Capítulo IV - Tempo é dinheiro

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    Minha ideia era encontrar a Vitória no Metrópolis, mas ela logo me informou que só atendia em um hotel próximo de sua casa, nas redondezas da estação Artur Alvim. Se chama Le Petit e me cobrou trinta e cinco reais por um período de três horas. Era um lugar modesto — alguns poderiam considerá-lo trash —, como eu já imaginava. Quartos minúsculos, colchão desconfortável, paredes mofadas e um serviço de quarto limitado a servir alguns sanduíches. O isolamento acústico dos apartamentos também não é dos melhores, sendo fácil escutar o que acontece no corredor e na rua movimentada em frente à janela.

 O isolamento acústico dos apartamentos também não é dos melhores, sendo fácil escutar o que acontece no corredor e na rua movimentada em frente à janela

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    Me deitei na cama dura e mandei uma mensagem para Vitória dizendo o número do quarto em que eu estava; ela chegaria em seguida. Havia encontrado a moça no Viva Local, um dos meus sites prediletos para encontrar prostitutas. Ela se vendia como uma "novinha gostosa, iniciante, que gosta de dar e receber carinho; resolveu unir o útil ao agradável e fazer sexo em troca de dinheiro". Artur Alvim, tal como seu vizinho Itaquera, é um distrito de classe baixa, não sendo surpresa alguma que seus habitantes enfrentem dificuldades financeiras.

    A Vitória que veio me atender não era tão diferente daquela vista nas fotos. Cabelos negros e longos, pele bronzeada e uma boca enfeitada com batom roxo. Alegre e animada, chegou tirando a roupa e pedindo uma água. "Tá quente aqui, né? Até que não demorei muito, tive que pegar um ônibus correndo e tô morrendo de calor", justifica. Seu sotaque denunciava: era nortista. Descobriria mais tarde que ela veio de Belém, fugida de sua mãe. Seu pai morreu antes mesmo dela nascer. Mora com os avós e não se considera uma profissional do sexo — só quer levantar uma graninha para cursar recursos humanos. Tinha vinte e quatro anos.

    Foi uma trepada bacana. Vitória cobrou apenas cem reais, me chupou com camisinha e logo veio cavalgar no meu pau. Gemia mecanicamente e estava convicta de que convencia, como quase todas as prostitutas iniciantes. Percebi que havia algo errado quando ela começou a fazer movimentos excessivamente exagerados e me mandar "gozar gostoso" em menos de um minuto de foda.

    "Deixa eu ficar por cima", eu disse. Papai-mamãe é minha posição favorita. Ela gelou. "Olha, é melhor a gente ficar assim mesmo, seu pau é muito grande...", retrucou. Por essa eu não esperava. Eu já tive uma namorada que reclamava do tamanho de minha rola e tinham medo que eu a machucasse, mas não pensei que isso aconteceria com uma garota de programa. Ofereci mais cinquenta reais para ela aceitar a proposta; no fim, me deixou comê-la na tal posição e recusou o dinheiro. "Eu só quero que você goze logo, você goza rápido nessa posição? Eu não imaginava que você tinha um pau desse tamanho. Toma cuidado, por favor", pediu.

    Eu acho  que sou meio sádico, pois os gritos de dor da Vitória me excitaram pra caralho. Gozei numa velocidade anormal, sai de cima da moça e ela foi correndo ao banheiro. Enquanto se vestia e tirava o batom com um punhado de papel higiênico, pediu desculpas e disse que eu até fui compreensivo. "Tem homem que não entende que machuca, né? Eu comecei a fazer programa recentemente, não tive que enfrentar nenhum tão grande assim até hoje".

    Quer saber se a Vitória gosta de vender seu corpo? Bom, não muito. "Eu gosto de ter um namorado, sabe? Um homem fixo, que goste de mim, que me ajude. Eu tinha um lá em Belém, mas nada é pra sempre. Até gostei de você, mas com essa rola gigante não dá", brinca. O mais interessante é que ela sonha em ser escritora — redigir um livro com pensamentos e desabafos, que hoje jazem em sua agenda. Ao saber que sou jornalista e tenho uma obra publicada, começa a me fazer algumas perguntas inocentes. "Como eu faço pra escrever um livro? Vou escrevendo no computador mesmo?" É, no Word. Você tem Word? "Tenho sim. Aí depois eu mando pra uma editora, né? É o meu sonho. Eu gosto muito de escrever, quero falar sobre a vida, o tempo, tudo isso. Gosto de falar sobre tudo o que me deprime e me aflige. Se o cobrador do ônibus me deixa chateada, eu vou lá e escrevo sobre isso. É estranho, não sei porque tenho essa mania". Mas também há certas preocupações. "Tem que escrever certinho, né? Não sei se consigo", e ri.

 Mesmo com a baixa instrução, Vitória é apaixonada por artes e filosofia. Reparou no quadro fixado na parede do apartamento — uma criança deitada, coberta por um tecido translúcido — e fez questão de me mostrar sua tatuagem. "Não há nada mais precioso do que o tempo". Por pura ironia, a expressão "tempo é dinheiro" jamais fez tanto sentido.


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Ramon de Souza tem 22 anos, já participou de seis antologias literárias, publicou um livro solo ("Rato Urbano", Ed.Multifoco, 2014), publicará mais um em 2016 ("Meus preciosos contos tristes", Ed. Multifoco) e venceu um prêmio de jornalismo latino-americano. 

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