Parte I

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- Saia já detrás dessa porta, menina! - A governanta nunca dera a Cinderella muita folga. Qualquer deslize era motivo de repreensão.

- Mas mamãe está... - Diz a garota com tom de choro.

- Sem desculpas! Você irá se sentar comportadamente na cadeira e aguardar seu pai e o doutor saírem do quarto.

Cinderella se senta na cadeira, tentando forçar os ouvidos a compreender os baixos sussurros intercalados entre um acesso e outro de tosse forte de sua mãe.

- Postura. - Diz a governanta.

Cinderella de pronto senta-se adequadamente na cadeira, tão logo a porta se abre e o médico aperta a mão de seu pai.

A garota observa o senhor de cabelos brancos saindo porta afora e encara o pai, em seguida.

- Venha cá, Ella. Venha ver sua mãe. – O pai de Cinderella raramente a chamava pelo apelido carinhoso que a mãe lhe dera, mas nesse momento até seu coração duro estava amainado.

Antes de se levantar a menina olha em direção a governanta que, com um aceno de cabeça, assente para que ela siga o pai.

A mãe de Cinderella, Eleonor, não era velha, era mais jovem que seu marido, Ludwig. Como é costume, casaram-se quando Eleonor não tinha completado quinze anos. Mas agora, estava tão adoentada que aparentava ter muito mais que seus vinte e três anos.

Adentrando no quarto, Cinderela corre e sobe para a cama de seus pais, abraçando sua mãe, já com os olhos pingando como uma torneira velha.

- Mamãe, você vai ficar boa, não vai?

- Ela não deveria, Ludwg... - A voz de Eleonor sai fraca, mas é suficiente para que o pai compreenda.

- Só um pouco querida, não vai fazer mal.

- Amo você minha pequenina Ella, não importa o quão difícil seja... - Um acesso de tosse toma conta de Eleonor novamente, mas, mesmo depois de se acalmar, nenhuma palavra sai de sua boca. A aparente calmaria se dá quando sua alma já deixara o corpo fragilizado.

- Mamãe? Mamãe! - O choro de Cinderella era tão alto e sofrido que poderia facilmente ser ouvido até mesmo pela criadagem que estava do lado de fora da mansão.

A menina só se acalmou quando o médico, retornando às pressas pelo chamado dos criados, deu-lhe um calmante.

Claro que Cinderella sofria por sua mãe, era a melhor pessoa que ela conhecia e a que mais amava. Seu pai era um bom homem, mas sempre arrefeceu em zelar pela filha, não fosse no que lhe competia.

***

Sete anos se passaram desde a morte da mãe de Cinderella, que não é mais uma criança.

- Ela parece mais uma égua selvagem! Não sei como chegamos a este ponto, mas seus serviços não serão necessários. Em algumas horas, minha nova esposa chegará e colocará tudo em ordem, inclusive Cinderella.

A governanta, uma mulher um tanto quanto orgulhosa, contêm as lágrimas pela inesperada decisão do homem. Sai de cabeça erguida, mas sequer tem a oportunidade de se despedir de Ella. Por mais que negasse, desde a morte de sua mãe, ela afrouxara as rédeas da garota e a deixara mais livre do que uma dama deveria realmente ser.

Cinderella vem cavalgando no lombo de seu cavalo branco, numa pressa desenfreada. O cavalariço logo corre ao seu encontro e a dirige com pressa ao estábulo.

Assim que os dois se veem sozinhos no estábulo, ela nota a tristeza em seu olhar.

- O que houve, por que esta cara Matteo? – Cinderela pergunta, logo notando a expressão carregada, que não combina com os traços bonitos e marcantes de seu rosto.

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