11 - Bilheteria

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— É preciso que continuem o caminho — disse a voz melodiosa da jovem que estivera à beira do precipício. Ela estava então sentada sobre um galho de uma árvore baixa, sem vida ou folhas, a certa distância dos três amigos.

— Mas não sabemos como abrir o portão — disse Sabrina.

— Espere um trem — disse, dessa vez, uma voz grossa, muito rouca. Os três companheiros se viraram para a árvore onde a garota estava. No lugar dela, havia um indivíduo que não se podia identificar se ele era homem ou mulher, humano ou não. Não vestia roupas e a pele tinha um tom pálido, como se há muito estivesse doente.

— Não sei se é uma boa ideia — disse Sabrina aos amigos.

Antes que pudesse dizer outra frase, a menina e os outros sentiram uma brisa muito forte. De frente para o portão, puderam sentir quando o indivíduo se aproximou dos três. Apesar de não vestir nenhuma roupa, não havia como distinguir nenhum sinal de genitais e, depois de tantas lembranças perdidas, os amigos já não sabiam mais diferenciar o que era alguém vestido ou alguém nu.

— É ele! — exclamou Scott. — Ele é quem me indicou o caminho — por algum motivo o estadunidense não sabia se aquela era uma afirmação verdadeira, pois já não conseguia confiar totalmente nas memórias que tinha e também naquelas que conseguia recuperar. Mas tinha um tom firme na voz.

Prestes a descer da árvore, o indivíduo se soltou do galho e antes que pisasse o chão pedregoso e frio, flutuou vagarosamente em direção aos amigos. Scott podia ver claramente duas asas negras nas costas do ser, mas Erevu e Sabrina não as viam. O americano não mencionou nada, pois acreditava que o ser na frente deles se apresentava igualmente aos três, mas não. Sabrina via apenas o indivíduo pálido se aproximar. Para ela, ele não tinha nenhum cabelo ou fios pelo corpo. Era esguio e planava com elegância até ela.

As asas também não apareciam para ela ou Erevu e em menos tempo do que Scott poderia imaginar, já não havia mais asas... Era apenas uma figura assustadora. As lembranças do primeiro encontro, em que pegara a informação para seguir até ali pelo caminho tomado, simplesmente deixaram de existir.

— Fiquei frustrado ao saber que não confiaram no amigo — disse o ser com a voz que forçava gentileza. Não mexia lábios ou boca, pois ambos já não existiam naquela face. Aos poucos e quase imperceptivelmente para os três amigos viajantes, o indivíduo à frente deles mudava meros detalhes na forma corpórea que assumia e em instantes já tinha se tornado algo que não era anteriormente. Os companheiros não conseguiam perceber as mudanças, mesmo que a figura já tivera se transformado para algo totalmente diferente do que eles encontraram primeiramente.

— É que nós não tivemos a oportunidade de vê-lo — disse Erevu ao ser.

— Eu não queria assustá-los — disse o indivíduo próximo de Sabrina. — Agora estão bem perto de casa?

— Casa? — perguntou Scott, fazendo com que o homem se virasse de repente para ele, encarando-o nos olhos. Em menos de um segundo, os olhos castanho-escuros do ser tornaram-se tão escuros quanto o véu que cobria a noite, que caiu sobre a névoa azul-prateada dentro daquele precipício formado por rochas acinzentadas gigantescas. — Por favor, nos leve pra casa.

— Levarei — o ser flutuou um pouco mais e ficou de frente para o norte-americano, que tinha uma expressão desesperada. — Porém, existe um preço a pagar pelos bilhetes.

— Faremos qualquer coisa — disse o louro. — Apenas nos diga o que é.

Sabrina e Erevu se encararam.

— É necessário que...

— Não faremos nada pra você — interrompeu Sabrina, fazendo o homem aparentar um pequeno desconforto ao virar o olhar para ela.

— Precisamos ir pra casa, Sabrina! — disse Erevu.

— Mas não é por aqui! — retrucou ela.

— O que quer dizer, pequena menina? — perguntou o indivíduo com os olhos fixados em Sabrina, como se pudesse ver através dela. Ou pior: enxergasse todos os medos que poderia haver dentro dela.

— Lembrem-se dos trens! — respondeu ao perceber que todo o pavor dentro dela podia ser controlado. — As pessoas que seguiam até a Estação estavam felizes. Era como se... não lembrassem de nada. Já as pessoas que voltavam da Estação pareciam tristes e machucadas e, também, pareciam não se lembrar de nada! Nada além do sofrimento... A Estação não vai levar a gente pra casa. Tenho certeza!

— Não seja tola, menina — disse o ser. — Não quero nada além de ajudar. Sei o quão é difícil ficar preso neste lugar, acreditando que está dormindo e que, a qualquer momento, você irá despertar. Mas não há caminho de volta. A sua nova casa agora é aqui — ao dizer isso, o indivíduo esperou que os olhos de Sabrina tornassem a ter um brilho inocente, pois assim aceitaria de bom-grado entrar na Estação e seguir viagem àquela nova terra, mas Sabrina não era como os milhares que passaram ali antes dela. Era especial. Ela conseguia resgatar memórias quando quisesse, caso precisasse delas. E o ser na frente dela sabia o quão poderosas as lembranças são.

— Eu não moro em um lugar como esse — continuou Sabrina. Erevu e Scott tentavam entender onde ela queria chegar. — Lembro muito bem onde vivo! E não moro em um lugar horrível como esse. O que quer de nós?

— Lembra? — perguntou o ser tornando-se um pássaro negro e pousando no ombro da menina. Apesar de não saber de onde vinha aquele sentimento, a menina podia sentir medo vindo da ave negra ali, tão próxima. — Como conseguiria tal façanha? — Então a ave saltou do ombro e o ser sem lábios surgiu novamente à frente dos amigos.

— Não viemos de um lugar assim! — continuou a menina. — Eu sou de Curitiba! Scott de Nova Iorque! E Erevu de Luanda! Para onde vamos, se vamos juntos, se somos de lugares tão diferentes?!

— O que exatamente você se lembra? Apenas de onde vieram?

— Também me lembro de que estava indo visitar o meu melhor amigo, Felipe — respondeu Sabrina, que sorriu ao lembrar o nome do menino que ficara a esperá-la, mas lágrimas escorreram pelas bochechas pela dor da saudade. Conforme ela falava, o ser tinha leves espasmos, como pequenos sustos. Era certo que ele desejava que ela não se lembrasse de nada. — E sei que no caminho até o Jardim Botânico, me perdi. Devo ter desmaiado e vim parar nesse lugar! Também lembro que eu tenho uma mãe, um pai, um cachorro e um gato e meu sonho é ter um coelho! Conheci o meu melhor amigo quando me mudei para a casa em que meus pais moram agora. Ele tinha uma tartaruga e foi sobre ela que tivemos a nossa primeira conversa. A minha cor favorita é roxo, aquele que fica no céu logo depois do anoitecer... Felipe e eu sempre íamos até o jardim para observar o céu e admirar as estrelas. Inclusive, nomeamos algumas só para que a gente soubesse se encontrar caso um dia se perdesse um do outro — Sabrina olhou para cima, mas não encontrou céu ou estrelas, apenas névoa. — Sempre íamos para a escola juntos e a gente até dividia o lanche quase todos os dias. Ele me protegia da chuva e também do humor dos meus pais quando eles brigavam... É por isso tudo que preciso ir pra casa. Preciso estar lá pelo meu amigo — Scott e Erevu escutaram tudo boquiabertos. Nunca tinham ouvido tantas lembranças de um deles. Era como se a menina tivesse sido libertada e estava agora sendo inundada por todas aquelas memórias. — Não posso seguir por aqui!

Antes que o ser pudesse dizer qualquer coisa, um sino soou acompanhado de uma buzina. O portão da Estação começou a se abrir devagar e então todos tiveram que sair dos trilhos.

O Conto das Lembranças PerdidasLeia esta história GRATUITAMENTE!