Capítulo 2

263 5 0
                                                  

Ela se virou para mim quando parou o carro, no próximo sinal vermelho:

— Muito prazer, eu sou a Cristina.

Achei graça no jeito que falou, um tom bem humorado, solto, leve... Respondi sorrindo:

— Maria.

O sinal abriu, ela seguiu...

Quando virou a esquina, eu pedi:

— Dá uma paradinha ali?

Ela me olhou sem disfarçar a surpresa, mas me atendeu. Expliquei:

— Tenho que pegar uma parada na casa do meu amigo.

Na mesma hora, ela perguntou:

— Que parada é essa? Não é droga?

Entendi a preocupação dela. Tranquilizei-a:

— Não. Nada disso. É uma boneca que vamos usar na performance de hoje à noite. Vai ter um luau na Praia do Forte, você podia vir...

Antes que ela me desse a resposta, abri a porta e desci. Voltei alguns minutos depois carregando Monique, uma boneca de pano muito maior do que eu. Ela sorriu... Divertida...

Perguntou já saindo do carro e vindo até mim:

— Quer ajuda?

Abriu a porta de trás e avaliou as várias camadas de saias de tule que a boneca vestia:

— Será que cabe?

Respondi já sentando Monique no banco:

— Claro que sim!

Assim que voltamos a entrar no carro, percebi a música que estava tocando: "Flores Astrais" (Secos e Molhados). Parei para escutar... Cantei junto...

Ela voltou a sorrir...

Quase esqueci para onde estava indo. Na verdade, quando vi, já tinha passado um pouquinho. Falei:

— Me deixa aqui.

Ela parou. Agradeci:

— Valeu mesmo, viu?

Beijei-a no rosto, desci, peguei Monique e, antes de me virar e me afastar, voltei a convidar:

— Não esquece: hoje depois das dez na Praia do Forte. Eu vou cantar, aparece lá!

Fiquei sorrindo...

— Maria... Também...

Porém, nela era perfeito.

— Maria... — Nunca havia gostado tanto de falar: — Maria...

Observei-a sumir da minha vista. Absorta na imagem, na voz calma, no jeito leve, gestos suaves e na paz que ela deixou no ar... Buzinas me invadiram o pensamento e me arrancaram daquele momentâneo lapso em meu raciocínio. Dei sinal e saí em direção ao retorno, pois havia me afastado do meu destino alguns metros... Mas meu sorriso, ainda tatuado no rosto, não permitia arrependimentos:

— Maluca...

Secos e molhados ajudaram no meu momento psicodélico. Dirigi em direção a minha rotina cantando alto com Ney Matogrosso.

O dia no escritório passou sem grandes acontecimentos e sabia que Dona Hermínia havia providenciado tudo para o retorno de Diana e Inês. Relatórios, reuniões, correspondências e fofocas. Contava tudo a elas, inclusive sobre minhas saídas e entradas com datas e horários.

— Boa noite, Dona Hermínia, e ótimo final de semana...

Falei já na porta de saída... Porém a ouvi responder:

LUAS DE MARIASOnde as histórias ganham vida. Descobre agora