3 - Selva de Pedra

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Sabrina se sentiu sozinha. Estava no meio do caminho. Era dia, mas a luz que vinha do céu não estava muito brilhante, deixando o dia quase tão escuro como estava à noite.

Scott e Erevu não estavam com ela. E o som do vento balançando as árvores era assustador. O coração da menina batia muito mais rápido que o normal. As árvores pareciam se aproximar dela... Até que ela viu um jovem. Ele estava sentado em um dos galhos de uma árvore gigantesca no meio de uma clareira. As outras árvores, em volta, pareciam se mover vagarosamente, balançando os galhos, que cantavam as notas que o vento lhes dava.

Usava uma roupa branca e leve. Os cabelos eram bem negros e a sua pele era clara. Os braços eram fortes, mas não musculosos. Seu olhar estava virado para algo distante, como se ainda não tivesse visto a pobre menina perdida.

De repente, ele a vidrou. Os olhos do jovem eram totalmente brancos. Sabrina gritou de susto. O grito da garota ecoou por todo lado e o vento ficou mais intenso, foi quando Scott a despertou.

***

— Sabrina! — chamou ele. — Acorde!

Erevu balançava delicadamente os ombros da menina; que acordou rapidamente, abrindo os olhos enormes e verdes, vidrados no homem angolano.

— Está tudo bem — disse ele. A voz suave, como se de alguma forma pudesse ser macia.

— Foi só um pesadelo — disse Scott. — Só um pesadelo. Estamos aqui com você. Fique calma... Respire.

A respiração de Sabrina estava ofegante, como se ela tivesse corrido quilômetros para ser soqueada. A imagem do jovem na árvore a agonizava. Sentia que ele queria ter dito algo, se ela não tivesse gritado...

— Melhor continuarmos — disse Erevu se levantando. O dia amanhecia.

Scott também se levantou e estendeu a mão para a menina, que segurou e foi puxada pelo norte-americano. Sabrina sorriu. Estava muito alegre em ter encontrado aqueles amigos de viagem.

— Bom dia — cumprimentou ela.

— Bom dia — responderam os dois homens sorridentes.

***

Felipe acordou meio que tristonho. Era como se faltasse alguma coisa em seu dia. Após escovar os dentes e vestir o uniforme da escola, pegou o celular e abriu a caixa de mensagens. Lá encontrou: Vamos nos encontrar lá! Não esquece! Sabrina.

Tentando não pensar no porquê de sua melhor amiga não ter aparecido, ele foi para a mesa do café-da-manhã. A mãe o chamava, deveria se alimentar, para depois ir à escola.

***

Sabrina cantava uma música alegre e Scott acompanhava a canção com efeitos sonoros feitos com a própria boca. Erevu ouvia tudo em silêncio, mas com um sorriso no rosto.

— Scott — chamou Sabrina.

— Oi — disse ele. — Quer que eu pare de atrapalhar você cantar?

Sabrina gargalhou.

— Não, não é isso — respondeu ela observando uma mulher que passava distante, no sentido contrário deles. Ela estava suja de terra. Sua roupa, que antes deveria ter sido branca, estava rasgada. Não parecia feliz. Por algum motivo que nenhum dos três conhece, permaneceram em silêncio enquanto observavam a mulher ao longe, até que ela sumiu do campo de visão e Sabrina continuou: — Como você veio parar aqui, Scott? Como se perdeu?

— Também não lembro direito — respondeu ele. As árvores começavam a parecer menores então. — Estava indo trabalhar, mas não dá pra saber em que momento eu me perdi.

— Você morava em uma selva de pedra, não é? — perguntou Erevu.

— Nova York — respondeu Scott, imaginando como seria bom ver a Estátua da Liberdade novamente.

— Não consegue lembrar onde você trabalhava? — continuou Erevu.

Scott ficou calado. Estava claro que não fazia ideia de onde trabalhava. E isso o deixava confuso. Não fazia tanto tempo que estava naquele lugar. Como pudera esquecer-se de quase toda a vida tivera?

— Tudo bem — disse Sabrina. — Antes de chegarmos a algum lugar que tenha polícia para nos ajudarem a voltar pra casa, a gente troca telefones e e-mails. Assim entramos em contato para saber tudo sobre a vida um do outro. Que tal?

E-mails? — perguntou Erevu desentendido.

— A gente dá um jeito em um pra você, Erevu — disse Scott olhando para Sabrina e sorrindo.

— E você, Erevu? — perguntou Sabrina em tom interessado. — Como veio parar aqui?

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