30- DEUS FALA ATRAVÉS DO TEMPO

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Chile, Deserto do Atacama, Vale de La Luna, ano de 2333   

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Chile, Deserto do Atacama, Vale de La Luna, ano de 2333   

E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.

Jesus – João 8:32

O Vale de La Luna é uma das regiões mais inóspitas do planeta, e de certa forma isso foi apropriado ao momento. Cheguei pelo alto do vale. Parei a moto próxima a Pedra do Coyote e apreciei a vista. Apesar da pouca vida, a beleza do lugar era um mundo de sensações. Nunca pisei na lua, mas creio que deve ser parecido. Não tem melhor descrição: era uma parte da lua esquecida em nosso planeta. Rochas vulcânicas, sal e areia, tudo misturado, formando tonalidades diferentes, esbranquiçadas e avermelhadas. Esculturas formadas pelo tempo despejadas na paisagem. Deus fala através do tempo, pensei. O sol estava se pondo. Cheguei a cogitar que não estava mais no planeta Terra, fiquei esperando o segundo sol surgir, nada mais me surpreenderia.

Não sabia onde, exatamente, no vale, eu deveria ir para encontrar Hugh Everett. Meus lábios estavam secos, ásperos como a areia que eu pisava. O cansaço me espancava por dentro, meu desejo era poder deitar e descansar. Resolvi juntar alguns pedaços de energia e descer o vale, bebi meu último e ínfimo gole de água e segui. Passei por espaços apertados entre paredões de rocha, claustrofóbicos, ainda mais para alguém debilitado como eu, mas cheguei à parte baixa da depressão. Por sorte o sol se punha e o calor começava a diminuir. Veio então o vento cortante e comecei a sentir frio. Caminhei como quem caminha no solo de outro planeta, na paisagem inclemente. Tudo era rocha, vento, espaço e tempo. Um lugar que não perdoa intrusos e te cerca com uma venustidade severa. Senti-me uma formiga, em um mundo desproporcional. A Lua surgiu e a segui no seu reflexo. Sentia-me perseguido por olhos de um passado distante. As penumbras da noite não me deixavam ver o fim do caminho. Estava sozinho, guiado pela forte luz da lua cheia, que reinava impávida, como se fosse dona de tudo. Cogitei a possibilidade de nunca mais existir o dia, com a Lua dominando eternamente o céu, com o Sol para sempre deposto. Sentia vontade de correr, precisava do fim. Meu corpo esgotado estava perto do limite. Tudo rodava. Continuei firme no propósito. Tive fé: aquele era o caminho. Ignorei as encruzilhadas do vale, segui por onde se podia ver a luz da lua. Senti como se estivesse sendo beijado por Mariana. Isso me deu um prazer imenso, meus lábios até se umedeceram. "Um dia eu volto amor", falei sozinho, "a vida é uma estrada que não se enxerga o fim e é para lá que eu vou". Estava perto. Não aguentei mais caminhar, cai de joelhos e sussurrei para a lua:

— Estou aqui. Eu vim te ouvir. Quero respostas, quero entender.

Fiquei um bom tempo ajoelhado e de cabeça baixa, tentando me recuperar. Sentia a desidratação me consumir, meus neurônios pareciam não fazer as conexões exatas. Quando levantei pude ver no horizonte escuro um vulto se aproximando. Não tinha forças para nada, apenas fiquei observando. O vulto tinha um caminhar familiar. Vestia uma roupa reluzente. Sorri, pois só podia ser Hugh Everett. O vulto vinha cada vez mais perto, mas as sombras do vale encobriam a identidade dele. Sem energia para continuar a observá-lo, baixei a cabeça e aguardei o mistério se revelar. Calçados negros entraram no meu campo de visão me obrigando a erguer a cabeça.

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