06. Você não está só

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Dylan ouviu passos lá fora e um burburinho de conversas agitadas, seguidas por um pedido de silêncio. Por um instante, um mísero e agradável instante, a menina pensou estar em casa, no seu quarto de paredes coloridas enfeitadas por fotos e pôsteres dos seus artistas favoritos, num dia de semana qualquer, prestes a ser acordada para ir para a escola. Pensou estar de volta à sua rotina, às banalidades do dia a dia, de volta à família e aos vizinhos e a calmaria do seu bairro. Pensou estar de volta ao conforto da sua antiga vida.

Mas bastou entreabrir os olhos para ser recebida pela escuridão do largo cômodo que um dia servira de sala de aula de uma escola agora abandonada. Tentou respirar fundo, mas o ar falhou. Calma pelo ambiente, suas mãos tatearam o bolso da calça nova e se agarraram à bombinha de asma que havia guardado consigo. As outras estavam junto de sua mochila, junto aos medicamentos – um estoque grande, mas não infinito, Dylan pensou conforme pressionava o botão.

As venezianas da janela estavam mal fechadas, mas Dylan não se importou com aquilo. A constatação de que haviam dormido a noite toda sem interrupções a animou. Max tinha grandes problemas com o escuro, e tinha sido impossível fazê-lo dormir nas últimas semanas; sempre fadados ao breu total.

Agora, Max estava estirado na cama ao seu lado, babando sobre o travesseiro, bagunçado em meio às cobertas cedidas por Beatrice. Dylan riu suavemente, pondo-se de pé para ajeitá-lo.

A cena foi tão assustadoramente semelhante às diversas noites em que cuidou de Max, quando o mundo ainda fazia sentido, que a menina precisou tirar um instante para se acalmar.

Ninguém apareceria ali para dispensá-la e levá-la de volta para casa no fim da rua. Não havia casa, não havia fim da rua, não havia ninguém.

Não. Não pode pensar assim. Ela se repreendeu.

Havia alguém. Não só os desconhecidos lá fora, mas outras pessoas além da cerca de proteção. Havia o lugar seguro prometido por Doug e havia o mapa com o caminho até ele.

Ela e Max não estavam sozinhos.

– Dyl? – a voz sonolenta do garotinho a despertou dos devaneios. Dylan sorriu para Max, sentando-se ao lado dele. – Onde estamos?

– No lugar seguro, lembra?

– Ah, a escola. – ele esfregou os olhos demoradamente. – A gente precisa levantar?

– Não podemos ficar aqui pra sempre, preguiçoso. – Dylan abriu uma das venezianas e espiou o sol lá fora. Devia ser início da manhã, pela posição dele; ela odiou ter que tirar Max da cama tão abruptamente, mas eram novos ali. Não sabia até onde ia a boa vontade dos seus salvadores. Não queria lhes causar estorvos, e dormir por muito tempo num lugar que obviamente podia usar sua ajuda soava-lhe como um. – Vamos procurar a moça simpática de ontem.

– E o café da manhã? – Max resmungou.

– Podemos procurar o café da manhã também. – Dylan ajudou Max a ajeitar as roupas amarrotadas e fez o mesmo com as suas. Prendeu o cabelo em um coque e segurou a mão do garotinho conforme se aventuravam para fora do quarto.

O corredor estava vazio, diferente de minutos atrás, quando Dylan ouvira aquela breve e abafada discussão. Seguiram pelo caminho que a garota se lembrava de ter usado na noite passada e encontraram as escadas para o primeiro andar. Dylan e Max entreolharam-se ansiosamente, mas não avançaram muito sem ser interceptados por um dos moradores.

– Bom dia. – um homem, de seus cinquenta anos, os cumprimentou. Ele era careca, com exceção de alguns fios castanhos margeando sua cabeça. Tinha olhos pequenos e sorriso simpático. O desconhecido precisou olhar para cima para falar com Dylan, o que surpreendeu a garota; ela sempre era a baixinha da vez. Um detalhe nele não passou despercebido por Dylan, e talvez por isso tenha sentido simpatia imediatamente pelo desconhecido. A gola da camisa social preta dele não mentia: tratava-se de um padre. – Estão perdidos?

As Coisas que Perdemos [DEGUSTAÇÃO]Leia esta história GRATUITAMENTE!