4 - O Trem do Meio-Dia

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— Espere — disse Erevu aparentemente atento a algo mais à frente.

— O q... — Scott começou falar, mas logo virou o olhar para o mesmo lugar que Erevu encarava. Sabrina não tardou a avistar o que eles tinham visto.

O caminho, onde estavam, seguia até duas estradas de ferro. Uma do lado da outra. Certamente, uma para ir e a outra para voltar.

De onde só Deus sabe, pensou a menina.

Seguindo em frente por entre as árvores, os três amigos se aproximaram dos trilhos. As duas estradas pareciam bem cuidadas. Os dormentes não estavam soterrados nem cobertos pelo mato. Não havia ferrugem e nem uma parte quebrada. Ao lado da estrada de ferro a vegetação era diferente. As árvores com formatos estranhos foram sendo substituídas por pinheiros e árvores menores, com muitos galhos e folhas pequenas.

Então tudo ficou gelado e o Sol desapareceu, ficou escondido atrás de nuvens azuladas que tomaram todo o céu. Sabrina roçou os braços, por causa do frio.

— Para onde será que vai isso? — perguntou a menina.

— Não faço a mínima ideia — respondeu Erevu. — Mas tem algo ali — e apontou para um lugar mais à frente deles.

A estrada de ferro na horizontal passava por uma rua que estava há poucos metros dali. Havia os semáforos de sinalização, o "X" que fica nas encruzilhadas de ruas e trilhos e os avisos: "Pare, olhe, escute". Sabrina já tinha visto aquilo perto da rodoferroviária, se lembrou.

— Acha que devemos ir pela rua? — perguntou Scott à Erevu.

— Sim — respondeu o africano sem olhar para trás.

— Eu acho que não — comentou Sabrina olhando para o caminho de onde vieram e para os trilhos dos trens.

— Pela rua é mais seguro — disse Erevu. — Menos risco de ficarmos ainda mais perdidos.

— Mas eu acho que devemos seguir os trilhos — insistiu a menina, se abaixando entre o caminho e as estradas de ferro.

Scott observava a menina e Erevu, que seguia em direção à estrada.

— Pra que correr o risco de ser atropelado por dois trens se podemos seguir sãos e salvos pela rua segura? — perguntou Erevu se virando para os dois que ficaram para trás, entre o caminho e as estradas de ferro.

— Acho que devemos seguir o caminho — respondeu Sabrina. — Parece que os trilhos são uma continuação do caminho.

Erevu observou o lugar onde os amigos ainda permaneciam parados. Eles tinham vindo do caminho, e ele estava sendo, de alguma maneira, ligado aos trilhos.

— Também acho — comentou Scott observando os dormentes.

Erevu voltou até eles e estudou a encruzilhada.

— Tudo bem — disse ele, pondo-se a andar pelos trilhos da sua direita. — Vamos pelos trilhos. Só tomemos cuidado na hora em que os trens passarem.

***

Sobre os trilhos, os três amigos perdidos seguiam correndo e brincando. Às vezes cantavam, mas ruídos longínquos começaram a assustá-los. Era como um sino, que vinha soando cada vez mais alto e cada vez mais perto. Os trilhos começaram a vibrar e as pequenas pedras sobre eles a saltar pouco menos de um centímetro no ar.

— Ah, não! — exclamou Scott.

Rapidamente, uma buzina longa soou juntamente com o sino.

— São os trens! — alertou Erevu.

— Temos que sair daqui! — Sabrina saltou da estrada de ferro do lado direito para o espaço que ficava entre as duas ferrovias. De uma curva à frente, um trem enorme surgiu. Ao olhar para trás, o outro apareceu de repente no ar gélido daquele dia. Era tarde demais para sair dali.

Erevu e Scott pularam para perto de Sabrina e a abraçaram.

Então as locomotivas ficaram lado a lado. Quase uma cena de tragédia no momento do encontro: um trem indo em direção ao outro, como se estivessem duelando. Então ficaram rentes. O barulho não deixava com que os gritos de Sabrina ecoassem.

Os braços fortes de Erevu e Scott a envolviam, tentando protegê-la daquele som ensurdecedor, mas não adiantava. Quando percebeu que o barulho afetava seus ouvidos e não seus olhos, Sabrina resolveu abri-los.

Nas janelas dos vagões Sabrina pôde ver muitas pessoas. Homens, mulheres, crianças, bebês, idosos... Pessoas de todas as idades, todas as etnias, juntas no trem. E os vagões passavam e passavam e pareciam que não acabavam... Sabrina tentou imaginar para onde aqueles trens estariam indo. Devia ser um lugar importante... Por causa de tantas pessoas.

Mas Sabrina não pôde deixar de notar que nos vagões do trem da direita, as pessoas estavam mais bonitas. Usavam roupas muito limpas e claras, enquanto as que estavam nos vagões do trem de sua esquerda estavam machucadas e as roupas, sujas.

Estranho, ela pensou.

Sem poder andar, falar e muito menos ouvir, os três amigos esperaram que todos os vagões de ambos os trens passassem. O que demorou a acontecer. A menina não cronometrou, mas sabia que tinha ficado horas e mais horas no meio dos dois trens. Sabrina queria muito sair daquele lugar, que não sabia onde ficava e não sabia até onde poderia ir.

O Conto das Lembranças PerdidasLeia esta história GRATUITAMENTE!