7 - Viagem pela Imensidão

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O caminho era silencioso. Sabrina, Scott e Erevu não estavam com vontade de conversar. Os trilhos dos trens atrapalhavam os passos e o frio deixava as cordas vocais preguiçosas. A menina, que andava na cola de Erevu com medo de um novo trem surgir de repente, estava mais devagar que os demais. Cansada.

— Quanto mais a gente tem que andar até encontrar alguém para nos ajudar? Será que estamos perto? —  perguntou ela, ofegante.

— Não sei... — respondeu Scott com aparente desânimo na voz. — Mas espero que não seja tão longe. Não aguento mais andar.

— Vamos manter a fé — animou-se Erevu olhando para os companheiros.  — Pensamos assim: a cada passo que damos, mais perto estamos de sermos resgatados.

Sabrina sorriu.

Então a luz da estrela no céu, que havia sumido há horas, reapareceu. As nuvens negras e pesadas se dispersaram e o clima ficou ameno. Não estava mais frio. Tudo passou a ser iluminado por uma claridade brilhante, de alguma forma diferente da luminosidade habitual do sol.

Só que o astro não foi o único que apareceu de surpresa. Sabrina e seus amigos estavam de frente para algo que eles não souberam especificar se era um lago, um rio gigantesco, um mar ou um oceano.

— E agora? — perguntou a garota.

Assim que as palavras saíram de sua boca, um sino soou alto e o som de uma buzina venceu a quietude. Os três se viraram para trás e viram um trem se aproximar rapidamente. Logo saltaram dos trilhos e observaram o comboio que vinha a toda velocidade, puxando incontáveis vagões.

Por mais impossível que parecesse, o trem entrou na imensidão azul levando com ele os compartimentos lotados de pessoas sorridentes. Com barulho ensurdecedor, o choque com a água fez com que um arrepio subisse pelas costas de Sabrina até as orelhas.

— Isso é possível? — perguntou Scott estarrecido.

— O trilho segue para a água, não segue? — comentou Erevu. — Faz sentido ele continuar na ferrovia.

— Mas como conseguiram construir embaixo d'água? — perguntou Sabrina se aproximando de Erevu, tentando não pensar no barulho do trem que passava ao seu lado.

— Talvez essa água toda não estivesse aqui quando a construíram — Erevu improvisou uma resposta.

— Definitivamente, não estamos nos Estados Unidos da América — disse Scott, chegando mais perto dos amigos. — Devemos estar na Inglaterra ou na França... Sabem? Aquele trem que passa por dentro do mar...

— Não pode ser — disse Sabrina convicta, pois acabara de se lembrar de ter lido sobre o Canal da Mancha em uma revista na sala de espera de uma consulta ao dentista há alguns meses. Estava com a mãe, mas a lembrança não lhe trouxera o rosto dela. — Aquele trem não entra direto na água, não é, Scott? Ele entra em um túnel. Além do mais, acho que já teríamos visto alguma estação ou alguma cidade perto da ferrovia. Afinal de contas, a França e a Inglaterra devem ter muita gente, já teríamos encontrado alguém.

— Mas nós encontramos alguém — disse Erevu.

— Encontramos? — perguntou Sabrina surpresa.

— Sim — continuou o africano observando o último vagão do trem desaparecer depois de submergir. — Na floresta, não lembram? Vimos uma mulher entre as árvores.

— Lembrei! — exclamou Scott. — Nós vimos uma mulher, mas...

— Por que não fomos falar com ela? — Sabrina completou a pergunta.

Erevu fez não saber com a cabeça. Scott também. A confusão era evidente nas expressões que os três amigos carregavam nas faces, mas sem ainda entenderem a razão, continuaram a conversa como se a lembrança da mulher na floresta não existisse mais.

— Vamos entrar — disse Erevu ao subir nos trilhos do trem, dando passos em direção à água.

— O quê? — perguntou Scott o seguindo.

— Precisamos seguir o caminho, não? — Erevu apontou para os trilhos. — Se o trem entrou com um monte de gente, por que não entraríamos?

Sabrina ficou receosa, mas não iria ficar para trás. Tirou as sandálias, as amarrou com um pedaço do vestido e entrou na água. Não se sentiu desconfortável no início, pois não estava fria. E devagar, ela e os amigos começaram a nadar. Sabrina era boa nadadora, mas o exercício era o menor dos problemas àquela altura: não tinha ideia de onde o caminho a levaria.

— Vamos descer — disse Erevu, que logo após mergulhou.

— Descer? — Scott virou-se para Sabrina assustado. Os cabelos louros espalhados pelo rosto, parcialmente molhados. — Ele quis dizer... mergulhar?

Sabrina deu de ombros. Os cabelos dela estavam soltos e encharcados. Fazia esforço para não afundar, pois o vestido pesava e a puxava para o fundo.

— Ei! — a cabeça de Erevu apareceu de repente na superfície. — Vamos logo! — e ficou submersa novamente.

Scott e Sabrina se encararam até criarem coragem de mergulhar. Assim o fizeram. Depois de tomarem fôlego, nadaram para o fundo. A menina manteve os olhos fechados e os músculos contraídos até tocar um dormente com os pés.

Assim que relaxou as pálpebras e o azul parou de arder em seus olhos, Sabrina observou os trilhos do trem sob o corpo, que flutuava. Algumas algas estavam presas em suas meias e seus amigos estavam em sua frente.

Erevu fez um sinal com os braços para que os amigos o acompanhassem. Scott estendeu a mão direita para que Sabrina a segurasse. Ela apertou firme a mão do amigo e recomeçou o caminho, um pouco à nado e com leves impulsos dados com os pés nos dormentes.

Sabrina não pode deixar de notar como o fundo era um lugar bonito. Havia plantas e peixes por todos os lados - exceto nos trilhos dos trens. Alguns corais eram muito coloridos, vários peixes também. Todas as cores que ela poderia imaginar existiam ali: azul, amarelo, verde, marrom, vermelho, rosa... Era uma festa de cores, texturas e formas.

Um sino soou, acompanhado por uma buzina. Dois trens se aproximavam de ambas as direções. Mas eles se locomoviam devagar. Sabrina e seus amigos logo saíram da ferrovia e deixaram as extensas locomotivas seguirem viagem.

Durante a passagem do último vagão, um esticou um braço ao outro e Erevu se agarrou a uma barra de ferro na última porta. Então os três foram puxados como uma parte viva do trem que ia à direção que eles desejavam.

"Uma corrente", pensou Sabrina sorrindo ao vê-los de mãos dadas.

Também observava as plantas, peixes e cores ficarem para trás para serem substituídos por um deserto acinzentado. E não havia mais nada: peixes, plantas ou cores. Havia pouca luz, que vinha de um ponto específico prateado e abstrato acima dos três viajantes. E tudo ficou frio.

Em certo ponto da longa viagem, Sabrina já havia esquecido onde estava. Não sabia por que o tocar do ar na pele dela lembrava a sensação de água. Até o som da fricção entre a pele e o ambiente ao redor misturava silêncio, córregos ou mesmo o som do vento ao assoviar entre dunas. O que significava aquele mar de sensações? Estavam submersos, voando ou perdidos nas profundezas do universo?

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