Capítulo 5 - Inesperado

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Quando acordo na manhã seguinte, tento ao máximo não checar o celular. Mas é como se o aparelho tivesse magnetismo e minha mão fosse involuntariamente atraída para ele. Tenho raiva de mim mesma por estar tão obcecada em receber algum sinal de vida de Simas. Talvez seja minha ansiedade falando mais alto, mas não resisto ao impulso e acabo pegando o celular. E a decepção de não encontrar nada novo me faz sentir mais raiva ainda.

É sábado e o dia está ensolarado e quente, apesar de ser quase inverno. Infelizmente São Paulo não se importa com as estações do ano. Aliás, podemos enfrentar todas elas em apenas um dia, por isso sempre ando com uma blusa e um guarda chuva na bolsa, nunca se sabe o que vai acontecer com o clima ao longo do dia.

Ao descer as escadas ouço mais vozes do que o normal no andar de baixo, em uma conversa alegre e acalorada. Quando entro na cozinha me deparo com Murilo, sua esposa Amanda, Daniel e minha mãe, sentados todos à mesa tomando café da manhã. A cena até me lembra um comercial de margarina.

- Olá. – cumprimento todos com um aceno tímido e me sento ao lado de minha mãe.

- Oi querida. – diz mamãe dando um beijo na minha testa. – Está se sentindo bem?

- Sim. – respondo e pego um dos pães.

- Oi Sara. Como você está? – pergunta Murilo, num tom formal.

Depois que ele se mudou e se casou adquiriu um jeito tão adulto e estranho. Nem parece o cara que antes lambia o chocolate que estava comendo só pra eu não pedir um pedaço. Fora essas roupas que ele usa agora, camiseta polo e calça cáqui, ao invés das inseparáveis bermudas largas e as camisetas de banda meio rasgadas e descoloridas. É, acho que se apaixonar muda mesmo as pessoas.

- Estou bem sim. – respondo imitando um pouco seu tom e sorrio para ele e para Amanda, que me observa com um sorriso meigo.

Amanda é formal também, mas ela é assim desde que a conheci. Quando Murilo a trouxe pela primeira vez em casa para jantar ela me impressionou bastante com aquele cabelo castanho longo, o sorriso perfeito, a pele bronzeada e olhos amendoados.

Não sei como os dois acabaram juntos. Sei que se conheceram na faculdade, mas meu irmão era um roqueiro incurável e desleixado e Amanda tinha um rosto confiante que me lembrava comerciais de pasta de dente. Sempre perfeita, alinhada e simpática.

Ela é muito agradável, não me leve a mal, mas não combinava em nada com Murilo. Bem, agora Murilo tem vinte e cinco anos – dois a mais que Amanda – e juntos eles parecem dois ganhadores de uma loteria genética e em breve eu serei a tia de uma criança perfeita que certamente servirá para estrelar comerciais.

- Como está o bebê? – pergunto dirigindo-me a Amanda - ela está grávida de oito meses, sua barriga quase tem um endereço diferente do dela - mas antes que Amanda possa abrir a boca para responder Murilo fala.

- Está ótimo! Logo, logo ele chega. – diz ele com um sorriso afetado.

Se eu não soubesse que ele está transbordando de felicidade daria um tapa na cara dele para ver se aquela expressão - quase assustadora de tão sorridente - volta ao normal. Quer dizer, o homem está praticamente quicando na cadeira de tão entusiasmado!

- Que bom. – sorrio, mas meu sorriso vai se transformando em uma risadinha e quando olho para Daniel ele está rindo também. Como sempre ele está lendo meus pensamentos e também deve achar muito engraçada essa mudança em Murilo.

- E você já decidiu o que vai fazer quanto a faculdade? - pergunta Murilo.

Meu sorriso morre no rosto e o peso dessa decisão me atinge com força no estômago. Não, ainda não decidi e ele provavelmente sabe disso. Mas Murilo fica me pressionando sobre o assunto toda vez que me vê. Agora que ele tem uma vida perfeita, com um diploma, uma esposa e um filho a caminho ele deve achar que eu devo seguir pelo mesmo caminho. Como se houvesse um roteiro para as coisas que devemos fazer na vida e ele já estivesse na metade, enquanto eu permaneço com apenas alguns itens cumpridos.

- Estou mantendo minhas opções em aberto por enquanto. 

- Cuidado ou você vai ficar sem opção nenhuma. - retruca ele com o olhar faiscando. 

Trinco os dentes e me seguro para não dizer mais nada. O clima na mesa fica visivelmente mais tenso e todos comem em silêncio, olhando para seus pratos. Às vezes eu sinto falta do meu irmão despreocupado e divertido, mesmo quando ele era irritante e imaturo, ainda assim era melhor do que esse cara todo certinho e cheio de lições de moral para dar.

Depois do café subo como um jato para meu quarto. Murilo continua lá embaixo, na sala, conversando com minha mãe, então prefiro me isolar até ele ir embora. Ligo uma música alta e começo a tentar organizar o caos de roupas, livros e porcarias espalhadas pelo chão e por cada superfície do cômodo. Neko fica me observando, deitado na cama e me seguindo com o olhar. Às vezes esse gato parece me entender melhor do que qualquer ser humano.

Quando acabo a arrumação minha agitação já diminuiu e eu caio na cama fazendo as molas balançarem. Fico encarando o teto branco até minha visão periférica começar a escurecer e meus olhos perderem o foco. É quando ouço meu telefone vibrar anunciando uma nova mensagem. Meu coração quase sai pela boca quando a leio.  


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Nota da autora: Se tiver bastante leituras posto a segunda parte desse capítulo amanhã!


Problemática Mente (amostra)Onde as histórias ganham vida. Descobre agora