13 - Lembranças Perdidas

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Quando Erevu quase já não tinha mais forças para se segurar na árvore, o indivíduo dos sonhos de Sabrina (que também não se distinguia se era masculino ou feminino), surgiu em meio à escuridão. Não usava a armadura que a menina tinha visto no sonho. Não usava roupas. Flutuou para perto dos dois e os abraçou.

Naquele momento, dois pontos brilhantes e claros iluminaram todo o lugar e Sabrina ficou cega por conta de toda aquela claridade. Sentiu-se segura, enfim.

***

Sabrina acordou assustada. A cama estava completamente desarrumada, como se tivesse se mexido muito durante a noite. Também suara bastante.

— Um sonho! — exclamou a menina em tom aliviado, respirou fundo.

O despertador no criado-mudo, ao lado da cama, marcava oito e meia da manhã. Era um quarto comum para uma menina de dez anos. As bonecas estavam expostas em uma prateleira, pois já quase não eram usadas mais. Os bichos de pelúcia estavam espalhados sobre o carpete, pois ficavam na cama apenas quando a menina saía do recinto. No entanto, apesar das cores alegres dos objetos e roupas que ali estavam, um tom solene e frio dominava o ambiente.

Porém, Sabrina não tinha tempo para pensar naquilo. Estava na hora de encontrar o melhor amigo, Felipe. Então pulou da cama e apanhou o celular. Escreveu uma mensagem para o amigo rapidamente, com a habilidade no teclado virtual minúsculo do aparelho: Vamos nos encontrar lá! Não esquece! Sabrina.

— Mãe? — chamou assim que chegou à cozinha da casa.

Não obteve resposta e deu de ombros. Voltou ao quarto e vestiu uma roupa bonita. Não demorou muito para sair de casa e ir ao Jardim Botânico, a dois quarteirões de casa. Tudo parecia um pouco diferente do habitual para a garota. Não havia ninguém na rua nem nas janelas. Não havia barulho nem carros. Não havia nada. Tudo parecia um deserto urbano. Mas ela precisava encontrar o melhor amigo, por isso continuou o caminho.

Ao chegar no jardim, Sabrina foi surpreendida pelo ser de olhos brancos, que apareceu à frente dela repentinamente. Novamente, não vestia nenhuma roupa, mas aquele fato incrivelmente não chamava a atenção da garota.

— Ainda estou sonhando — disse fechando os olhos.

— Sabrina — tentou o homem. — Não está em um sonho. Está a recordar. E não é uma fantasia.

— Recordar? — indagou a menina abrindo os olhos. — Eu não consigo me lembrar do nome da minha mãe!

— Mas lembra o nome do seu amigo.

— Do meu amigo eu... — Sabrina parou de falar por alguns segundos surpresa — lembro...

Atrás do ser dos olhos brancos, ao longe, ela avistou um menino bonito, sentado em um banco próximo à estufa do Jardim Botânico. Era Felipe. Quietinho, esperava por ela.

Sabrina passou pelo ser e andou em direção ao amigo. Ainda estava longe e havia um pequeno lago antes que pudesse alcançar Felipe. Uma ponte de madeira sobre a água dava passagem à menina, que passo atrás de passo chegou ao centro do elo entre as duas bordas.

Ali viu, à beira do lago, Scott. Parecia perdido entre as árvores e, depois de algum tempo, ele sentou em uma pedra às margens e chorou. Do outro lado, Erevu subia em uma árvore para alcançar alguns frutos. Sobre algumas das árvores, o ser sem boca abria duas asas negras gigantescas e pairava sobre Scott. Era uma criatura muito magra e asquerosa, mas não causou medo na garota.

Então ela se virou para trás, para o ser de olhos brancos, e não pôde ver mais nada.

Uma onda a derrubou e só conseguia enxergar bolhas enormes de ar que subiam para uma superfície esverdeada, iluminada por um céu muito nublado. Dentre as bolhas e a visão esverdeada, Sabrina viu as próprias mãos chacoalharem na frente do rosto e então outros braços tentarem alcançá-la.

O som da água ao redor era ensurdecedor, mas poucos segundos foram necessários para que o silêncio tomasse a existência da garota por completo. As bolhas de ar subiram rapidamente e a visão da menina foi dominada pela escuridão.

Já não estava mais no lago.

Não estava em lugar nenhum.

Ou talvez passou a estar em todos os lugares ao mesmo tempo.

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