25- UM DESERTO DE ESPERANÇAS

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Chile, Deserto do Atacama, Capela Cancosa, ano de 2333 

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Chile, Deserto do Atacama, Capela Cancosa, ano de 2333 

Os espinhos que me feriram foram produzidos pelos arbustos que plantei.

Byron

Lembro-me que acordei com a brusca parada do metrô. Sai do vagão e avistei uma escada estreita que levava até o teto da estação. No teto havia uma portinhola. Tive que fazer muita força para abrir, demorou bastante, faltava tecnologia nesse setor de maçanetas. Empurrei a portinhola para cima e senti no rosto um vento forte com areia. Brotei da terra despontando em meio a um deserto com um horizonte vasto e vazio. Pude ver, a poucos metros, uma discreta construção. Era pequena, de uma coloração branca que se misturava à cor do deserto. Tinha telhado de folhas, acho que de piaçava e uma porta de madeira azul turquesa. Parecia uma capela, mas não havia a cruz no teto. Contornei a edificação procurando uma entrada, mas não existiam janelas e nem outra porta. A porta azul, a única entrada, estava trancada com um cadeado. A madeira dela estava envelhecida e achei que um chute poria a porta a baixo. Acabei tendo que chutar umas trinta vezes, mas consegui abrir passagem.

A pequena capela estava quase vazia. Não havia bancos e nem altares. Apenas um amontoado de lonas encobriam algo em um dos cantos do salão. Retirei as lonas e desvendei uma moto. Ela lembrava a antiga Yamaha VMAX, mas possuía fortes amortecedores, pneus de trilha e adaptações para andar no deserto. O símbolo das indústrias Waldmann se encontrava discreto em um canto do tanque. Uma mochila amarela e um capacete estavam amarrados no banco. Próximo ao pneu traseiro havia um galão de água. A mochila possuía um compartimento térmico para água, um sofisticado aparelho de GPS e barras de alimentação utilizadas por astronautas. Enchi o compartimento da mochila com a água do galão e empurrei a moto até a estrada quase imperceptível em frente à capela.

Fiquei sentado na moto observando o horizonte trágico. Os feitos horrendos que meus clones fizeram no passado me atormentavam. Como eu podia ter mudado tanto a ponto de aceitar matar bilhões de pessoas? O ser humano tem comportamentos estranhos. Sempre me achei um homem de caráter forte, que seguia conceitos éticos bem delineados. Porém, seres geneticamente iguaizinhos a mim causaram um holocausto. Mataram pessoas seguindo o conceito de que a genética e outros fatores associados fazem com que algumas pessoas possuam fortes tendências para o mal. Pela mesma lógica, Scarface, eu e até mesmo Mariana merecíamos estar na mesma lista negra, pois aceitamos fazer algo imperdoável, injustificável. Ainda não consigo acreditar que esse genocídio era necessário, nós tínhamos a faca e o queijo nas mãos. Tantas formas de vencer e escolhemos a mais horrenda. Sentia repulsa de mim, mesmo não lembrando de ter feito parte do horror. Não sabia dizer se era culpado ou inocente. Queria o perdão, não necessariamente para mim, mas para os meus outros eus, para Scar, para Mariana. Quem poderia me dar esse perdão? O universo teria que nos perdoar. Respirei o ar seco do deserto e senti meu corpo envelhecer, minha alma pender. O perdão que eu desejava era de Deus. Mas qual Deus? Cada pessoa parece formar para si um Deus. Mesmo com os fundamentos e ensinamentos religiosos, percebo que no final existem deuses individuais, criados a partir dos pensamentos e vivências de cada indivíduo. Eu também tinha o meu Deus, mas não era esse que eu desejava. Precisava do Deus verdadeiro, aquele que ninguém conhece. O Deus que ordena o universo, que de alguma forma está ali bem na nossa frente em cada partícula de cada objeto, de cada planta, de cada animal... O Deus da verdade. No fundo eu sei que só existe uma verdade e é exatamente isso que devíamos chamar de Deus.

Se houvesse uma maneira de mudar o passado correria o risco de exterminar a existência de meus filhos, perderia minha família, ou talvez tudo que vivemos, seguiria em outro caminho. Qual seria o maior pecado, ser responsável por um genocídio ou eliminar a própria família? Mariana, Dante e Julia, nunca poderia fazer a escolha que deixasse eles naquele acidente, teria que mudar. Sim, mudar tudo por eles, pela minha família. Um egoísmo que me veio. No final das contas, ainda existia a probabilidade, de que tudo que fizemos não tivesse como ser alterado.

Tinha que vencer o deserto e chegar ao Vale de La Luna, o dia do encontro se aproximava, faltava pouco mais de 48 horas. Era preciso cruzar um mundo de aridez para tentar descobrir algum sentido para minha vida. Os olhos de Julia surgiram vagando nas minhas entranhas: eram meigos e justos. Queria vê-los de perto novamente. Flashes me surgiram bruscos, relembrei das corridas que meu pequeno Dante fazia no jardim, brincando com os cachorros, gritando alegre, chamando por Julia. Esses clones imbecis e nosso plano ridículo tiraram toda e qualquer migalha de felicidade de minha vida. O bom da vida é saber que é feliz e esquecer o mal que nos habita, ter um amor que não se abala com a dor e poder se sentir nos outros, formar conexões vigorosas. Eu tive isso, mas me tiraram, acho que o maldito destino me tirou. Eu custei a enxergar, mas era tão simples. Com tanto para entender, tanto para viver, tanto para encontrar, me perdi. Descobri que o segredo era amar, saber amar. É ridículo de simples, mas era exatamente isso. Os Beatles já diziam "All you need is love" e estavam certos. Procure e cultive o amor e estará mudando o mundo. Eu fui querer fazer o trabalho de Deus e resultou o absurdo.

Esse novo mundo que ajudei a criar veio do caos. O caos gera a urgência de mudança, a cumplicidade e objetivos similares na humanidade. O caos parece estar no sangue dos homens. Não sei se o mundo ficaria melhor sem as grandes tragédias. A Alemanha ressurgiu renovada e melhor após a II Guerra, o Japão e tantas outras nações idem. Talvez, eu só tenha antecipado catástrofes. De toda forma, isso não era o dever de ninguém. O correto é focar no amor e esquecer o resto. Jesus, Buda, Mandela e tantos grandes homens mostraram isso e minha petulância me fez aceitar um desafio desumano. Naquele momento me senti como um besouro de costas para o chão, balançando minhas patas para o alto, impossibilitado de mudar a situação, frágil e dotado de uma ignorância animalesca. Precisava de um milagre.

Meus olhos arderam com uma lufada de ar quente e areia. Parei de divagar, de remoer meus pecados. Retirei o GPS da bolsa e o liguei. O aparelho abriu um holograma, um mapa tridimensional. Digitei San Pedro de Atacama, a cidade que um dia existiu perto do Vale de La Luna. Um caminho surgiu no mapa holográfico. Encaixei o GPS na viseira da moto, havia um lugar para isso. Procurei ligar aquela máquina de duas rodas. Vi um discreto visor no formato de um polegar. Arrisquei e inseri meu dedo no local. O motor roncou como novo. Coloquei o capacete e segui meu inclemente destino.

Enquanto a moto cortava o deserto recordei de uma crônica do filósofo brasileiro Mario Sergio Cortella em que ele fala sobre o escrúpulo, e me vieram novas reflexões. A origem da palavra é latina, vem de Scrupulum que significa pedregulho. O significado tem haver com obstáculos no caminho da nossa consciência. Metaforicamente é como ter abalos sísmicos em nosso ser. Esses são os momentos de decisão importantes em que grandes montanhas de virtudes se quebram e se despedaçam pelo chão, tentando impedir que tomemos os caminhos errados. Grande parte da humanidade, entretanto, prefere retirar esses pedregulhos, joga fora seus preceitos, deixa as virtudes de lado e segue no caminho errado. Meus clones e sua equipe removeram montanhas de virtudes, perderam-nas da paisagem de suas mentes e eu, por consequência também.

Cheguei a um salar gigantesco onde o sal dominava a terra com lagoas salgadas de um verde marcante e ao fundo montanhas pareciam se deitar para a morte. Conforme o sol se movimentava, as cores da paisagem se modificavam. O lugar parecia se transmutar entre o paraíso e o inferno. Estava muito cansado. O sol começava a se pôr e a sombra da moto no chão me pareceu uma cama. Vomitei e em seguida me sentei apoiado na moto. Naquela direção tudo o que eu via eram montanhas, estrada, planícies de areia e vulcões no fim da linha do horizonte.

Foi nesse momento que comecei a relatar minha história, soltá-la em pensamentos pelo ar, enviando para que mentes abertas captassem. Sentado ali sendo martirizado pelo deserto comecei meu relato para vocês, lembrei-me do poema que sintetiza meu querer ser Deus e agora sigo, faltando muito pouco para chegar ao Vale de la Luna, muito próximo de uma resolução. 

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