Capítulo 24 - RICARDO

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Eu não sabia que iria sentir aquela dor novamente.

A mesma dor que senti quando a minha mãe morreu.

Angelo fora meu melhor amigo da vida. Íamos à escola juntos, minha mãe o adorava, suportei o luto pela minha mãe com ele, ou tentamos porque no final pegamos o pior caminho para superar a merda que é perder um parente, principalmente uma mãe, e ele foi na onda comigo. Como um verdadeiro e ingênuo melhor amigo.

E eu me odeio por isso.

Tentei fazer uma merda de discurso pra ele no enterro, mas não saiu metade do que eu sentia ou do quanto eu amava esse cara.

Amava.

Agora vou ter que me acostumar a falar do Angelo no passado.

A única coisa que me deixava calmo e relaxado era ver a Clara com as crianças, era ver a Clara.

Eu chorei na frente dela. Ela poderia ter me chamado de bebê, como alguma outra pessoa faria. Poderia dizer "Você não pode chorar, você é homem". Mas não, ela simplesmente me abraçou e me entendeu. Ela sabia como eu me sentia, mas ela não pediu que eu reprimisse e foi aí que fiquei ainda mais feliz por tê-la comigo. E porra, ter dormido com ela. Eu estava cansado demais, fisicamente e emocionalmente, mas não poderia esquecer como nossos corpos se encaixaram perfeitamente na nossa conchinha esmagada por causa de quatro pessoas numa cama só. Na maneira como ela entrelaçou seus dedos nos meus pra gente dormir. Peguei no sono com a respiração dela, com o corpo dela se movendo pela respiração.

Ela era o meu calmante e eu precisava de mais doses.

E agora dirigindo no meu carro com duas crianças órfãs de pai eu me obrigo a lembrar dela sentada no meu colo, tentando fazer com que eu ficasse bem.

Eu estava bem, eu ficava bem.

Com ela.

***

No dia seguinte eu já estava de pé antes do amanhecer para arrumar minha mochila do treino, tomar meu banho e preparar um café da manhã digno para duas crianças em fase de crescimento. Esquentei um pouco de leite, fiz um suco de laranja e coloquei na mesa tudo o que estava na sacola térmica da Clara. Ou seja, iogurte, bolacha, bolinhos e algumas frutas.

Quando fui acordá-los só pude escutar reclamações de "está muito cedo Ricardo, quero dormir". Eles sempre estudaram a tarde então nunca que eles iriam acordar dispostos às seis horas da manhã. Mas em minutos eles já estavam arrumados para tomar um café da manhã reforçado e estavam ansiosos para finalmente me acompanharem num treino do time amado deles.

Liguei para o Jorge avisando que estava levando os filhos da Lúcia para o meu treino. Seu único pedido foi que para que eles ficassem comportados, o que não seria muito difícil, Laura e Luan sempre foram crianças obedientes mas obviamente, crianças, então talvez causariam um reboliço no treino mas por estarem extasiados em estar vendo meu treino ao vivo e cores. Depois liguei para o Henrique para que ele avisasse nossos colegas do time que estaria levando meus sobrinhos fictícios e que queria que eles tomassem cuidado com que falariam, sem perguntar dos seus pais ou serem chatos ou insensíveis com eles.

Chegamos ao treino no horário em ponto. Apresentei a Laura e o Luan a todos, as crianças estavam nas nuvens por estarem conhecendo seus jogadores favoritos, inclusive o nosso professor maior, o Toninho.

- Hoje faremos apenas exercícios de passe e aeróbico, então se quiserem ficar no cantinho do campo jogando uma bola, fiquem a vontade. - Toninho conversava com agachado com as crianças. - E também temos comida à vontade até às onze horas. - ele aponta para uma das portas do refeitório mostrando pra Laura e Luan onde poderiam entrar pra comer ou beber alguma coisa.

Com a bola toda - em revisãoOnde as histórias ganham vida. Descobre agora