA GAIOLA #oscarliterário2017Leia esta história GRATUITAMENTE!