10 - O Portão da Estação

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Quando os três companheiros se preparavam para descer o precipício, um timbre muito doce chamou a atenção deles.

— Quem são vocês? — disse, a voz sendo acompanhada por um risinho tímido.

Instintivamente, Sabrina, Erevu e Scott se viraram para onde vinha aquela melodia suave. Sentada à beira do gigantesco buraco havia uma jovem. Ela devia ter uns dezessete anos, deduziu Sabrina, e os cabelos eram vermelhos como o fogo. As sobrancelhas e cílios também tinham cor de chamas. Os olhos verdes como pequenas folhas de árvores.

— O-olá — gaguejou Scott em resposta, sentiu calafrios.

Erevu e Sabrina continuaram calados.

— Creio que estejam a caminho da Estação, estou certa? — perguntou a ruiva.

— Estação? — perguntou Erevu.

— Sim — respondeu a garota balançando as pernas sobre a néavoa que banhava o precipício. — A Estação. De onde as pessoas seguem aos devidos lugares...

— O que quer dizer com isso? — perguntou Sabrina, não se sentia à vontade.

A jovem riu docemente.

— Todos que seguem os trilhos dos trens querem ir para algum lugar que eles chamam de casa... — Sabrina observou os trajes da moça. Usava um vestido marrom bem curto que deixava as pernas quase inteiras à mostra. Na parte de cima, os seios timidamente grandes estavam escondidos por um espartilho com leves tons de vermelho em xadrez. Os pés descalços, mas ainda assim muito limpos e delicados.

— Casa? — perguntou Scott, direcionando a pergunta aos companheiros de viagem. — Será que...?

— Continuem — disse a voz melodiosa da moça. — Estão bem perto.

Ao dizer aquelas palavras, a jovem saltou precipício abaixo e desapareceu em meio à névoa.

Sabrina, Erevu e Scott se entreolharam.

— O que estamos esperando? — perguntou Scott, que saltou da parede de pedra e também desapareceu.

— Então — disse Erevu prestes a pular — aqui vamos nós!

— Não! — exclamou Sabrina. O africano encarou a menina. Ela estava assustada. — Será que a gente pode ir juntos? — O silêncio tomou conta do espaço vazio entre os dois. Ele nunca a deixaria sozinha, então estendeu a mão.

A menina sorriu.

***

— Não consigo ver vocês! — gritou Scott observando a parede do precipício, esperando que os amigos aparecessem ali para continuar o caminho.

Quando surgiram ao atravessar a névoa, Sabrina e Erevu pousaram suavemente, como se tivessem sido apanhados por mãos gigantes.

— Pensei que não tivessem coragem — brincou Scott ao retomar os trilhos.

— Se você pulou... — disse Sabrina. — Por que a gente não pularia?

Scott riu sem graça.

— Engraçadin... — ia dizer em seguida, mas os três pararam de andar e olharam para cima bem devagar e ao mesmo tempo.

Em frente deles havia um portão enorme e os trilhos dos trens seguiam direto para ele, como se continuassem o caminho por ali. Mas o portão não tinha mais que um ou dois metros de espessura. Atrás dele eram apenas pedras mortas e escuridão.

— O que significa isso? — perguntou Erevu.

O portão era feito das rochas acinzentadas que havia ao redor, mas algumas imagens o decoravam. Eram detalhes abstratos, como se tivessem sido feitos há centenas ou milhares de anos. Apesar da pouca espessura, tinha muitos metros de altura, criando um ar imponente àquela imensidão formada por pedras, névoa e escuridão. Só havia uma coisa maior que o portão naquele momento: um porém. A passagem estava fechada. Não havia como ninguém passar nem descobrir para onde aqueles trilhos que seguiam ao nada estavam levando os três amigos viajantes.

O Conto das Lembranças PerdidasLeia esta história GRATUITAMENTE!