9 - Luz & Trevas

86 8 6

Foram várias horas de caminhada até que os três companheiros viajantes chegassem à cidade do horizonte. As casas eram de alvenaria, mas não havia nenhum asfalto. Todas as ruas eram de uma areia acinzentada que parecia úmida, mas estava seca. Erevu disse que nunca chovia naquele lugar.

Nas esquinas, placas indicando as ruas, mas nenhuma tinha nome - apenas símbolos que Sabrina e seus amigos não identificavam. Algumas plantas muito verdes ladeavam algumas casas. E havia prédios por perto, além de fábricas. Restaurantes, livrarias, lojas de roupas...

Tudo estava fechado. Não havia ninguém nas ruas, nem cães ou gatos vira-latas.

— O que houve por aqui? — perguntou Sabrina ao sentir um calafrio. — Parece alguma cidade-fantasma...

— Acho que é uma cidade-fantasma de verdade — disse Scott, grãos de areia bateram em seu rosto quando uma rajada de vendo soprou do deserto.

— Estranho — Erevu observava os trilhos dos trens sob os pés. Ainda caminhavam sobre os dormentes.

— ALGUÉM AÍ? — perguntou Sabrina aos berros. — SERÁ QUE ALGUÉM PODERIA NOS AJUDAR? ESTAMOS PERDIDOS!

Erevu e Scott andavam cabisbaixos atrás da menina, como se decepcionados pela solidão na cidade. O lugar lhes deu uma esperança que desapareceu.

— ALGUÉM...? — continuava Sabrina. — POR FAVOR! ALGUÉM AQUI?

Mas nada.

Nenhuma resposta.

A única opção era seguir pela estrada de ferro, sem saber aonde chegariam, sem saber se chegariam a algum lugar, afinal.

***

— Sabrina — chamou Scott quando se aproximaram do limite entre a cidade e outro tipo de deserto. Pedras gigantescas começaram a substituir a areia. Eram cinzas e frias, como que se de alguma forma pudessem estar organicamente mortas.

— Diga — disse a menina em resposta, ainda a olhar para trás, para as casas em meio à areia, na ânsia por querer avistar alguém.

— Você acredita em Deus?

Sabrina virou-se para o colega de repente, como se a pergunta a interessasse bastante.

— Por que não acreditaria?

Scott pareceu estudar a resposta em forma de pergunta da garota.

— Erevu...? — falou o americano ainda em tom pensativo.

—- Por que quer saber disso agora? — perguntou Erevu ao encarar os olhos azuis do homem louro, que se manteve em silêncio.

— Eu gosto de pensar que existe alguém que cuida de mim, que está sempre comigo... — Sabrina quebrou a monotonia da quietude.

— Cuida de você? — Scott perguntou descrente. — Você está perdida no meio do nada, onde não há ninguém e o que há são coisas e lugares vazios, com trens que passam a toda hora sempre levando gente ao desconhecido?

Erevu encarou Scott sem desacelerar os passos, como se reprovasse a atitude do americano para com a menina, que resolveu falar:

— Nada de ruim aconteceu conosco até agora — a voz meiga, quase angelical —, isso já é algo bom.

Então um sino soou alto, acompanhado de uma buzina. Era a hora de sair dos trilhos. Enquanto o comboio passava, os três companheiros não disseram nada. Permaneceram calados, esperando a liberação dos trilhos. Pela primeira vez, o barulho ensurdecedor era bom... Evitava todas aquelas perguntas.

— Pare com isso — disse Erevu se dirigindo às questões de Scott assim que eles voltaram a caminhar sobre os trilhos. — Por que tudo isso agora?

— Eu sempre fiquei feliz em saber que tinha alguém que estava de olho em mim, cuidando do meu caminho, para que nada de ruim pudesse me acontecer — disse o norte-americano enfim, arrancando um sorriso de Sabrina. — Agora... não sei se tenho tanta certeza.

O sorriso no rosto da menina sumiu. Se pelo que Scott disse ou pelo que estava à sua frente era difícil saber, mas os dois eram assustadores.

Os trilhos dos trens se perdiam em um precipício de proporções gigantescas. Era como um buraco aberto no meio de todas aquelas rochas geladas que circundavam os amigos. O céu ficou escuro de repente e uma fraca névoa azul-prateada tomou o lugar.

— Estranho! — comentou Sabrina ao enxergar o último vagão sumir para baixo de todas aquelas pedras. — E agora? O que vamos fazer?

— O que mais poderíamos fazer? — perguntou Scott pondo-se à frente do grupo. — Descer, é claro! — E se virou sorridente para os colegas. A conversa há poucos segundos já não fazia mais parte de sua mente. Apesar de saber que lembrara de algo importante (como a existência da religião), continuou a andar em direção ao precipício sem realmente lembrar o que significavam todas aquelas perguntas.

***

Felipe deitou-se cedo aquela noite. O sol tinha partido há poucas horas e um brilho alaranjado ainda dominava o horizonte, como um pôr-do-sol inacabado. Acima da coloração laranja, o tom púrpura do céu ao escurecer dominava o espaço que antes parecia vazio, então começava a ser pontilhado de estrelas.

A lua crescente brilhava intensamente e, ao cair no sono, Felipe caiu no exato ponto entre duas estrelas, de frente para o satélite natural da Terra - que estranha mas belamente estava acompanhado por vários outros parecidos no fundo distante.

Ao lado dele, Sabrina sorria ao perceber que voava em meio à escuridão e ria ao reaparecer banhada pela luz das luas. Sentiu um calor no tórax como se o coração sentisse a presença da menina ao seu lado, mas não conseguia dizer nada. O momento era feito apenas para que eles admirassem o cenário que lhes tirava o fôlego e a companhia um do outro, pois os dois amigos flutuavam e não percebiam que o planeta já estava muito abaixo deles.

Mesmo tendo visto o cair da noite, dali, àquela altura, Felipe podia ver o sol — rodeado por planetas, estrelas, cometas, asteroides e milhares de outros objetos que nunca saberia nomear.

Sabrina segurou a mão dele sem ainda dizer nada. O garoto sorriu e acompanhou a amiga. Apontou o corpo para mais alto - mesmo sem saber se aquele lugar tinha Norte, Sul, Leste ou Oeste. Centro ou superfície. Cima ou baixo. Dentro ou fora. Os dois simplesmente caíam pela imensidão escura repleta de pontos brilhantes.

De frente para um planeta gigantesco desconhecido, Felipe observou o sorriso no rosto da amiga. Com aquela enorme bola de matéria em frente dos dois e os pontos estelares a todo o redor, o menino virou o rosto para baixo e percebeu que já não era mais dono do próprio corpo. Braços, pernas, cabeça e peito eram feitos de todas aquelas imagens nas órbitas a circularem os amigos. Tudo em volta na verdade vinha de dentro deles.

Não havia mais pele, cabelos ou olhos.

Sabrina e Felipe eram feitos de luz e trevas, espalhados por todo um universo, sendo conectados por todos os pontos de luz em um abraço cósmico tão gigantesco quanto as proporções das conexões que formam a mente humana. Porém, eles podiam sentir toda aquela energia fluir até o horizonte inexistente daquele espaço sideral, se interligando àquele instante e momentum. Um sentimento único e mágico que ambos sabiam que já existia antes de todas aquelas luzes surgirem e existiria mesmo depois de todas elas se apagarem.

Estavam inteira e intimamente ligados em uma dança intergaláctica eterna.

O Conto das Lembranças PerdidasLeia esta história GRATUITAMENTE!