Capítulo 3 - Apenas respire

Começar do início
                                                  

Depois de tomar café e responder pela terceira vez pra minha mãe que está tudo bem comigo, subo para meu quarto novamente. Paro por um momento na porta, a decoração está ficando antiquada pra minha idade. Lençóis cor de rosa chá - combinando com os tapetes e as cortinas - cobrem a cama. Meu quarto parece mais uma zona de guerra, de tão bagunçado. Gosto de compará-lo à minha mente. Há livros empilhados na mesa do computador, almofadas jogadas pelo chão junto com sapatos que fiquei com preguiça de guardar depois de usar. Minha bolsa está em cima de um pufe branco e há uma xícara que usei ontem à noite em cima de meu criado mudo.

Meu teclado, que aprendi a tocar com onze anos, está montado em um dos cantos e meu violão recostado ao lado. Também há uma estante abarrotada com livros, minha segunda paixão depois da música. Pelo menos a cama é de um tamanho maior que o de solteiro, acomodando com um pouco de esforço Simas e eu.

Não que nós a usemos muito, já que minha mãe trabalha apenas meio período como professora e Daniel está terminando o ensino médio e ficava na escola só pela manhã, ou seja, sobra pouco tempo para ficarmos sozinhos em casa. Mas de qualquer modo Simas e eu não somos do tipo que colocamos sexo em primeiro lugar, não sentimos necessidade de ficarmos grudados o tempo todo.

Organizo meu quarto - o que significa que retiro o que posso do caminho - e em seguida tomo um banho rápido. Visto uma calça jeans preta e uma camiseta da mesma cor para o enterro de Denise.

Dou uma espiada em meu visual no espelho e encontro o reflexo de uma garota assustada. Deixo meu cabelo loiro claro solto, caindo até a cintura. Passo pouca maquiagem nos meus olhos e deixo o castanho natural deles se destacar. Só passo corretivo o bastante para tirar as olheiras que tenho desde pequena. Mas ainda assim pareço pálida por causa da cor natural da minha pele. A única cor que se destaca mesmo em meu rosto são algumas sardas que salpicam a região do nariz e dos olhos.

Simas disse que passaria em casa para me pegar dali a dez minutos, então decido escutar um pouco de música para acalmar os nervos. Dou o play na música no computador e imediatamente o ambiente do meu quarto se enche com uma melodia suave, lenta e um tanto melancólica.

Fecho os olhos enquanto uma voz suave começa a ressoar pelo meu quarto. A música é minha verdadeira paixão, ela é capaz de transmitir os sentimentos e emoções mais profundos da alma.

Em outros tempos eu costumava compor algumas letras e melodias. Sempre fui movida a música, como se ela fosse o combustível que me guia todos os dias. Mas hoje eu só a ouço, nunca mais tive inspiração ou ânimo para tocar nada.

Ouço passos no corredor e abro os olhos, me transportando de volta à Terra. Uma batida leve soa na minha porta e eu me viro em direção ao som. A cabeça de minha mãe se esgueira para dentro.

- Desculpe querida, mas Simas está lá em baixo. – diz ela de forma delicada e doce.

Sorrio levemente e aceno com a cabeça. Mas um calafrio começa a subir por meus dedos. Antes que eu possa pensar muito sobre o que estou fazendo, levanto rapidamente, pego minha bolsa do pufe e desço as escadas até a sala de estar. Simas está lá parado meio sem jeito e olha pra mim assim que desço o último degrau. Ele está lindo usando uma camiseta preta e uma calça escura. Seu cabelo rebelde me faz sorrir um pouco.

- Está pronta? – pergunta ele e estende a mão pra mim.

Minha resposta sincera para aquela pergunta seria que com certeza não, eu nunca estaria pronta para ir a um enterro. Mas ao invés disso, apenas balanço a cabeça afirmativamente e seguro firme a mão dele e depois de me despedir de minha mãe seguimos para o carro.

Algum tempo depois estamos todos reunidos em volta de uma lápide. Assim que me vê Bianca vem correndo ao meu encontro e me abraça forte.

- Você está bem? – pergunta ela com um olhar triste e as mãos geladas tocando meus braços descobertos.

Problemática Mente (amostra)Onde as histórias ganham vida. Descobre agora