Parte 03 - EM BUSCA DE REDENÇÃO - Capítulo 20 - GRANA FÁCIL

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 Brasil, Curitiba, Estado do Paraná, Lotérica, ano de 2012

De nada adianta ganhar dinheiro se for só para si. Um dia você vai morrer: Qual terá sido a sua obra, quando você se for?

Mario Sergio Cortella

Recordações voltaram a me consumir. Desembarcamos no aeroporto de São José dos Pinhais e pegamos um táxi para Curitiba. Eu estava aflito e Mariana percebeu, pegou em minha mão e sorriu. Nos beijamos. Tudo rodava quando ela me beijava. Fiquei observando as ruas da capital do Paraná, amplas e bem planejadas, de repente reparei em uma lotérica lotada, uma faixa anunciava sobre o acúmulo da mega-sena em 40 milhões de reais. Pedi que o táxi parasse. Mariana desceu meio contrariada, não entendia minha ânsia por fazer um jogo. Fui direto preencher os bilhetes. Com um pouco de concentração lembraria os números.

— Bruno pra que isso? Você é viciado em jogos?

— Confie em mim. Você quer voltar para as pesquisas não quer? Quer fazer elas do jeito que achar melhor? Quer fundar nossa instituição?

— E você com sua tremenda inteligência quer me dizer que o que nós precisamos é jogar? Você é doido?

— Mari, eu vou ganhar e vou financiar nossas pesquisas, a formação de nossa instituição. Depois não me venha querer mordomias, pois a "senhora trabalho" vai ter de dar duro, mesmo com um mundo de dinheiro ao lado.

— Você já jogou antes?

— Nunca, mas nesse jogo o que vale é a sorte dos principiantes.

— E quanto vai ficar essa brincadeira?

— Deixe-me ver. Uns 50 reais. Tem trinta ai?

— Você tá me zoando?

— Zoando? Virou pré-adolescente agora?

Ficamos na fila da lotérica, com nossas mochilas e malas. Foram mais de três anos enfurnados na floresta Amazônica, um pouco do mundo urbano caía bem. Fiz um bilhete para cada tipo de jogo: mega sena, lotomania, lotofácil, todos que existiam. Na saída da lotérica, quando ainda estava com os jogos na mão, um morador de rua, aleijado e moribundo que se encontrava escorado na parede da edificação chamou por nós.

— Ei! Ajudem-me, por favor? Qualquer coisa tá valendo.

Olhei desconfiado, mas piedoso. Escolhi aleatoriamente um dos bilhetes e entreguei ao pobre coitado.

— Não se esqueça de conferir, você pode se surpreender — avisei.

Saímos carregando nossa pesada bagagem, andando pelas ruas da nublada e gélida Curitiba.

— Mariana! Esta foi à primeira de muitas boas ações — um sorriso acompanhou a frase.

— Boa ação, onde? — gargalhou na sequência.

Fomos para o hotel. Fizemos amor de forma inebriante. Ter aquela pele macia, os lábios carnudos, as curvas lascivas e o desejo úmido, naquela cama confortável era diferente, alucinante. Na Amazônia não tivemos oportunidades como aquela. Depois de toda a turbulência dormimos suados, nus e abraçados.

O sexo, como aquele, com muita paixão e amor, traz uma sensação de conquista muito grande, como se o significado da vida tivesse sido entendido. Acho que isso vem do processo de evolução dos seres humanos. Antes, quando nossa espécie ainda estava sendo lapidada pelo tempo e pelas condições ambientais, o objetivo principal era disseminar os genes, fazer com que houvessem filhos e esses conseguissem sobreviver. Foi assim que acabamos firmando nossa cultura monogâmica, no intuito de favorecer a sobrevivência dos filhos, com pai e mãe zelosos, além de inúmeros benefícios sociais. Ter prazer no sexo ajudava o ser humano a se apegar ao parceiro(a) e querer mais e mais. Os objetivos de nossa espécie mudaram muito e agora o sexo, apesar de fundamental, não é mais o foco principal, existindo muitos outros (poder, dinheiro, intelecto, honra...), mas a sensação do sexo com a parceira perfeita é para mim o cúmulo da satisfação.

Acordei com a visão límpida. As cores vibravam, havia perfume no ar e uma formosa mulher nua ao meu lado. Ela abriu os olhos castanhos, serenos e tive a sensação de ter conquistado o mundo. Naquele momento não queria ter mais nada, preferia ter apenas Mariana. Deveria ter desistido de meu longo caminho torturante e seguido o horizonte da paixão? Talvez nunca saiba. Provavelmente o mundo não seria tão sustentável como é em 2333. É provável que fossemos mais felizes se eu tivesse me contentado em ter a mulher de minha vida ao invés do mundo. Teria como voltar atrás? Naquele dia odiei profundamente ter o fardo de ter que mudar o mundo. As coisas poderiam ser mais simples: sexo, amor e arte (rock and roll incluído) estaria de bom tamanho.

— Bom dia! — disse Mariana com a típica voz rouca de quem acaba de acordar.

— Bom dia! É um ótimo dia. Difícil melhorar.

— Vai melhorar quando você experimentar o delicioso café desse hotel.

— Retiro o que eu disse. Acho que pode melhorar sim. Com certeza pode melhorar. Além do café podemos fazer mais coisas deliciosas?

Recebi uma forte travesseirada na cara, não consegui me defender. Mariana era astuta e brigava como ninguém. Ela levantou-se e colocou minha camiseta, sabia que eu achava isso sexy. Escovou os dentes, lavou o rosto e pediu café no quarto para a recepção. Quando ela foi para o chuveiro, não resisti e fui junto. Ficamos no hotel por três dias, quase não saímos do quarto. Havia muito o que experimentar entre nós.

Quem me dera poder ter Mariana de novo. Foram mais de trezentos anos juntos, não sei ao certo como administramos nosso relacionamento por todo esse tempo. Será que ficamos como um casal monogâmico ou acabamos por viver um relacionamento aberto? Não me recordo ainda. Só sei que passaria mais trezentos, mais infinitos anos com ela. Penso que pode existir alguma chance de mudar essa tragédia, diante de tanto absurdo não me surpreenderia, algo como ressuscitar todos. Vou acelerando a moto, cortando a areia quente, indo atrás de Hugh e talvez de uma esperança de recuperar minha família, de talvez concertar todas as mortes.

No último dia de hospedagem, quando iríamos resolver onde viveríamos e como seguiríamos nossa vida em Curitiba, pedimos o café e um jornal para nos atualizarmos das notícias do mundo. Mariana recebeu o café na porta. Ajeitou a mesinha perto da cama com as deliciosas guloseimas matinais e pegou o jornal para ler mais tarde, porém, o resultado da mega sena chamou sua atenção. No canto inferior da primeira página viu os números: 03 16 23 25 51 56, foi então pegar os bilhetes para conferir. Eu estava no banheiro, não presenciei o susto. Ouvi os gritos histéricos e espalhei muita água pelo banheiro ao sair ainda molhado do chuveiro para socorrê-la. Caí feio e testemunhei Mariana saltitando, gargalhando, dando cambalhotas na cama, chutando o ar, sambando, girando, para finalmente se jogar na cama, cansada.

— O que foi? Qual é? — falei ainda caído no chão.

— Nós ganhamos! Somos ricos, muito ricos.

Me levantei estarrecido. Deitei beijando Mariana e rimos juntos.

— Cadê os resultados? Você tem certeza?

— Tô brincando, só queria ver sua cara — disse a bela com um olhar sacana

Fui verificar, pois ela vivia fazendo brincadeiras. Conferi o resultado de todos os jogos.

— Nós não ganhamos todos. Que estranho!

— Bruno, você tá doido? Ganhamos a Sena, o maior prêmio, 40 milhões.

Ainda não sei explicar porque nem todas as minhas previsões se concretizavam. O total de todos os prêmios que ganhamos foi de 42 milhões de reais, mas sabia que poderia ganhar muito mais.

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