30- DEUS FALA ATRAVÉS DO TEMPO

Começar do início

Vi o inacreditável. As verdades, normalmente, são simples e surpreendentes. Estava diante de mim mesmo, como num espelho, mas as roupas e o vigor da face eram diferentes. Não parecia um clone. Sentia que o outro era eu, não sei como. Estava olhando para mim, mas não sabia o que aquele outro eu sabia.

— Você é outro clone? Você é Hugh? Quem é você? — falei com a voz fraca.

Não obtive respostas, apenas um olhar piedoso.

— Me explique. Tem como alterar nossos pecados? Precisamos de perdão. Redenção.

O ser misterioso me respondeu.

— Eu sou você. Existem muitos de você. Existem muitos de cada um de nós. Cada um são vários e um só ao mesmo tempo. No seu caso existem muitos de você nesse mundo e em outros. Mundos quase iguais, mundos diferentes, mundos inacreditáveis. Não existe fim nem começo. A origem de tudo é um fim e um começo. Não há pecado e sim aprendizado. Aprendizado eterno. O que for ruim aqui pode ser bom com outro de você, em outro mundo. Infinitas probabilidades, infinitas ações, infinitas reações. Você entenderá. Muitos de você estão vivendo para isso. Tudo é maior e mais espantoso do que você possa imaginar. Vocês, nós, nunca poderemos brincar de ser Deus. O que vocês fizeram não chega nem perto. Deus tem um plano tão audacioso que nunca saberemos, mas seus desígnios são corretos. Deus, ao contrário de você, tem escrúpulos. Todos em algum universo passam por isso: recebem poder e glórias extraordinárias. Trata-se de uma etapa. Não é um teste, pois não existe reprovação e nem aprovação, apenas aprendizado. Ninguém, nenhuma espécie sequer é melhor ou pior. Ninguém pode ver o todo, mas você já entendeu que está tudo ligado. Todas as espécies, toda a matéria estão unidas na origem e se dividem formando novas versões. Todos somos nada e tudo na origem, somos zero e um. Existe uma estrada guia que somos forjados a seguir, porém, existem atalhos e novos mundos se formam. Somos vários, mas me disseram que existe o reencontro, a reunião. Um dia seremos apenas um, mas isso é um grande mistério. O tempo é divergente de infinitas maneiras, ondula, se distorce. Nós não cruzamos apenas o tempo, cruzamos mundos, universos para te encontrar. Primeiro Everett e agora eu. Nosso universo entrou em um início de colapso, precisávamos que o seu universo melhorasse, sua civilização progredisse de nível mais rápido, tudo para dar condições de que, em um futuro ainda muito distante, seja possível nos mudarmos, ou de transferirmos as informações de nossas vidas para esse mundo. A consciência pode viajar longe, ela nos trouxe aqui, ela atravessa os pontos de singularidade. Os universos aceleram até tudo se tornar frio e escuro, caminham para o nada. Precisamos de outros para garantir mais sentido ao que vivemos, apenas a fé na reunião não nos basta. A sua tarefa foi realizada de forma grotesca, mas foi cumprida. Um dia esse universo servirá para nós. A sua participação acaba aqui. Em outros mundos você foi responsável por realizações melhores, com ações menos drásticas. Vocês conseguiram mundos melhores que este, mas para esses não temos acesso. Você verá, passará para nosso universo, sentirá o vislumbre do pouco que sabemos sobre a reunião. Na transição entre universos sua consciência poderá ver a imensidão de mundos que estão em você.

Me surgiu uma frase de Rumi que meu avô sempre falava: "Você não é uma gota no oceano. Você é um oceano inteiro numa gota."

Outro vulto surgiu ao lado do meu outro eu. Não pude acreditar quando sua imagem se revelou. Meu saudoso avô estava ali, sorrindo. Em algum mundo a sociedade havia lhe dado valor. O que teria acontecido nesse outro universo de que eles vieram? Imaginei uma grande sociedade científica onde eu, Hugh Everett e meu avô participávamos. Meu outro eu me estendeu a mão. Estendi a minha para selarmos nosso encontro. Assim que nos tocamos, imagens frenéticas me invadiram, seguidas de um trepidar da alma. Me vi jogando bola quando garoto, beijando Mariana, acariciando meus filhos, me olhando velho no espelho, sorrindo com Scarface de piadas bobas, correndo em uma esplendorosa praia, fazendo amor, andado de bicicleta, saltando de fiordes, chorando de dor, apanhando de ondas, abraçando amigos, lendo poemas, tocando violão, palestrando, plantando árvores, vendo meu filho aprender andar, beijando Julia antes de dormir, brincando de esconde-esconde na infância e um série infinita de ações de minha vida. Tudo mesclado com paisagens desconcertantes que presenciei como as montanhas nevadas dos Alpes, as florestas tropicais, as florestas boreais, as gigantes sequoias, vulcões em erupções, ilhas cheias de cores, desertos, cânions, cidades, estradas, vários tipos de planta e animais. Não via apenas as imagens, também sentia cada um daqueles momentos, como se estivesse vivenciando tudo de novo, mas de forma mais intensa. Surgiram momentos que nunca vivi, de outros eus. Momentos horríveis, esdrúxulos se confundiam com grandiloquentes e simples momentos de felicidade. Eram outros rumos de minha vida que geraram outras vidas. Vi as vidas de meus clones e de outros eus existentes em outros mundos, outros universos. Houve vidas em que minha mãe sobreviveu ao parto; outras que meus avós viveram por mais tempo; outras em que o casal Waldmann não me adotou, outras em que não conheci Mariana e nem Scarface; outras que não passei no teste da Real Life, houve até vidas em que morri saltando da cachoeira do Rio dos Desejos. Me emocionei muito ao saber que houveram vidas em que não perdi minha família em um acidente e nem mesmo a memória. Foram infinitos caminhos, infinitas vidas. Minha face se transfigurou com tanta emoção. Meu corpo desfaleceu. Encontrei a amedrontadora morte, mas que agora era deslumbrante. Segui vivenciando um turbilhão de vidas, todas minhas, mas nem todas conhecidas. Todo o aprendizado de trilhões de vida se acumularam em mim. Descobri que após o óbito vem mais vida, muito mais do que você possa imaginar. Tornei-me apenas consciência, vagando em partículas desconhecidas.

Lembrei de Douglas recitando o texto do evangelho apócrifo preferido dele: "Que aquele que procura não deixe de procurar até que encontre. Quando encontrar, ficará perturbado. Quando estiver perturbado, ficará maravilhado e entenderá tudo" - Evangelho apócrifo de São Tomé.

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