Capítulo 3

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Mike e Dalian viajaram o mundo inteiro e encontraram diversas coisas em sítios arqueológicos, ou pelo caminho. Tesouros, artefatos mágicos, pessoas com os mais variados dons e histórias para contar... tudo isso me prende muito, mas eu noto que apesar das histórias, ele sempre deixa coisas de fora, tudo é sempre superficial. O suficiente para prender a atenção e matar um pouco da curiosidade.

A viagem parece durar muito menos do que costuma durar quando Lola e eu vamos para a casa de praia do nosso tio. O mais interessante é a rota que fazemos, apesar de estarmos indo para a mesma cidade de sempre, usamos uma estrada diferente, que nunca sequer ouvi falar, mas é tão bonita que me faz lamentar não ter trazido minha câmera.

Gosto de fotografar tanto quanto Lola de desenhar. E quando olho para minha irmã, ela está segurando sua bolsa com força, os dedos traçando o invisível. Provavelmente pensando no caderno de desenhos que leva para todo o canto.

Sorrio com carinho para ela, quase sem perceber, completamente grata por ela ter vindo comigo. Nada disso teria muito sentido sem Lola. Mesmo que ela não acredite em nada e esteja ali só para garantir que eu não seja morta e largada em uma vala. Não que ela seja capaz de conseguir evitar três homens adultos de nos atacarem, caso seja isso que eles planejem fazer. Mas não imagino que seja esse o plano. De qualquer forma, a presença dela me completa.

Estico minha mão e seguro a dela, entrelaçando nossos dedos. Ela retribui o sorriso e aperta minha mão. Somos nós contra o mundo. Sempre foi assim, mesmo que em alguns momentos nos esquecemos disso e queremos nos matar. Lola é muito mais que minha irmã, é minha melhor amiga. Temos nossas diferenças e nosso atritos, mas cuidamos e nos importamos uma com a outra.

Depois de um tempo, o balanço do carro faz seu efeito e Lola adormece apoiando a cabeça em meu ombro. Ela nunca conseguiu se controlar em carros, sempre dormiu viagens inteiras enquanto eu permaneço ansiosa desejando chegar logo.

— Então meninas, conte-me um pouco sobre vocês. Ainda teremos tempo para chegar. — João diz e eu o faço, mas não sem deixar de notar que desviamos da estrada para uma trilha praticamente fechada no meio da mata atlântica.

Me mantenho falando porque trilhas de carro sempre me deixam nervosa, desde que eu era pequena e meu tio, metido a aventureiro nos levou para uma, que me deixou extremamente assustada, especialmente porque o Jipe se movia na pontinha de uma enorme cratera gigante, aparentando que ia cair a qualquer segundo.

Conto que Lola e eu estamos morando sozinhas há pouco tempo, sobre nosso trabalho e nossos planos para faculdade. Eu pretendo estudar letras e Lola, publicidade. Enquanto falo, noto que Dalian me lança alguns olhares pelo retrovisor e isso me deixa um tanto tímida e de certa forma, algo parece aquecer dentro de mim.

Não posso dizer que esqueci a conversa de Mike e Dalian em minha casa, sobre minha aparência e de Lola e o fato de que eu me sinto um tanto atraída por ele.

— Você não gosta da trilha? — Mike pergunta quando fecho meus olhos em um momento que o carro parece saltar uns cinquenta metros do chão.

— Ela me deixa um pouco tensa — eu respondo com os dentes trincados e praticamente apertando a mão de minha irmã, que continua dormindo. Não sei como ela consegue continuar apagada sem perceber nada, talvez seja porque os amigos dela dirijam em alta velocidade o tempo todo.

Olho pela a janela e noto que estamos em um barranco. Posso enxergar o mar lá embaixo brilhando sob o sol. Desvio o olhar quase imediatamente. A vista é linda, mas não o medo de cair.

— Se você quiser permanecer conosco, deve se acostumar. Essa trilha é uma das melhores que pegamos sempre. — Dalian diz e eu engulo em seco. — Ou isso seria um problema para você? — o convite para desistir está implícito e fico calada, olhando para meus joelhos.

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