Estilo #6 - Tempo verbal

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Você já pensou qual seria o tempo verbal mais apropriado para a sua história? Os meus primeiros textos eu escrevi no passado, depois reescrevi no presente, e no passado de novo. E ficava com a dúvida do que era o mais apropriado. Isso porque eu acreditava que existia uma necessidade de contar as coisas no passado e, ao mesmo tempo, ouvia que narrar no presente era o ideal. Então, vamos analisar essa questão.


Pretéritos (imperfeito e perfeito)

Se a sua história acontece no passado – já aconteceu –você tem que narrá-la com um dos pretéritos, certo? Não.

Se pensarmos bem, toda a história acontece no passado. Mesmo quando a contamos no presente, a ação já ocorreu. Podemos comparar o narrador a um tradutor simultâneo descreve o que está acontecendo, mas sempre com uns instantes de defasagem.

Dito isso, vamos ao presente e em seguida um exemplo comparativo.


Presente

Defendido por muitos teóricos e escritores contemporâneos é, sem dúvida, o tempo verbal mais indicado para uma narrativa. A principal razão dessa recomendação quase unânime é porque aproxima o leitor com a história. Ele tem a sensação que a ação acontece no momento da leitura.


Passado x Presente

Caminhei para a sacada. Olhei para o meu povo, lá embaixo. Eles estavam aflitos. Pude sentir no silêncio.

Caminho para a sacada. Olho para o meu povo, lá embaixo. Eles estão aflitos. Posso sentir no silêncio.

- Sim, a mudança é quase imperceptível num texto deste tamanho. Mas, em um romance, optar pelo presente traz fôlego à narrativa e evita que o leitor mais experiente se canse.

- Perceba que não importa se a ação narrada aconteceu há mil anos ou há dois minutos. O que você precisa é fazer o leitor notar que isso já aconteceu. Mais à frente vamos detalhar disso.


Futuro

Assim como o passado, é necessário em alguns momentos. Em outros momentos, é um ótimo tempero para o texto. Mas como toda a pimenta, deve ser usado com moderação. Quando usado em todo o texto é cansativo e se aproxima mais de um exercício de escrita do que uma escolha estética.


Pretérito mais-que-perfeito e seus colegas

O premiado escritor Marcelino Freire diz com frequência que não se deve escrever para se sentir melhor que alguém.

Isso parece não ter relação com o tema, mas o primeiro elogio que ganhei com O Segundo Caçador foi: "Você não comete o erro de muitos autores novos, que, na intenção de deixar o texto "elegante", recorrem a palavras rebuscadas e expressões "requintadas demais", ou seja, pedantes, que acabam tendo o efeito contrário. No seu caso, o léxico utilizado é simples e enxuto, o que confere fluência e elegância ao texto."

Seja simples não só na escolha de advérbios, verbos e adjetivos. Chegue ao tempo verbal. Sei que muitos escritores iniciantes preferem dizer "ele olhara" do que "ele olhou". Mas se a mensagem é a mesma, por que ser rebuscado? Esses tempos verbais são um fantasma de um tempo que já acabou. Lemos nos livros antigos – clássicos – que gostamos e tentamos copiá-los, mesmo inconscientemente.

Perceba que não usamos mais esses tempos verbais no dia-a-dia. Esses tempos só existem nos livros antigos e nas gramáticas.

Um problema extra é que alguns destes tempos verbais, notadamente o futuro do pretérito, são usados por escritores iniciantes como uma forma de criar uma dúvida ou questionamento. "Ele estaria em casa.". Não caia nessa cilada. Decida se ele está ou se não. Mesmo que o narrador esteja enganado ou mentindo, diga o que acontece. Seja tão assertivo na escolha do tempo verbal quanto costuma ser com os adjetivos.

Mas você pode argumentar que cada tempo verbal tem uma função específica e que só é correto usá-los no contexto apropriado. Se você acredita nisso, uma palavrinha do grande Luís Fernando Veríssimo: "A gramática precisa apanhar todos os dias para saber quem é que manda.".


Presente x Pretérito mais-que-perfeito

Caminhara para a sacada. Olhara para o meu povo, lá embaixo. Eles estariam aflitos. Pudera sentir no silêncio.

Caminhei para a sacada. Olhei para o meu povo, lá embaixo. Eles estavam aflitos. Pude sentir no silêncio.

Caminho para a sacada. Olho para o meu povo, lá embaixo. Eles estão aflitos. Posso sentir no silêncio.

- Mesmo em um texto pequeno, a mudança é bem expressiva. Se isso se estender por muito tempo, o leitor pensará em largar o texto.

- Mais uma vez, não importa quando a ação aconteceu.


O ideal: mistura com preponderância no presente

Mais uma vez vamos aos nossos exemplos:

Caminhei para a sacada. Olhei para o meu povo, lá embaixo. Eles estavam aflitos. Pude sentir no silêncio.

Caminho para a sacada. Olho para o meu povo, lá embaixo. Eles estão aflitos. Posso sentir no silêncio.

Caminhei para a sacada. Olho para o meu povo, lá embaixo. Eles estão aflitos. Posso sentir no silêncio.

Repare no terceiro exemplo que, com apenas a utilização de um passado, o leitor foi situado temporalmente. E o presente no restante trouxe ritmo ao texto.


Dica: Cair um nível

Imagine que o presente é o primeiro andar, que os pretéritos simples e futuro simples são o segundo e que os demais tempos verbais são o terceiro. Então, quando for fazer a sua revisão, tente com toda a sua força e coragem descer um andar em cada verbo. O que era passado vira presente, o que era pretérito mais-que-perfeito vira pretérito perfeito. Não vai ser possível com todos, mas tente assim mesmo.


OBS.: Nenhum tempo verbal é proibido, nenhuma regra sempre vale. Mesmo o pretérito mais-que-perfeito pode ser uma boa ferramenta de estilo de vez em quando. Só faça questão de escolher por si mesmo! Nunca deixe essa decisão para o inconsciente.



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GUIA do Escritor de FicçãoOnde as histórias ganham vida. Descobre agora