8 - Memórias que Mentem

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Após algumas horas de um silêncio quebrado apenas pelo barulho do movimento do trem, os vagões começaram uma subida.

Erevu então se soltou da barra de ferro que segurava e os três amigos flutuaram vagarosamente, diminuindo a velocidade até quase pararem e continuarem a nado.

Não demoraram muito para alcançar a superfície. Estava mais quente naquela região. No horizonte, os três amigos conseguiam ver prédios, chaminés de fábricas (que não soltavam fumaça) e o trem ir ao longe, quase desaparecendo em meio a várias casinhas pequenas e sem cor.

— Acho que finalmente vamos voltar pra casa — disse Scott esperançoso.

— Vamos rápido! — Sabrina, assim que calçou novamente as sandálias, correu para frente dos companheiros. Não estava molhada, mas naquele momento ela já não lembrava onde estivera instantes antes.

O vento espalhava areia pelo ar e o cenário era de um tom amarelado e vermelho que se perdia de vista.

— Você ainda não nos contou como se perdeu, Erevu — disse Sabrina quebrando a monotonia da caminhada.

— É verdade — Scott respirou fundo, por causa do calor.

Erevu pareceu pensativo. Não gostava muito de falar sobre a própria vida. Mas contaria o que tinha em mente. Não eram memórias reais ou, pelo menos, acreditava que não eram.

— Estou aqui há muito tempo — começou. — Há muito tempo mesmo! Eu não conseguiria dizer se o que lembro aconteceu realmente ou se ocorreu em um sonho... Mas existe uma imagem na minha mente que apareceu há pouco tempo. Logo depois de ter conhecido você, Sabrina.

— Qual imagem? — perguntou a garota bastante interessada na história.

— Eu não me lembro dos nomes dos meus pais. Só me recordo que estava lá, no colo deles, bem pequeno. Minha mãe prometeu que sempre estaria comigo, mas não recordo o rosto dela ou se ela realmente disse alguma coisa. Mas ela nunca me abandonaria... Não sei se essa lembrança é real. Mas fico contente por tê-la.

— Que lindo — disse Sabrina encantada.

— Papai, que veio do Quênia, um país na África, me deu o nome de Erevu porque, dizia ele, significa inteligente e talentoso — ele disse demonstrando certeza de que aquilo era realmente uma memória recuperada. Porém, nunca saberia dizer ao certo.

— Acho que eles acertaram — comentou Scott sorridente.

— Não acho — indagou Erevu, tristonho. — Como sou inteligente e talentoso se não consigo saber onde estou? Se me perdi como uma agulha no palheiro que ninguém pode encontrar, que simplesmente deixou de existir...?

— Não diga isso — pediu a menina. — Estamos indo de volta pra casa... Veja! Tem uma cidade lá na frente. Logo encontraremos o que queremos.

— Concordo — Scott observou o deserto ao lado dos trilhos.

Havia ossos secos de um animal que há muito tinha morrido bem próximos deles. Os restos orgânicos tinham desaparecido, mas a posição dos ossos poderia indicar que o bicho tinha morrido naturalmente, de sede ou de fome. A menina também mirou o olhar no esqueleto. Sentiu pena.

— Acho que estamos na África — comentou Erevu ao ver a imagem.

— Não sei — disse Sabrina. — Acho que isso se encontra nos sertões do Brasil.

— E nos desertos dos EUA — completou Scott.

Definitivamente, nem um dos três podia dar palpites de onde estavam. Podiam estar em qualquer lugar. Ou em lugar nenhum ao mesmo tempo. Porém, a cidade estava próxima. Talvez a jornada estivesse perto do fim.

O Conto das Lembranças PerdidasLeia esta história GRATUITAMENTE!