14 - A Escolha

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Sabrina tentou acostumar os olhos ao novo ambiente que surgiu em meio à escuridão. Tudo ao redor tinha a cor das nuvens ao pôr-do-sol, mas a menina não via horizontes, estava exatamente de um nada rosado e dourado. Ao dar curtos passos, avistou o ser de seus sonhos se aproximar. O ambiente se enchia com um sentimento que a menina não saberia descrever, como se pudesse ser assustador e confortante ao mesmo tempo.

— Eu... caí no lago? — perguntou Sabrina quando o indivíduo chegou bem próximo dela.

— E aquele momento lhe despertou para esta realidade — disse ele. — Não somente você, mas Erevu e Scott também passaram por situações semelhantes para chegarem aqui.

— Erevu? Scott? — Sabrina perguntou espantada. — Scott! Onde ele está?

— Não saberia responder, pequena menina — respondeu com um peso na voz. — Confesso que isso me machuca muito.

— Scott! — exclamou Sabrina com expressão de choro. — E Erevu?

— Ele está bem — continuou o ser, que já não assustava mais Sabrina com os olhos brancos. — Finalmente encontrou a paz que desejava. Ele só precisou esperar você para que pudesse seguir o próprio caminho.

— Me esperar? — perguntou a menina surpresa.

— Sabrina — começou ao sentar-se em um banco invisível, pois nenhuma vista parecia ter limites, todo o lugar era um espaço infinito, sem paredes, chão, teto ou qualquer outro ponto de referência —, você é realmente uma menina especial...

"Ninguém se lembra de nada depois que acorda aqui. Mas você se forçou a se lembrar de quase tudo, mesmo que fragmentos de lembranças se esvaíssem da nova mente que tem agora. E o mais espantoso: ainda fez os amigos começarem a lembrar. Um feito extraordinário, devemos admitir. É um feito único, pois poucos entendem as dimensões que aqui existem..."

— Eu não entendo nada sobre o aqui e o agora...

— Mas é por isso que lembrar de antes é algo grandioso. Então decidi o seguinte: iria deixá-la com Erevu e Scott, desejava saber até onde as lembranças chegariam. Ainda tinha esperança de que começasse se esquecer e se perder por aquele mundo... Quantas vezes se perguntou o que estavam fazendo? Mas ainda assim. Você foi até o fim, com um objetivo. E conseguiu isso por questionar a realidade que a cercava.

"Pelo que sabemos, nunca em toda a História uma energia como esta tinha resistido. Era inevitável querer ter o conhecimento do que fariam se recordassem que não voltariam jamais, que o nível da realidade já era outro. E mesmo com tantos desafios para tentar encontrar não somente o caminho de volta que não existe, mas encontrar a si mesma, para terminar o que tinha começado fazer.

"Você é especial. Enfrentou o medo e o perigo, mostrou que era mesma capaz de decidir o próprio destino da energia carregada consigo."

— Não entendo — Sabrina sentou ao lado do homem. — Se não estou mais na realidade que estava, por que não estou em um lugar de paz ou um de tormento? O que aconteceu comigo?

— Está vendo? Você carrega o poder do questionamento em qualquer realidade, em qualquer dimensão... Em qualquer Universo. E é exatamente por isso que consegue escolher o próprio caminho — disse, ainda sem respondê-la.

— Eu só queria ver meu melhor amigo — Sabrina chorou. — Por que tudo isso tinha que acontecer comigo?

— Não se preocupe — tentou confortar o ser.

— Não me preocupar? — perguntou Sabrina, nervosa. — Eu escolho seguir em frente. Mas onde estará meu melhor amigo? Será que um dia poderei vê-lo?

— Este tipo de consciência nunca morre, estará sempre espalhada pelo todo... A existir ou não, a vagar pela imensidão, eternamente — comentou o indivíduo ao se levantar e estender a mão para a menina, que sorriu e segurou firme. Sabrina se surpreendeu porque de alguma forma a mão daquele ser tinha todas as cores e ao mesmo tempo não tinha cor alguma, mas era quente como um ninho de passarinhos. — Pode vê-lo quando quiser.

— Onde ele está? — perguntou Sabrina, esperançosa.

— Onde mais estaria? — o indivíduo apontou o braço direito para o alto e todo o cenário se modificou. Deixaram para trás o infinito rosado e avermelhado para serem cobertos por um céu dourado e limpo. O vento tinha a temperatura certa para acariciar o rosto de Sabrina, o brilho da luz do dia lhe causava bem-estar aos olhos. E por instantes ela acreditou que voava.

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