23- MARIANA NA FLORESTA

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Brasil, Amazônia, Parque Montanhas do Tumucumaque, ano de 2010   

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Brasil, Amazônia, Parque Montanhas do Tumucumaque, ano de 2010   

    Eu vos direi "Amei para entendê-las

Pois só quem ama pode ter ouvidos Capaz de ouvir e entender as estrelas."

Olavo Bilac – Via Láctea

Voltei a minha época de pesquisador na Amazônia. Eu estava entre vários troncos de árvores, no estrato superior da floresta, a mais de trinta metros de altura, precisava coletar algumas folhas e frutos de uma espécie diferente, não identificada. Pedro estava fazendo minha segurança, segurando a corda do equipamento de alpinismo. O ramo que me interessava, com frutos, estava na ponta do galho ligeiramente apodrecido em que eu estava sentado. Lentamente fui me arrastando no galho, tentando não quebrá-lo. Quanto mais me aproximava da ponta mais estalos de madeira se rompendo eu ouvia. Pedro estava atento. Se o galho rompesse ele teria que segurar a corda, não deixa-la deslizar livremente e me fazer alcançar o chão. Cheguei a uma distância do ramo que me pareceu segura, tirei a tesoura de poda do meu bolso e me inclinei para coletar. Consegui, só faltava voltar ao tronco principal, onde era mais seguro de me apoiar para descer. Resolvi descansar e esperar que Pedro marcasse a árvore.

— Pedro pode relaxar, tô seguro. Insira a plaqueta na árvore — gritei.

Pedro soltou a corda e foi até às mochilas próximas à árvore, bebeu água e pegou uma plaquetinha de alumínio. Enquanto isso, eu respirava e observava a estrutura tão diversa da floresta. Pedro, então, pregou a plaqueta na árvore com o martelo, que guardou no cinto, ao lado do facão.

— É a árvore 333.

— Ok. Segura a corda que vou voltar pro galho mais grosso e descer. Pega a folha e os frutos — falei jogando minha coleta.

Enquanto me arrastava pelo galho vi Scarface aproximando-se com uma garota. O jeito de andar, os cabelos, achei parecida com Mariana. Continuei me arrastando. Quando Scarface se encontrou com Pedro lá em baixo apresentou-o a garota.

— Pedro está é Mariana, ela é especialista em bioquímica e colaborará com um setor de nossa pesquisa.

Mariana estava ali, literalmente debaixo dos meus olhos. Como aquilo era possível? Quem havia contactado ela? Ela sabia onde eu trabalhava, mas nunca imaginei que quisesse trabalhar nesse lugar, pois sempre teve muitas oportunidades em sua terra natal. Dentro das informações que tinha sobre o futuro, nada se referia a minha vida pessoal, por isso não fazia a mínima ideia de que iria encontrar Mariana daquela forma. Enquanto Pedro cumprimentava Mariana senti o galho pender e quebrar. Despenquei, batendo em galhos rumo ao solo. Pedro demorou a se aprumar e segurar firme a corda. Minha queda cessou a menos de meio metro do chão. Meu mundo virou de ponta cabeça. Fiquei ali sorrindo, diante de minha grande paixão.

— Vejo que o trabalho é árduo por aqui — falou Mariana.

— Você não imagina o quanto.

Pedi que Pedro soltasse o freio e voltei a colocar os pés no chão.

— Está tudo bem? — disse Pedro.

— Graças a você agora está.

Scarface bateu em minhas costas e sorrindo desembuchou.

— Desculpe não te avisar, mas queríamos fazer uma surpresa. Mariana me contactou e vendo todo seu potencial chamamos ela para nossa pesquisa. Achei que você iria gostar.

— Meu mundo desabou, fiquei sem chão — disse me aproximando de Mariana para cumprimentá-la. Com agilidade consegui um breve selinho.

Mariana enrubesceu e despediu-se dizendo que nos encontraríamos depois. Eu estava sedento de amor. Aquilo era um milagre. Fazia tempo que não via tanta beleza feminina ao vivo, estava há muito tempo isolado naquela floresta.

Quando terminei as coletas fui até o laboratório em que ela estava. Entrei cauteloso e vi a moça compenetrada observando lâminas em um microscópio. Ela me viu entrar, sorriu e continuou seu trabalho. Aproximei-me perto da bancada e perguntei:

— Não acredito até agora. Isso é um sonho? Você vai concluir todo seu doutorado aqui? É esse o plano?

— Exatamente, achei toda a proposta muito boa — falou me olhando discretamente, desviando a atenção do microscópio.

— Em resumo, pelo que entendi você vai verificar dentre todas as espécies que eu registrar quais são importantes quimicamente para produção de remédios?

— Digamos que isso é a ideia inicial, porém, se caso descobrirmos alguma espécie de grande relevância, poderei migrar para estudar apenas ela — falou se virando na cadeira, ficando de frente para mim. Demonstrava certo nervosismo, um leve tremer de lábios.

— Acho que o destino nos quer juntos.

— O destino é um acontecimento no futuro, podemos então pensar que no momento presente ele não existe, certo? — disse ela mordendo o lábio.

— Não, pois para muitos ele já está lá pronto para acontecer, não importa o que você faça.

— Triste pensar assim!

— Depende do seu destino, caso for maravilhoso é ótimo, pois existe a certeza que tudo dará certo, não importa o que aconteça — falei me inclinando na direção dela.

— Acho que a maioria prefere pensar que é dona do próprio destino — disse ela se afastando discretamente.

— Concordo, pois todos preferem acreditar no mais cômodo.

— Mas traçar o próprio destino não é mais cômodo, acho que seria mais trabalhoso.

— Impossível saber, pois nunca saberemos se o destino sempre esteve lá ou se criamos ele.

— É uma pergunta sem resposta. Tolice perder tempo com isso, pois mesmo sabendo a resposta nada mudaria para nós, sempre teríamos um destino, seja ele já traçado ou a ser traçado.

— Cuidado! O destino pode estar mais perto do que você imagina.

— Você acha? — disse ela concedendo a abertura que eu precisava.

Meu rosto já estava próximo do dela, foi fácil avançar sobre sua boca macia e sobre seu corpo quente. Nosso primeiro e longo beijo.Mariana não conseguiu trabalhar muito naquele dia, ficamos bastante tempo agarrados, em um bom amasso, como adolescentes. 

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