27- O REENCONTRO

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Brasil, Maringá, Estado do Paraná, ano de 2310  

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Brasil, Maringá, Estado do Paraná, ano de 2310  

Os verdadeiros paraísos são os paraísos que se perderam.

Marcel Proust

Meu cotidiano em 2310 era acordar cedo, limpar o quintal retirando os dejetos de meus cães, acordar Julia e Dante, preparar textos, aulas ou artigos, variava muito, e depois iniciar o preparo do almoço, enquanto Dante e Julia faziam o dever de casa na mesa da sala de jantar.

Faltavam três anos para o acidente na estrada da serra do mar, o dia em que perderia a memória. Vivia feliz, não sabendo de meus outros anos, de meus outros clones, de minhas memórias de outros eus.

Posso dizer sem medo que essa lembrança ao mesmo tempo foi a mais bela e a mais dolorida. Perceber que se perdeu tudo que tinha significado é insuportável. O vômito que derramei na areia fervente, assim que lembrei, fétido e asqueroso, demonstra o tanto que isso tudo me impactou. Mas vamos continuar.

Aprendi a cozinhar por necessidade. Mariana era a pior cozinheira do mundo e não podíamos viver só de comida de restaurante. Além disso, ela chegava apenas na hora do almoço, ficava no laboratório a manhã inteira. Depois tinha o dia livre, nos divertíamos demais. Estava preparando um lindo salmão e acompanhamentos diversos e meus filhotes quebravam a cabeça para cumprir suas obrigações.

— Pai, tem um questionário da escola sobre nossa família. Você pode ajudar? — solicitou Dante com sua típica cordialidade.

— Pai, fiz um desenho da nossa família, olha — interferiu Julia, a mulatinha mais linda do Brasil. Ela nunca deixava a atenção ficar voltada para Dante. Competiam por amor e atenção, mas garanto que ambos saíam ganhando.

— Só um minuto, que a fome é grande, me deixa colocar no forno essas batatas.

Coloquei as batatas no forno e depois rodeei a mesa para ver o desenho de Julia. Não era diferente dos milhares de desenhos que as crianças fazem todos os dias, mas para mim era uma obra de arte, emocionava mais que um Monet. O desenho retratava nossa família em um jardim, todos de mãos dadas e cada um com um cachorro do lado.

— Tá lindo filha. Essa é a Piturruxa, pois ela sempre fica do meu lado. Essa pintada é a Doguitta, essa é a Molenga e essa do seu lado é a Tuti, pois ela já é quase uma tatuagem sua.

— Claro né!

Fui igualar a atenção dada a Julia indo até Dante. Li as perguntas do questionário.

— As que eu não sei são essas, pai. Data que seus pais se casaram? De onde vem o seu nome?

Os olhos azuis do menino brilhavam, sua face infantil ansiava por atenção e amor. Ele tinha um olhar de curioso, um jeito engraçado e cativante. Seus olhos eram parecidos com os da mãe, mais orientais, tinha um nariz delicado, um rosto de bochechas salientes e cabelos cacheados. Era um anjo miscigenado.

— Ok! Eu e sua mãe estamos casados desde 2303, um ano antes de você nascer. Nós achávamos que você seria menina, mas erramos feio. — sorri com gosto — Seu nome me veio em um sonho que tinha sempre. Nesse sonho eu tinha um grande amigo, daqueles fieis e companheiros, o nome dele era Dante. Ele tinha uma grande cicatriz no rosto e fazia mil aventuras. Quis ter um filho para ter um amigo como aquele do sonho.

— Eu menina, vocês são loucos? Sempre fui menino. — fez uma cara de irritado, mas continuou em seguida — Eu vou ter uma cicatriz como o cara do sonho?

— Todos um dia teremos cicatrizes, mas não necessariamente na pele. O homem do sonho tinha mais cicatrizes na alma que na pele. Nem todos têm a sorte de ter uma vida tão gloriosa como a nossa. Você vai ter cicatrizes e elas vão te ensinar muito, tenha elas de forma honrosa e poderá se orgulhar de cada ferida.

— Não quero cicatriz nenhuma.

— Não se preocupe com isso — disse sorrindo.

Corri para terminar o tempero do Salmão. Um dia perfeito e existiam vários desses naqueles tempos em que eu não sabia quem era. Maldito destino!

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