Estilo #5 - Escolhas

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Hoje vamos fazer algo diferente. Vamos analisar um fragmento do texto de um livro que foi publicado este ano por uma editora respeitável e pensar nas escolhas feitas na edição. O que será observado não é necessariamente um problema da tradução ou revisão brasileira. É bem provável que as imperfeições sejam originadas pela escrita da autora americana e que os profissionais brasileiros tenham optado por não intervir no livro.

Por respeito aos profissionais envolvidos, os detalhes do livro não serão revelados.

Esse exercício de análise nos ajuda a tomar decisões sobre estilo de forma consciente. Entretanto, cabe ressaltar que um romancista que quiser escolher cada palavra de forma consciente desde o início, não concluirá o seu livro. Por isso, recomendo que essas decisões de estilo sejam tomadas após a conclusão do livro, lá pela segunda revisão.

Vamos então analisar dois trechos:

Trecho 1 original:

Agora ela se moveu de leve sobre a mesa. Havia a dor, mas não era tão forte. Considerando o quão fundo a faca tinha entrado, seus Santos devem ter guiado as mãos de X.

Trecho 1 alterado:

Ela se move de leve sobre a mesa. Havia a dor, mas não era tão forte. Considerando o quão fundo a faca entrou, seus Santos guiaram as mãos de X.

Comentário trecho 1:

- Perceba que o "Agora" é inútil e contradiz o passado do verbo "mover". Fora isso, o uso do presente traz a ideia de simultaneidade entre o acontecimento e a leitura, aproximando o leitor da ação e facilitando sua imersão.

-  Se você pode usar o Pretérito perfeito ("entrou"), não use o Pretérito mais-que-pefeito composto ("tinha entrado"). No caso do trecho, a mensagem é a mesma e a escolha verbal cria uma pequena barreira à imersão do leitor. Felizmente, essa barreira é facilmente ignorada pela maioria dos leitores.

- Um vício bastante comum entre os escritores é a utilização de palavras de dúvida para "mostrar" a dúvida dos seus personagens. Fosse um fato isolado, não seria um grande problema. Entretanto, existe uma enxurrada dessas palavras (tentar, talvez, dever, provável, ...) na maioria dos textos. Principalmente em narrativas em primeira pessoa. Então, se acostume a caçar essas palavras. Crie questionamentos e dúvidas de outra forma – diálogos e ações – ou faça o contexto criar a dúvida (na cena em questão, só a personagem X tem essa fé, logo a outra é, no mínimo cética ela. Assim, o "deve" é desnecessário).

Trecho 2 original:

X estreitou os olhos. "Não sou um personagem saído de uma história infantil que faz brincadeiras inofensivas e rouba do rico para dar aos pobres. Havia dinheiro a ser pego e informação a ser conseguida." 

Trecho 2 alterado:

X estreitou os olhos. "Não sou um personagem de história infantil que faz brincadeiras e rouba do rico pra dar pro pobres. Tinha dinheiro pra pegar e informação pra conseguir." 

Comentário trecho 2:

                  

- Nesse diálogo o maior problema é o excesso de formalidade. O resultado é a estranheza. O leitor questionará quem fala dessa forma. Por isso, uma das maiores preocupações no diálogo é fazer o texto ser natural. A informalidade só não é necessária quando o personagem é "marcado" como formal ou quando a situação demanda.

- Veja também que a palavra "inofensiva" não agrega na caracterização do substantivo "brincadeira" porque brincadeiras tendem a ser inofensivas. Caso passasse a ideia contrária (como "brincadeiras cruéis") o uso do adjetivo seria recomendado.

- Vale notar que, em se tratando de diálogos, todas as regras devem ser balanceadas com cuidado. Todos temos nossos vícios de linguagem e usá-los pode enriquecer a caracterização do personagem.


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