Capítulo Seis: A Batalha de Rhove

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"Conheci Marovarola no dia em que me juntei aos Doze Vermelhos. Espirituoso e, por norma, bêbado, transportava duas alfanges às ancas, que nunca vi desembainhar. Diz quem viu que não era bonito. Andava sempre com Bar e Vivelma, dois homens mais poderosos que ele. Nunca se embebedavam, mas estavam sempre a seu lado, com rostos sorumbáticos e cicatrizes que só os piratas mais experimentados podiam alcançar. Bar tinha uma barriga em forma de barril, e uma agilidade impressionante, impossível de prever com tal porte. Certa vez, enfrentei-o. Antes de dar por isso, tinha sido rasteirado e o brilho do seu aço cegou-me. Vivelma era esguio e franzino, com um par de olhos encovados, ao ponto de fazer tremer um fantasma. Nunca o vira falar, e ouvi histórias sobre o dia em que lhe arrancaram a língua. Eram homens poderosíssimos, esses dois. Estive lá no dia em que eles morreram. Por minha culpa. Graças à minha traição. Marovarola nunca me perdoou por isso."

Enforcaram Michelle ao raiar da manhã. A sua utilidade desaparecera como um fiapo de névoa numa manhã de inverno. Língua de Ferro pagou as setenta pratas que Ravella dizia valer, e esperou que Rivia contasse, uma a uma, as moedas que lhe entregara. Avaliava a cunhagem e mordia os discos de prata, até ter a certeza que não estava a ser enganado. Os Doze Vermelhos, que agora eram cerca de sessenta, saíram de Selaba em clima de euforia, ostentando Língua de Ferro como líder, agora que Dooda Vvertagla havia perecido. Língua de Ferro pareceu desagradado com a ideia, pois a sua consciência murmurava-lhe que seria o consumar de uma traição perpetrada anos atrás, mas havia coisas para as quais um homem não tinha escolha, e quando as gentes o seguiam, não havia modo de escapar ao papel de líder.

O salteador montava um camelo pachorrento, levando Ravella a pé, aprisionada à pata do animal por um forte cordão de couro. A uraniana praguejava e estrebuchava, pois nunca imaginou que seria esse o tratamento a ser-lhe aplicado. Atrás dela, Empecilho vigiava-a, instigando-a a prosseguir com um pequeno chicote. Por vezes, Ravella tropeçava, outras vezes sentava-se e deixava-se arrastar, mas as parcas palavras de Língua de Ferro incitavam-na a obedecer.

― Tens cara de porco ― rugiu Ravella. ― Miserável bastardo, vou-te fazer engolir um bom bocado de merda, ou não me chamo Ravella. Eu vou-te foder, magnânime Língua de Ferro.

Sem desviar o rosto do horizonte, o salteador soltou uma risada e assentiu.

― Aposto uma mão cheia de prata em como estás louca por isso. Mas antes, irás contar-me tudo o que sabes, ou arrancar-te-ei dente a dente... e não sou grande apreciador de mulheres desdentadas.

A mulher rugiu.

O sol estava baixo e a luz torrava a pele em exposição, conseguindo atravessar as sedas vermelhas dos trajes que envergavam. Ravella tinha a boca seca e grunhia frequentemente por um pouco de água. Língua de Ferro, que pouco usava do seu odre, dava-lhe apenas um pouco de hora em hora, e não se abstinha a castigá-la quando ela bebia mais do que lhe era permitido.

Sucederam-se dois dias a esse ritmo, sobre charnecas e campos inférteis intermináveis. Aquilo não era estranho para Língua de Ferro, para quem as entranhas dos desertos eram uma velha companhia. Aquelas eram zonas inóspitas, recortadas pelo céu quente a horizonte. Os passos eram abafados pela areia, e as nuvens tomavam a forma de guerreiros enclavinhados em demonstração de combate. Paravam duas vezes ao dia, para comer, descansar e reabastecer, mas havia pouca caça por aqueles caminhos estéreis. Havia também dificuldade em fazer fogo nas condições que encontravam, embora a pederneira que Língua de Ferro trazia nos seus alforges fosse uma preciosa ajuda.

― Para onde vamos ao certo, senhor? ― perguntou Empecilho.

― Para Ccantia, a cidade-sombra. Creio que possamos encontrar lá a Companhia dos Ossos. Agravelli estava sediado lá, da última vez que tive notícias dele.

Língua de Ferro - Um Sacana QualquerRead this story for FREE!