Capítulo V - Brincadeira de adulto

294 8 2
                                        

Não lamentes, ó Nize, o teu estado;
Puta tem sido muita gente boa;
Putissimas fidalgas tem Lisboa,
Milhões de vezes putas teem reinado.

Dido foi puta, e puta d'um soldado; Cleopatra por puta alcança a c'roa;
Tu, Lucrecia, com toda a tua proa,
O teu conno não passa por honrado.

Bocage

   Não é todo dia que você encontra uma dominatrix de dezessete anos. Sim, embora a Mayara ainda não tivesse idade legal para trabalhar no mercado do prazer, ela já se vendia em classificados online como "uma domme novinha a procura de um escravo". Mais incrível ainda foi perceber, depois de adicioná-la no WhatsApp, que eu já tinha conversado com aquela garota antes, em uma rede social de encontros amorosos e tinha ficado louco por ela. Realmente, era uma adolescente, que — muito provável — ainda sequer tinha tido experiências sexuais o suficiente na vida para trabalhar como dominadora profissional.

    "Bato, xingo, faço massagens, tudo menos sexo", me respondeu ela, questionada sobre como funcionava o atendimento. Parecia um tanto constrangida durante o começo de nosso bate-papo, mas foi se soltando com o tempo. Logo topou transar comigo caso eu pagasse quatrocentos reais por uma hora; o lance inicial tinha sido de duzentos e cinquenta. "Nunca vou abrir minhas pernocas só por isso, tenho família, sou novinha, sou linda, é difícil", e riu. Em seguida, me mandou um recado em áudio: "Nem sei porque tô fazendo isso, uma amiga minha que me contou sobre essas coisas, disse que tava ganhando mó grana e tal". A voz é de uma colegial, e Mayara se recusa a marcar um encontro no mesmo dia justamente por ter que fazer trabalhos escolares.

    Uma dominatrix — ou simplesmente domme —, para quem não sabe, é um dos principais elementos na prática de Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo (BDSM), conjunto de fetiches que geralmente envolvem dor, humilhação e tortura física e/ou psicológica. A dominadora é a personagem que, usando aparatos certos e uma forte imagem de mestre, subjuga o macho e o força a fazer o que ela quiser. Tapas na cara, puxões de cabelo, asfixia, sessões de spanking, inversão de papéis — tudo pode rolar em uma relação do gênero, desde que haja um acordo comum entre ambas as partes. Embora eu nunca tenha me considerado um adepto ou entusiasta do BDSM, nunca neguei que curtia certo sadismo durante o sexo. Dor me excita. Um parceiro estar no controle do outro me excita. Violência (dentro de um nível socialmente aceitável) me excita. Nada mais bacana do que uma mulher que te pega pelos cabelos e enfia sua cara na boceta dela, te forçando a chupá-la pra valer.

    Mas aqui estamos falando de uma menor de idade. Dominação não é prostituição — pelo menos não quando deixa de envolver o ato sexual propriamente dito. Ainda assim, é uma forma de comercializar prazer. E eu obviamente teria que entrar em um motel com a Mayara. "Eu uso um RG de uma amiga mais velha", me contou ela. Não sabia o que mais me atormentava (e me excitava) na situação: eu estar colaborando para um possível futuro de prostituição de uma menor de idade, apoiar a prática de falsidade ideológica ou ser dominado por uma garota mais nova do que eu e que tem voz de criança.

    Após uma desistência por parte dela — e mais insistência pela minha —, marcamos um encontro no meu motel predileto na tarde de uma segunda-feira. Como sempre, cheguei mais cedo e fiquei esperando na estação por uns vinte minutos. Procurava a garotinha no meio da multidão de passageiros que entravam e saiam dos vagões, sem sucesso em encontrá-la. Quando ela chegou, percebi que eu estava errado em procurar uma "garotinha"; Mayara era um mulherão com um corpo de parar o trânsito, o que contrastava com sua voz exageradamente infantil. Era mais alta do que eu, tinha pernas torneadas, seios chamativos e uma boca carnuda. Não sabia disfarçar: sua roupa e postura chamavam atenção e todo mundo ali logo percebeu que ela era uma prostituta. Vestia calças jeans apertadíssimas e com grandes rasgos que expunham sua pele clara; os saltos altos produziam um incessante tlec-tlec enquanto ela desfilava esbanjando simpatia. Uma verdadeira deusa, que arrebatava olhares de ambos os sexos — alguns de inveja, outros de desejo. Era a perfeita representação da luxúria, uma placa de trânsito apontando em direção à estrada para o pecado. Era um mar de prazeres compactado em um invólucro de apenas dezessete anos.

    "Eu sou um bebê grande", ironizou a moça. Fazia tempo desde a última vez em que eu não me sentia tão ansioso pelo simples fato de estar próximo de uma mulher. A verdade era simples: Mayara era boa demais para mim. Essa era uma linha de pensamento que eu sempre evitei ao longo da minha vida, mas foi simplesmente impossível desviá-la naquele momento. Ela tinha qualidades demais para um cara com defeitos demais. E, logo em seguida, ocorreu aquilo que nós até podemos encarar como uma providência dos céus, um recado divino, um alerta sobrenatural: a novata havia esquecido o RG. Bom, não se entra em um motel sem um RG. Ou sem um pedaço de papel verde parecido com um RG, que a recepcionista pegará e guardará numa fileira de armários sem checar se é uma identidade válida. Mas não tínhamos nem RG e nem pedaço de papel; tivemos que voltar.

    Enquanto eu tentava convencê-la de que seu erro de principiante não era tão grave assim, Mayara desabafou: "Acho que essa vida não é para mim". E não é mesmo, garota. Ela tinha medo demais e inocência demais, duas coisas muito perigosas para essa profissão. Não seria difícil enganá-la com alguns truques conhecidos entre quem trabalha nesse meio (como deixar o pagamento para o final do programa, dizer que esqueceu o dinheiro, prometer um depósito em conta e dar o golpe do envelope vazio) ou até mesmo ameaçá-la com uma arma (mesmo que de mentira). Não conversamos muito. Eu mal conseguia olhar para o seu rosto sem me sentir um pobre vassalo erguendo sua cabeça para a Vossa Majestade. Ela comentou dos estudos, falou sobre planos para entrar na faculdade, reclamou do ex-namorado possessivo e afirmou que é uma filha excelente, não causando qualquer tipo de problemas para seus pais. Ao nosso redor, senhoras em seus quarenta anos de idade me olhavam com reprovação. Algo ali estava errado; como caralhos esse mulambo barbudo está na companhia dessa jovem linda e indefesa? Mesmo que não estivéssemos conversando sobre assuntos comprometedores, para alguns, ficou claro que ali se sentavam um cliente e uma garota de programa. Risadas eram perceptíveis. Mas Mayara parecia mais preocupada com seu esquecimento do RG do que com seja lá o quê estivesse na cabeça dos outros indivíduos dentro do trem. Às vezes, resmungava e fazia caretas; mesmo assim, continuava soberba.

    Nós nunca remarcamos nosso encontro.


Gostou do texto? Então acompanhe os próximos capítulos de "A grande caça às borboletas" e curta a página do autor no Facebook (https://www.facebook.com/ramondesouzaescritor/).

Ramon de Souza tem 22 anos, já participou de seis antologias literárias, publicou um livro solo ("Rato Urbano", Ed.Multifoco, 2014), publicará mais um em 2016 ("Meus preciosos contos tristes", Ed. Multifoco) e venceu um prêmio de jornalismo latino-americano. 

A grande caça às borboletasOnde histórias criam vida. Descubra agora