5 - Semelhanças Linguísticas

89 9 4

Assim que os trens sumiram do campo de visão dos três amigos, eles voltaram a andar; Sabrina ainda massageava os ouvidos e a testa, pela dor causada pelo barulho.

— Isso foi esquisito — comentou a menina.

— Para onde será que esses trens estão indo? — perguntou Scott.

— Pra casa — respondeu Erevu sorridente.

Sabrina e Scott olharam para o amigo, com um tom desanimado e ao mesmo tempo esperançoso.

— Pra casa? — perguntou Sabrina, o tom meigo alegrando os amigos.

— Acho que sim — continuou Erevu. — Vocês viram como as pessoas estavam felizes no trem da direita, na direção que estamos indo?

— Eu percebi — disse Scott. — Mas só isso quer dizer que estavam indo pra nossas casas? Afinal, eu moro nos Estados Unidos...

— E eu no Brasil — completou a garota cruzando os braços e encarando os trilhos, pensativa.

— Calma, calma — tentou Erevu ainda sorridente. — Vai dar tudo certo.

Depois de uns momentos de expressão fechada, Sabrina virou-se para Erevu e sorriu. "Tomara que sim", foi o que ela disse pra ele.

— É — concordou Scott. — Tomara que sim.

A noite caiu depressa e Sabrina e seus amigos tiveram que improvisar outro lugar para dormir, além de encontrar alguns frutos para comer. Eles se contentaram em comer algumas folhas de árvores ao lado dos trilhos... Eram azedinhas, mas mataram a fome, pelo menos por hora.

— Hoje o céu não tem estrelas – disse Scott deitado ao lado de Sabrina, observando o céu.

— É mesmo — disse ela.

— Claro que tem — disse Erevu. — Mesmo com nuvens no céu, elas continuam lá.

Ficaram em silêncio observando o firmamento por um tempo.

— Eu acho que tenho sorte — comentou Sabrina.

— Sorte? — perguntou Scott. — Por quê?

— Por ter encontrado amigos como vocês — Sabrina pareceu pensativa. — Ia ser difícil ficar em um lugar tão diferente de casa sozinha. Ter encontrado vocês foi sorte —  então sorriu com ternura nos olhos. — São amigos ótimos. Dos Estados Unidos e da Angola. Estadunidense e angolano.

— Estadunidense e angolano... — repetiu Scott. — Ainda bem que todos falamos inglês.

— O quê? — perguntou Erevu confuso.

— Sabrina e você — continuou Scott —, falam inglês perfeitamente.

— Inglês? — perguntou Sabrina de repente. — Eu devia ter percebido que estávamos nos entendendo muito bem para sermos cada um de um país diferente... Tudo bem, as pessoas da Angola falam português, com sotaque diferente do meu, mas não ouço nenhuma diferença de como Erevu fala. Já Scott fala inglês, mas eu o entendo perfeitamente como se ele falasse português... O que está acontecendo com a gente?

— Esse lugar deve ser mágico — comentou Scott.

— Eu acho que é mais que isso — disse Erevu olhando para o céu quando um pequeno espaço entre as nuvens deixou estrelas visíveis. — Estamos juntos, nos entendemos perfeitamente, e vamos sair daqui juntos... Talvez tenhamos algum tipo de missão.

— Missão? — desdenhou Scott. — Não estamos em um livro de aventura, Erevu.

— Eu não sei — comentou Sabrina. — E pensar nisso me dá medo. O importante é que temos um ao outro e vamos nos ajudar a sair daqui. Preciso encontrar o meu melhor amigo. E vocês...

— Voltar pra casa! — disse Scott animado.

— Eu não sei — Erevu pareceu hesitante.

— Não sabe? — Scott perguntou confuso. — Não sabe se quer voltar pra casa? Ficou maluco?

— É que — a hesitação na voz de Erevu era evidente então — eu não me lembro onde fica a minha casa.

— Não se lembra? — Sabrina engoliu em seco.

— Não se lem...

Os três ficaram em silêncio. Cada um tentou lembrar o que estava tentando fazer, o motivo de voltar para casa. Scott não tinha ideia de onde morava, o que fazia em Nova York nem de mais nada. Erevu sentia que poderia haver um motivo, mas não podia dizer porque simplesmente não se lembrava. Sabrina sabia o motivo: precisava encontrar o melhor amigo, que ficou esperando por ela, mas...

Para quê?

— O que fizeram com a gente? — perguntou Sabrina desesperada.

O Conto das Lembranças PerdidasLeia esta história GRATUITAMENTE!