Capítulo 2 - Ironia

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no fundo, todos esperamos,com o coração nas mãos,a chegada do fim do mundo ~ Haruki Murakami 

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...no fundo, todos esperamos,
com o coração nas mãos,
a chegada do fim
 do mundo
 ~ Haruki Murakami 

* * * 

A palavra ironia vem do grego eironeia, que quer dizer "perguntar fingindo não saber a resposta" que eu traduzo como "dissimulação".

Eu não sei ser sarcástico, dificilmente sei ser engraçado, e não sei manipular pessoas.

Detectar ironia nas frases das pessoas é uma ciência complexa pra mim.

Meu nome é Jefferson e a coisa mais legal que existe no mundo é a comida.

*

Eu almoçava todos os dias, pontualmente às 11h45.

Que pessoa educada. Entrou sem cumprimentar ninguém! Olha pra mim aqui! - Dizia minha mãe quando eu chegava para o almoço.Eu olhava para ela.

Éramos somente nós dois na mesa de madeira que ficava na varanda da casa.

Eu olhando para a comida e para as galinhas que ciscavam o terreiro a nossa volta e minha mãe olhando para frente, para o infinito.

Meu pai não dava notícias a meses. Ele tinha partido com um grupo de homens que carregavam mochilas.

Jeff, o lugar é fácil de encontrar ouro! Eu vou juntar um saco de ouro e vamos comprar o que quisermos para o resto da vida, você vai ver! — dizia ele enquanto me erguia pelos braços. 

Eu pensava que seria legal comprar muitos doces e um pônei.

Não me lembro bem do rosto dele para descrevê-lo melhor.

Minha mãe fazia o serviço da casa, cuidava dos animais e lia o mesmo livro, sempre. Meu pai tinha lhe deixado um bom dinheiro que ela guardava dentro do colchão velho que ficava no quarto de hóspedes. Ela não desconfiava que eu sabia disso.

Depois do almoço eu pegava minha bolsa de couro, colocava sobre os ombros e ia sozinho para a escola. O caminho era simples, era só sair de casa, seguir uma linha pela estrada ao lado do canavial, andando por bastante tempo, tanto tempo que me fazia sentir coceiras nas pernas. Virar a direita na igrejinha abandonada e andar mais um bom tempo até chegar ao portão amarelo de madeira.

Não me lembro bem o que acontecia lá mas me lembro de que o pátio da escola era cheio de crianças antes do início das aulas. Me lembro da angústia por ter que ficar lá.

Me lembro da vez em que uma criança grande passou por cima de mim enquanto perseguia alguém em uma brincadeira que não fazia sentido para mim.

Eu voltava da escola, deixava minha bota do lado de fora da varanda sob a sombra da laranjeira, deixava a bolsa no meu quarto e comia biscoitos e tomava um copo de leite. Pontualmente às 18h30.

Certo dia, quando eu voltei da escola, encontrei minha mãe pendurada em um galho da laranjeira por uma corda amarrada ao seu pescoço.

Olhei para ela.

Deixei minha bota do lado de fora da varanda, a bolsa no meu quarto, comi biscoitos e tomei um copo de leite.

Pontualmente às 18h30.

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Jeff mais leve que o arOnde as histórias ganham vida. Descobre agora