6 - Masculino e Feminino

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— O que fizeram com a gente? — perguntou Sabrina desesperada.

— Alguma nave extraterrestre nos raptou e fez experiências com nossas mentes e depois nos largaram no meio do nada, sem memória, para que morrêssemos e nunca ninguém ficasse sabendo o que fizeram com a gente! — respondeu Scott irritado.

— Isso parece filme de Hollywood — comentou Sabrina abrindo a boca surpresa, se dando conta de que tinha se lembrado da palavra "Hollywood" naquele exato momento.

— É sério — insistiu Erevu. — Eu não me lembro da minha casa, da minha família. Será que é por causa de tanto tempo que fiquei perdido? Será que o tempo que passei aqui foi tanto que me fez perder a maioria das memórias?

— Não — Scott ficou pensativo. — Porque se fosse assim eu me lembraria do que eu fazia em Nova York, tudo o que eu sei é que eu trabalhava, mas não faço ideia com o quê.

— Isso faz sentido — disse Sabrina sentindo uma pequena vibração. Um trem poderia passar em frente deles a qualquer momento.

— Mas eu não lembro nem o nome da minha mãe! — exclamou Erevu.

— Não se lembra o nome da sua mãe? — perguntou Scott com os olhos arregalados.

— Não! — respondeu o angolano, quase fora de si. — Eu não consigo... Você consegue lembrar o nome da sua?

— Mas é claro que... — a voz sumiu, Scott mesmo se interrompeu. Baixou a cabeça vagarosamente. Erevu o observou com pena.

Sabrina começou a chorar.

— Tudo vai ficar bem — disse Erevu abraçando a menina. — Você vai se lembrar... Não se preocupe. Vai se lembrar, sim.

Scott também abraçou a garotinha, angustiado por não lembrar o nome da própria mãe. Já Sabrina estava triste... Não lembrar o nome da mãe a fez pensar que nunca mais a veria. E pior: não lembrar o nome dela a fez pensar no amigo que esperava por ela. Qual era... Qual era mesmo o nome dele? Esforçou-se. Mas por longos minutos ela não conseguiu lembrar. Começava com F ou com E?

Logo um trem atrapalhou o gélido silêncio que pairava sobre os três amigos viajantes. O barulho era assustador.

***

Sabrina se viu sozinha. Estava frio. Andava sobre os trilhos dos trens devagar. Ela não deu importância à solidão, parecia até contente em seguir sozinha. Cantarolava uma melodia animada, até que parou.

Em uma árvore ao lado da ferrovia, sob o céu escuro, ela avistou o homem de olhos brancos, que tinha visto em sonho anteriormente. Porém, estava diferente. Talvez por não estar com medo desta vez, Sabrina percebeu que não tinha fortes traços no rosto e a pele aparentava ser extremamente fina. Mesmo de cabelos curtos, Sabrina poderia dizer que o homem era uma mulher e vice-versa. Ficou confusa. E mesmo depois de encará-lo por certo tempo, ele parecia não se incomodar com a presença da menina, apenas prestava atenção em algo distante, como se aguardasse um dos comboios.

Sabrina ficou receosa. Não sabia se continuava a caminhada ou não. Pensou no que aquele homem de roupas estranhas estaria fazendo sozinho, sentado naquele galho. Ele vestia um tipo de armadura, que mesmo assim aparentava muito leve. Pelo que a menina pode deduzir, ele não tinha dificuldade nenhuma em se movimentar. Alguns pontos brilhantes na armadura lembravam pedras preciosas, mas Sabrina não poderia afirmar.

Assim que visualizou aqueles detalhes, decidiu continuar a andar. Não iria dizer nada, até que ouviu uma voz que não saberia distinguir se era masculina ou feminina.

— Olá — disse o homem sentado na árvore, ainda sem virar os olhos brancos para ela.

— Oi — respondeu Sabrina educadamente, sem parar de andar dessa vez.

— Para onde está indo? — perguntou o homem pondo-se a descer da árvore, ainda sem mirar os olhos em Sabrina.

— Preciso encontrar meu melhor amigo... — a menina se desequilibrou sobre um dormente e teve de abrir os braços para voltar à posição adequada para a caminhada. — Preciso seguir os trilhos para conseguir chegar até ele.

— Como sabe que está indo na direção certa?

— Eu... — Sabrina estava com a resposta na ponta da língua, mas de repente não tinha mais palavras para usar. Não sabia quem tinha indicado o caminho ou por que seguiam pelos trilhos. — Não sei.

De repente, o som de uma buzina e um sino dominou o silêncio. A menina saltou para o lado da ferrovia, ficando de frente para o homem do outro lado. Não demorou para que os vagões começassem a passar. Entre um e outro, Sabrina podia ver o homem a observando. Os olhos brancos vidrados nela. Só que nada podia ouvir.

Quando o trem se foi, o homem não estava mais lá. Como se tivesse sido levado no último vagão. Sabrina respirou fundo e recomeçou a caminhada sobre os trilhos, mesmo sem ter ideia até onde aquele caminho poderia levá-la.

***

Acordou. Não saberia dizer se o que vivera há pouco era real, mas não se preocupou com o nível de realidade do que vira.

Scott e Erevu ainda dormiam ao seu lado, porém era hora de todos levantarem. Deviam seguir viagem. Se ela queria encontrar logo o melhor amigo, precisava começar a jornada bem cedo.

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