2 - Jardim Botânico

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Sabrina estava cansada e faminta. Já andava há horas e não tinha parado um minuto sequer para descansar. Andaram, andaram e andaram, mas ainda não tinha saído daquela floresta. A menina estava com medo de quando a noite chegasse. As silhuetas das árvores poderia causar-lhe pesadelos.

Mas Sabrina tentava não pensar na ideia de ter que passar a noite naquele lugar. Ela achava que logo sairia da mata, nem que precisasse ficar andando o resto do dia.

— Estou com fome — disse Scott. — Será que podemos comer essas frutinhas?

Scott apontou para uma das árvores, onde dava para se ver frutos que pareciam amoras, com uma cor-de-rosa fraca.

— É... — Sabrina pousou a mão esquerda sobre sua barriga, que roncou alto. — Seria bom comer alguma coisa.

Erevu parou de caminhar e observou as frutas.

— Vamos colher e continuar andando — disse ele. — Assim não perdemos tempo. Vamos aproveitar a luz do dia... Quando chegar a noite, a gente descansa para continuar amanhã cedo.

— Por mim tudo bem — Scott começou a andar em direção à árvore —, não dá para continuar com tanta fome.

Erevu sorriu e ergueu Sabrina no ar quando chegou perto do tronco para que ela pudesse apanhar algumas frutinhas.

— Essa árvore é grande demais para dar frutos tão pequenos — disse a menina.

E ela tinha razão. A árvore, que tinha em seu tronco as formas de olhos e bocas, tinha um caule bastante grosso e alto. Os galhos eram enormes e, de tão pesados, pendiam para baixo, fazendo com que os colegas de viagem conseguissem alcançá-los sem precisarem subir.

— Até que são docinhas — disse Sabrina após colocar um fruto na boca e observar, fazendo uma careta, que sua língua tinha ficado mais vermelha que o normal.

— São mesmo — concordou Scott.

Erevu não falava muito, mas gostava da companhia dos dois novos amigos. Já passara muito tempo perdido sozinho naquele lugar. Talvez nem se lembrava mais do dia em que parou ali. Mas não queria contar isso à Sabrina. Ele queria que a menina voltasse e reencontrasse o melhor amigo. Ele deveria estar esperando por ela.

— Ôôô... — Sabrina se desequilibrou em cima das costas de Erevu, quase caiu, mas depois riu. Era muito sorridente e parecia nunca perder a esperança. Os olhos dela não negavam que sempre fora muito alegre.

Quando estavam com os bolsos cheios, Sabrina e seus amigos resolveram voltar à caminhada.

A noite caiu devagar. Sabrina sentiu frio e, por ser pequena e leve, Erevu a carregava nos ombros. Scott ia à frente, guiando, mas chegara o momento de parar. Deviam descansar.

As árvores com formatos incomuns cercavam os amigos, que escolheram uma moita fora do caminho para poderem se deitar. Não era muito confortável, mas Sabrina estava tão cansada que não se preocupou. Deitou de costas para a grama e observou o céu. Scott e Erevu deitavam sobre a grama também, cada um a seu lado.

— Não pensei que fosse dormir por aqui, na floresta — disse Sabrina.

— Eu também não — disse Scott.

Erevu ficou em silêncio, como de costume.

— Você não tinha medo, Erevu? — perguntou Sabrina. O homem negro virou-se para ela, pareceu confuso com a pergunta. — De quando você tinha de dormir sozinho...

— Não muito... — Erevu olhou para o céu. — Eu ficava olhando as estrelas. Elas me acalmavam. Não sei o porquê, mas não costumava pensar em medo.

— Entendo — comentou Scott. — Ainda bem que você encontrou a gente, não?

Erevu sorriu. Os dentes extremamente brancos ficaram à mostra.

— Ainda bem mesmo — concordou ele. — Mas eu queria saber, Sabrina, como você acabou se perdendo?

— Eu não me lembro direito... — respondeu a menina, também observando as estrelas. — É difícil me lembrar da hora em que me perdi. Foi tão de repente... Só lembro que estava indo encontrar Felipe, o meu melhor amigo. Estava andando pelo Jardim Botânico de Curitiba, indo para a estufa, onde tínhamos combinado, quando apaguei. Acordei somente quando vocês tentaram me animar, na floresta. Será que fomos sequestrados?

— Duvido muito — respondeu Erevu. — Quem estaria pedindo o resgate se não tem ninguém aqui com a gente?

Os três ficaram pensativos por um tempo que nenhum conseguiria determinar, até que Scott resolveu falar.

— O que é Curitiba? — perguntou.

Sabrina sentou-se sobre a grama e encarou os olhos azuis de Scott.

— Você está brincando, não está?

— Eu também gostaria de saber — complementou Erevu.

— Curitiba é uma cidade — respondeu Sabrina com tom de surpresa.

— Uma cidade? — Scott sentou-se ao lado de Sabrina.

— Em que país essa cidade fica? — perguntou Erevu, também se sentando ao lado da garota.

— Vocês estão falando sério? — perguntou Sabrina incrédula. — No Brasil. Curitiba é a capital do Paraná, um dos estados do Brasil.

— Brasil? — perguntou Erevu se deitando novamente.

— Quer dizer que você é brasileira? — perguntou Scott.

— Sim — Sabrina estava confusa. — Por quê?

— Ah! — Scott deitou-se também. — Deve ser maravilhoso ser do Brasil. Como você sente?

— Normal — respondeu a menina, ainda com o rosto tomado por uma expressão de dúvida. — Mas espera aí! Por que estão falando desse jeito? Vocês também são brasileiros, não são? Estamos no Brasil. Achei que fossem...

— Estamos no Brasil? — perguntou Erevu sentando-se, surpreso. — Pensei que a gente estivesse na África.

— Que África! — exclamou o homem louro. — Estamos nos Estados Unidos da América. Claro que estamos. Como eu poderia vir parar na África ou no Brasil?

— E como eu iria parar no Brasil ou nos Estados Unidos? — perguntou Erevu.

— E eu? — Sabrina interrompeu. — Como uma menina de dez anos poderia se perder sozinha no meio da África ou dos Estados Unidos se a última coisa que eu me lembro foi estar no Jardim Botânico de Curitiba, no Brasil? — Sabrina tentou reorganizar os pensamentos. — Tudo isso me deixou confusa! Scott, de onde você é? E Erevu? De onde veio?

— Nova York, senhorita — respondeu Scott, num tom orgulhoso de patriota.

Sabrina quis questionar, mas foi interrompida pela resposta de Erevu:

— Luanda — disse ele. — Angola. África.

Todos se entreolharam e ficaram em silêncio.

— Meu Deus — disse Scott.

— E agora? — perguntou-se Erevu.

— Onde estamos? — perguntou-se Sabrina, que abraçou as próprias pernas e abaixou a cabeça. Queria chorar, mas não conseguia.

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