29- DECISÕES ARTICULADAS

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Brasil, Rio de Janeiro, Sede da REAL LIFE, ano de 2150

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Brasil, Rio de Janeiro, Sede da REAL LIFE, ano de 2150

Um homem que se curva não endireita os outros.

Aristóteles


A reunião era séria. Havia muitas pessoas no auditório e o meu coração estava apreensivo como há muito eu não sentia. Estava velho e cansado. Nossos planos haviam falhado de muitas maneiras e em 2150 tínhamos uma instituição mais ampla. O grupo da REAL LIFE sabia de nossos segredos e adquiriram poderes nas decisões. Na assembleia havia muitos políticos que se diziam do nosso lado, não sabiam de todo o poder que tínhamos, mas nos respeitavam e conheciam nossas ações, nossa ideologia. Seres desprezíveis em minha opinião dirigiam toda aquela discussão. Não sei exatamente como, mas Jefferson Parker estava lá. O mesmo que me fez os testes na universidade, o mesmo que me levou para a Amazônia. Continuava a gerenciar a Real Life e a usar ternos coloridos. Provavelmente também se clonava. De alguma forma a REAL LIFE tinha tecnologia avançada como a nossa. Todos na sala tinham algo a dizer e, quando o faziam, utilizavam ótimos argumentos. Era difícil tomar um lado.

Para me acalmar olhava para Mariana, ela estava sentada no fundo da sala, apenas observava. Também estava velha, mas com a mesma postura. Scarface se encontrava sentado ao lado dela. Ambos me olhavam com orgulho.

Muitos me surpreenderam em seus discursos, pois eram cheios de verdades e de ideias que aparentavam estar corretas. Pessoas marcadas por ações duvidosas no passado estavam ali sugerindo bons caminhos para uma saída do problema. Onde estavam os vilões? As dúvidas eram genuínas e os caminhos planejados de muitas maneiras levavam a várias e boas estratégias. Qual seria a melhor ideia? Essa era a questão.

Comecei a sentir vergonha de ter pensado mal daquelas pessoas. Lembrei que ali, antes, foram inimigos declarados, mas naquele dia concordavam entre si e se elogiavam. Eu havia perdido algum capítulo daquela história? Questões religiosas e políticas pareciam não fazer mais diferença, todos pareciam querer acertar e descobrir o melhor caminho.

Parti, então, para uma análise crítica, utilizando de toda minha malícia adquirida em anos de política e articulações. Pelos discursos feitos e as contradições com o passado de cada orador, era possível achar vários motivos para toda aquela "maravilha". Um ou vários interesses obscuros podiam estar por trás de todas aquelas palavras. Será que havia, realmente, alguém com boas intenções não levando vantagem alguma com suas proposições? A resposta com certeza era única: Não, não havia ninguém. Concluí: As pessoas sempre pensam em vantagens próprias, mesmo vantagens emocionais, que para alguns parecem não ter valor. Ou seja, no final das contas, é o tipo de vantagem que temos de analisar para classificar o caráter de cada um.

Todos falavam tão bem e pareciam estar tão certos. Existem várias verdades neste assunto? Qualquer estratégia que fosse seguida levaria a uma boa saída? Era isso que parecia. Iniciei o desenho de um diagrama no papel sobre a mesa. Coloquei as propostas e enumerei as pessoas que seriam gratificadas futuramente. Além disso, inseri as prováveis vantagens que o elaborador da proposta teria. O intuito era achar a saída que agradaria o maior número de pessoas e que levaria as vantagens mais honradas ao propositor. Essa deveria, então, ser a proposta a seguir. Observei uma proposição que ajudaria a muitos e que só daria vantagens emocionais ao seu propositor como, por exemplo, ser elogiado no futuro ou receber gratidão. Mas seria possível? Eu tinha uma ótima visão das coisas, mas poderia não estar enxergando algo.

Como é difícil confiar nas pessoas. Todas as propostas eram tão boas que a melhor seria aquela que partisse do homem mais justo e correto. Seria isso?

Quase todos na sala tinham um passado duvidoso, marcado por ações sem lógica ideológica. A ideologia existia, mas sempre podia ser encoberta por futuras vantagens ou um plano de linhas tortas, onde os fins justificavam os meios. Os fins justificam os meios? Depende da situação?

Chegou minha vez de discursar. Expor minhas propostas. Indicar o caminho a ser seguido. O meu velho coração estava acelerado e todos, em silêncio, aguardavam a decisão. Eu levava vantagens ideológicas, econômicas e emocionais sobre cada proposta. Se escolhesse a mais vantajosa me julgariam por oportunista. Eu queria tomar a melhor decisão possível, privilegiando a maioria. A maioria sempre tem razão? Na verdade eu sabia que gostava daquele poder e do respeito promovidos pelo meu cargo, mas sabia que nem sempre escolhia os melhores caminhos. A pergunta que martelava na minha cabeça era: Sou competente para fazer isso?

Eu possuía muita experiência, mas não sabia de tudo e nem conhecia tão bem todos os problemas que foram apresentados. Na verdade nenhum outro sabia.

Vários minutos se passaram e eu não conseguia iniciar o discurso. Uma ideia, de repente me ocorreu. Deveria anunciar que não poderia tomar a decisão, pois não estava apto. Colocaria alguém no meu lugar que pudesse fazer a escolha da melhor maneira possível. Conclui que quando todas as propostas parecem corretas isso indica que você sabe pouco a respeito do assunto. Não existem várias verdades. Só existe uma. Eu não sabia como fazer a escolha. Mas não resisti ao poder, escolhi uma fatídica saída.

— Sim, nossa instituição vai bancar a criação da vacina, a distribuição e principalmente a aplicação. Nesse caso, vamos trabalhar sozinhos, apenas com nossos dados. Não vamos precisar de novas propostas de como fazer. Temos a nossa e ponto final. Muito obrigado.

Me retirei da sala. Scarface e Mariana me acompanharam. O fim da doença dos ventos e de bilhões de pessoas começou a ser traçado naquele dia. Fui eu que tomei a decisão. A ideia tinha sido construída naquele dia. Faríamos uma vacina especial, eliminaríamos as pessoas "ruins".

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